You were right about the stars*

29/08/2008

Nem me lembro de quando vi uma estrela cadente pela última vez. Deve fazer tempo, o que me leva a pensar em duas possibilidades: ou o céu anda nublado demais ultimamente ou eu não tenho olhado para cima e sequer percebo a presença das nuvens, o que é muito mais incômodo. O hermetismo urbano me sugou.

Eu costumava sentar na frente de casa para ouvir música no volume máximo e olhar o céu a aproximadamente dez anos atrás, antes de vir morar em Porto Alegre. Lembro-me de já ter visto mais de um suicídio estelar (carregamos poeira de estrelas no corpo, portanto) na mesma noite, e de alguns pedidos feitos nessas ocasiões também. Que eu me lembre, nenhum realizado, diga-se de passagem, mas não tem problema. C’est La Vie. Eram alguma coisa entre adolescentes, ansiosos e apressados (rá, adivinhem. Se esses adjetivos andam juntos, MORRI, descobri que continuo na adolescência). Não, não morri. E nenhuma estrela cadente mudou a minha vida (intervenção literária: a Clarice Lispector, de quem eu sempre falo por aqui, tem dois livros com a palavra “estrela” no título, e não só nele. São A Hora da Estrela – pobre Macabéa – e Como Nasceram as Estrelas, que seria o ORIGINAL título deste post caso eu não estivesse com a música Jesus, etc, do Wilco, na cabeça há dias).

Pois bem, vim falar de estrelas porque há mais ou menos duas semanas a Nasa divulgou fotos de uma região a 170 mil anos luz. Trata-se da Nebulosa de Tarântula (na foto acima), uma região onde acontece o nascimento de novas estrelas. A imagem, por todas as suas cores, agora enfeita a minha área de trabalho, e o contexto disso me lembrou de que existe uma lenda mato-grossense que fala da origem das estrelas. Triste, como a maioria das lendas indígenas, mas muito bela. A história vem de uma tribo chamada Bororo, que habita ainda hoje o planalto central do Mato Grosso. Entre os índios Bororo é função dos homens caçar e pescar; cabe às mulheres da tribo tecer redes, produzir o artesanato e trazer para a aldeia alimentos de origem vegetal (assim como fazer o plantio destes).

A lenda:

Em uma certa tarde, enquanto os homens estavam na floresta, as mulheres da tribo saíram para procurar espigas de milho; queriam fazer bolos e pães para os maridos. Caminharam durante longo  tempo e só encontraram alguns pezinhos mirrados, com poucas espigas. No dia seguinte resolveram levar algumas crianças da aldeia para ajudá-las, e o resultado foi satisfatório. O número de espigas já era suficiente para a surpresa que fariam aos maridos. Porém enquanto transportavam as espigas, um menino roubou algumas  e levou-as para a avó: “Prepare um bolo para que eu possa dividi-lo com meus amigos”. A velhinha não sabia nada sobre a origem das espigas, e na companhia de seu amigo, um papagaio, prontamente fez a vontade do menino. Assim que o bolo ficou pronto, os meninos devoraram alegres os pedaços e farelos, sem deixar nenhum sinal da refeição. Depois de saciados, lembraram-se de que as espigas haviam sido roubadas, e ficaram com medo de que as mães os castigassem pela arte cometida. Resolveram então fugir para a floresta, mas antes disso tomaram precauções para que a velhinha e seu companheiro, o papagaio, não contassem nada às mulheres. Cortaram-lhes as línguas.

E assim correram em direção à floresta. No caminho encontraram um beija-flor. Os meninos pediram então para que o beija-flor voasse o mais alto que conseguisse, e amarrasse a ponta de um cipó no céu para que conseguissem subir. O pássaro fez como lhe haviam pedido, e enquanto ele voava, os meninos iam subindo, subindo, um a um, pelo cipó céu acima. Quando as mulheres voltaram para a aldeia e não encontraram os meninos, ficaram preocupadas e foram perguntar para a velhinha, que nada podia responder, pois já não tinha mais língua. As mulheres então começaram a procurar pelas redondezas, muito mais preocupadas em encontrá-los do que aborrecidas pelo roubo das espigas. Uma das mães viu, então, a ponta do cipó, ainda próxima do chão. Imaginando que os meninos haviam subido por ali, elas começaram a gritar, implorando para que os filhos descessem e voltassem à aldeia, mas os meninos continuavam subindo, e o beija-flor voava cada vez mais alto com a ponta do cipó no bico, em direção ao céu. Mesmo com todo o choro e as súplicas das mães, os meninos não voltaram. Assim, como castigo pela desobediência e ingratidão, foram obrigados, todas as noites, a olhar fixamente para a terra e cuidar de suas mães, que sofriam de saudade. E os olhos dos meninos, sempre abertos, tornaram-se as estrelas.

* * *

*Eis a música que originou o título do post, uma das minhas preferidas do Wilco. Acho que merecia um clipe melhor, sem egocentrismos visuais da banda e com um pouco mais de ficção, mas prestem atenção na letra e na melodia:

5 Respostas para “You were right about the stars*”

  1. Sara Diz:

    Oie!
    Não conhecia essa lenda… muito bonita mesmo…
    Adorei o texto, como sempre…
    Beijocas


  2. me abri pro primeiro parágrafo. se terminasse ali, já estaria satisfeito. mas ainda bem que continuou, linda a lenda indígena, pouquíssima gente de fora do Mato Grosso deve conhecer. pode seguir nos ensinando =)

  3. Diz:

    Lembro da última estrela cadente que vi… foi uma ótima (e rara) oportunidade de olhar pro céu à noite.
    Acho que a essência da coisa tá em pedir coisas de looongo prazo, daí a gente acaba não lembrando e segue acreditando que pode fazer pedidos…

    Ótimo o texto, me orgulho de ti :)
    beijo!

  4. ma Diz:

    Esta é apenas uma das lendas…vou te mandar outras que sei e vc vai amar este mundo mágico que entramos ao conhecê-las…
    Muito lindo teu texto,filha…
    Beijão

  5. Suzana Diz:

    Ai Cris lindo texto. Sabe até hj qdo vou pra São Gabriel gosto de ficar de noite na sacada olhando estrelas, lendo e conversando com a mãe. Aqui em Porto Alegre são poucos lugares onde consigo ver estrelas e mesmo assim as vezes acabo andando “mais cabeça baixa”. Estrela cadente só vi uma. Em compensação, já passei momentos ótimos apreciando um céu estrelado.


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