Li Saturno nos Trópicos, do Moacyr Scliar, há bons anos. Acho que logo que passei no vestibular, ou um pouco antes. Isso quer dizer de deve ter sido lá por 2003 ou final de 2002. Me darei ao trabalho de transcrever vários parágrafos que muito oportunamente reli no início da semana.

O Combate do Carnaval com a Quaresma, de Pieter Bruegel (1559)
“Também a festa era um antídoto para a tristeza do cotidiano. No final do medievo e no começo da modernidade multiplicaram-se as festividades populares, ligadas ou não à Igreja. É a época em que os goliardos, estudantes que se vestiam de maneira característica, com guizos nos chapéus de várias pontas, percorriam a Inglaterra, a França e a Alemanha recitando poemas debochados (que serviriam de inspiração para os Carmina burana de Carl Orff) e apresentando sátiras contra a Igreja. Os goliardos eram apenas uma das “confrarias alegres” (confréries joyeuses) que então surgiram na França e em outros países.
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Essa é também a época em que o Carnaval ganha impulso. Originava-se, como já se disse, da Saturnália dos antigos romanos, ou talvez das Bacanais, festas em geral realizadas no solstício de inverno. Trata-se da noite mais longa do ano no hemisfério norte e, portanto, a mais lúgubre; neutralizá-la com uma festa deve ter parecido, à época, uma boa idéia (mais tarde, a Igreja estabeleceu quase a mesma data para o Natal). A propósito similar obedeciam outras celebrações, como a Festa dos Loucos. Não se tratava, como o nome pode sugerir, de uma celebração da loucura. Era, isso sim, uma válvula de escape – necessária, na medida em que, no Renascimento, as maneiras iam se refinando, impedindo a expressão da agressividade.
Roma e outras cidade italianas , notadamente Veneza, Florença, Milão e Nápoles, transformaram o Carnaval numa grande celebração que ocorria nos últimos dias antes da Quaresma, período destinado à penitência e à meditação. O contraste – na verdade a oposição – entre Carnaval e Quaresma, entre prazer e abstinência, não passava despercebido aos artistas. Em O Combate do Carnaval com a Quaresma (1559), Pieter Bruegel retrata a Quaresma como uma dama seca, magra, triste, usando um vestido cinzento – o retrato da melancolia. Já o Carnaval, obeso, rubicundo, está sentado sobre um enorme tonel de bebida empunhando um espeto com carne assada. A palavra Carnaval, aliás, vem de carne, e de fato, carnes de porco, de vaca, de coelho eram consumidas em grande quantidade. Em muitas cidades alemãs, os açougueiros eram figuras importantes nos desfiles. Em Koenigsberg, em 1583, noventa açougueiros desfilaram carregando uma salsicha de mais de duzentos quilos. Mas “carne” também aludia, claro, à carnalidade, ao sexo; falos gigantescos às vezes apareciam nos desfiles. O que coincidia, como na Saturnália, com uma liberdade geral de costumes, não raro agressiva; mascarados podiam insultar pessoas e criticar autoridades.
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Bakhtin (Mikhail) mostra como esse e outros festejos cumpriam um papel histórico e psicológico importante, subvertendo, ainda que transitoriamente, a cruel ordem social: ao lado do mundo oficial, comportado, surgia um segundo mundo, carnavalesco. A localização da festa no calendário era apropriada, já que, no passado, ele ocorria logo após o ano-novo, marcando assim, diz Bakhtin, o fim do ano velho, dos velhos tempos; como o bifronte deus Janus, que deu origem à palavra janeiro, a festa medieval tinha uma face oficial, religiosa, a mirar o passado, e uma face debochada, olhando o futuro.“
Saturno nos Trópicos – A Melancolia Européia Chega ao Brasil
Moacyr Scliar
Editora Companhia das Letras
p. 108 a 110