Imaginários Urbanos

08/03/2007

Peguei só uma cadeira eletiva esse semestre na faculdade: Seminário de Cultura e Comunicação. A idéia da professora é que a gente se envolva num projeto chamado  “Imaginários Urbanos“, coordenada pelo pesquisador colombiano Armando Silva. O estudo é desenvolvido nas principais capitais da América Latina, incluindo São Paulo. Durante o seminário, a pesquisa vai ser aplicada em Porto Alegre. Na real, vai ser a primeira etapa. Provavelmente nos semestres seguintes ainda vai ter trabalho pra quem for fazer a disciplina. O estudo propõe uma comparação entre as culturas urbanas latino-americanas e a observação das cidades a partir do olhar dos cidadãos. A proposta não é encontrar uma “essência” latino-americana, mas apontar diferenças e afinidades entre as metrópoles.

Não conheço muitas cidades brasileiras, nem de outros países, pra ter uma base sobre isso. Há algum tempo, passei uns dias em Buenos Aires e aí é que pude olhar Porto Alegre de fora, como estrangeira. E senti Porto Alegre como uma cidade apertada. Não achei que fosse pensar isso, mas depois de conhecer Buenos Aires, às vezes me sinto sufocada em Porto. Acho as avenidas estreitas demais, o trânsito bagunçado demais e percebi que a cidade talvez não seja tão arborizada como eu pensava. Porto Alegre não é uma cidade bem explorada, seja por turistas eu por quem mora nela. Pra começar, a cidade está de costas pro Guaíba e puxa os moradores pra outras áreas, mais distantes. Não acho que seja uma cidade bem usada.

O que acontece aqui talvez (e certamente) acontece com outras cidades, mundialmente. O espaço físico cresce (e se torna apertado, poluído visualmente), as metrópoles se agigantam, mas o uso que é feito delas pelas pessoas diminiu. O trânsito dos moradores acaba limitado às redondezas de onde ele mora ou trabalha, e a cidade acaba se tornando uma “cidade imaginada”.

Quanto mais espaço tivermos para usar nas ruas, mais sairemos de casa, e mais usaremos a cidade onde moramos. Não precisa muito pra ter certeza disso. É só olhar essas pracinhas meio abandonadas e sem cuidado… Ninguém se arrisca a passar por perto de noite. Na praça Argentina, ali perto do Campus Central da UFRGS, durante o dia já é perigoso. Se não tivermos segurança, sairemos pouco de casa. Com o tempo, todos acabam tendo uma vaga idéia dos espaços urbanos.

A partir do 11 de setembro nos EUA, as pessoas em Nova York passaram as usar menos as ruas, com medo de sair de casa. Isso já aconteceu em São Paulo, por causa do crime organizado, e no Rio de Janeiro. Em Bogotá, aconteceu algo parecido há alguns anos. O então prefeito da cidade, Andrés Pastrana (e depois presidente da Colômbia) mandou cortar as árvores de uma avenida para que os carros pudessem circular mais rápido. Ele queria “modernizar” a avenida. Os habitantes não concordaram com a atitude; gostavam da avenida arborizada e fizeram advertências ao projeto. De nada adiantou. O que aconteceu foi que anos depois o governo teve de refazer todo o jardim e replantar as árvores, como medida para combater a criminalidade, conseqüência da decadência da avenida.

Acho que os espaços urbanos acabam sendo muito mais projeções das fantasias de quem mora neles, do que realmente lugares de uso prático. A partir da pesquisa, tem como saber como o cidadão percebe a cidade onde ele mora. Quem mora em Porto Alegre, o que vê? Quantos de seus planos são projetados na cidade? E se ele realmente “sente” a cidade ou apenas vê os espaços e tudo passa despercebido. Muita gente conhece outras áreas da cidade só pela televisão ou mesmo pela internet.  Claro, a pesquisa leva em conta as diferenças entre os habitantes e os bairros da cidade. São várias cidades, dentro de uma só. E se em Porto Alegre é assim, o que dizer de São Paulo?

Abro um parênteses aqui pra comentar, aliás, que se torna complicado pensar assim só por saber que o Brasil é um país fragmentado. São divisões seguidas de subdivisões, que geram outras… Acabamos nos apegando muito mais à cidade onde moramos, do que ao país. A gente só se encanta pelo que conhece. Então, pesquisar as cidades através dos hábitos de seus cidadãos (e não o contrário) é a melhor forma de saber quanto a cidade significa para cada um e quanto ela pode ser melhorada.

 * * *

Me lembrei agora de que por dois semestres seguidos a cadeira de Produção e Difusão em Radiojornalismo também tinha um trabalho que era sobre as cidades. Os alunos tinham que captar sons que representassem as ruas, o movimento, a vida e o cotidiano nos centros urbanos.

* * *

O Amilcar Bettega Barbosa tem um livro chamado Os Lados do Círculo, de 2004. Ele usa prédios, praças e ruas de Porto Alegre como cenário dos acontecimentos descritos nos contos. É um daqueles livros que tu começa a ler e não dá vontade de parar. Li em pouquíssimo tempo. Mesmo não conhecendo bem alguns dos lugares onde os contos “acontecem”, é muito fácil de imaginar tudo que é descrito. Cinematográfica, a linguagem.

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5 Respostas to “Imaginários Urbanos”

  1. Ed Says:

    “Seminário de Cultura e Comunicação” é um projeto muito legal. Este seu post ficou ótimo. Adorei isso:
    “Acho que os espaços urbanos acabam sendo muito mais projeções das fantasias de quem mora neles, do que realmente lugares de uso prático.” Duca.

    Quanto à minha suposta regularidade no que tange a postar, ahn, nem é tanto assim. Às vezes tenho mais tempo, só isso.

    E eu aposto que em breve tu vai mudar de layout…muitas opções é um problema, hah!

    Abraço. Vou pra aula agora:(

  2. Sara Says:

    Adorei!
    Bjos

  3. marcia Says:

    não conheço tantas cidades para fazer comparações e imagino que viver em Barcelona, Lisboa ou Paris seja tremendamente mais interessante do que viver aqui. conheço alguns lugares no Brasil, alguma coisa da Espanha e do México. de tudo que já vi, Porto Alegre me parece um baita lugar.

    concordo com tua sensação a respeito de Buenos Aires. cidade plana. vc caminha quadras e quadras, não se cansa e não se perde. espaços amplos e arquitetura charmosa, livrarias e cafés por todo canto.

    morei 9 anos em São Paulo. nenhuma cidade me parece tão opressiva quanto ela. apesar de tudo que há nela para ver e fazer, morar ali deixa o olhar mais curto. gosto de voltar por uns dias, me divertir, e é isso.

    em Porto Alegre o trânsito é muito mais organizado e fluente, existem parques e muito verde nas ruas. bares legais, cinema, coisas para fazer de graça. sem contar que os bairros periféricos estão bem mais inseridos no contexto urbano do que em outros lugares.

    o que mais me irrita em Porto Alegre é o clima, este calor insuportável. eu só trocaria POA por um lugar mais frio.

    :)

  4. emily Says:

    essa proposta da nilda rendeu belos trabalhos semestre passado. umas fotos, inclusive, estão enfeitando nossa parede. E me fazem sorrir todos os dias, de tão bonitas que são… solte suas asas. :-)

  5. Thiago Antunes Says:

    Estou trabalhando na pesquisa e acho extremamente válido saber como o cidadão de Porto Alegre se percebe. Acho que um cidadão do Bom Fim tem uma visão diferente da cidade em relação a um cidadão da Restinga, por exemplo, porque frequenta lugares diferentes ou não, e com uma freqüência diferente, provocando sensações diversas em cada um. Eu, como morador do Bom Fim, acho o Parcão uma encheção de saco no fim-de-semana!


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