Cantarola, camomila

10/04/2007

Gosto de português. Talvez por ter tido a sorte de aprender com bons professores desde as séries iniciais, talvez porque minha mãe sempre incentivou a leitura. A justificativa não importa. O que importa é que tenho gosto pelas palavras, e por isso não foi nenhuma novidade para os meus pais quando decidi cursar algo na área da comunicação.

O fascínio vai além da leitura e da simples montagem das frases. O interessante é desenhar as palavras, juntar uma letra em outra, soletrar, colocar uma palavra ao lado da outra e ver que sentido vai ter. Acho algumas palavras realmente bonitas, gostosas de falar. Algumas carregam um sentido certeiro e representam tão bem a coisa a que dão nome, que formam uma dupla perfeita. “Camomila”, por exemplo. Parece nome, comentei com um amigo outro dia. É delicado e prazeroso de dizer. Os lábios se juntam duas vezes para pronunciá-la. Por isso o nome “Camila” é delicado. Lembra camomila. E a flor de camomila é delicada.

Achei mágico quando, no filme “A Máquina”, de João Falcão, o personagem interpretado por Paulo Autran conta como surgiram as palavras. Ele inverte a ordem natural do pensamento. Diz que, antes de tudo, Deus criou as letras, depois as palavras. Mas achou que ainda não era o bastante. Pensou e chegou à conclusão de que as palavras deveriam ter significados. Eram bonitas, mas não estavam completas. Elas deveriam definir algo. Então, para cada uma das palavras, Ele foi criando um objeto ou algo a que elas dariam nome, e assim surgiu a comunicação verbal.

Vício é uma palavra bonita também. Não levo em conta o significado dela. Considero a facilidade de falar, o som aberto dos “is” e a força do “c”. “Octopus”, embora não seja da língua portuguesa, é uma palavra confortável. Parece que a gente enche a boca para falar e deixa o som macio. Morango, almofada, maionese, cantarola, pão, zíper. Uma observação, por sinal: a maioria das palavras gostosas de falar tem a letra “m” no meio. Lembrei-me agora de que a Macabéa de Clarice Lispector adorava soletrar a palavra datilógrafa. Da-ti-ló-gra-fa.

Falando em palavras feias, posso citar caminhão, caneta (tem sons monótonos), rua. Asa, então, nem se fala, acho horrível. Remete a frieza e falta de conteúdo. Não me pergunte por quê. É a sensação que eu tenho.

Acho que minha atração pelo movimento concretista deve estar aí. Os poetas viam um desenho. Preocupavam-se com forma e conteúdo, com a sonoridade dos textos. A construção deveria cativar como uma imagem. Escrever poemas era uma forma de montar formas e dar identidade visual àquilo que as pessoas liam.

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5 Respostas to “Cantarola, camomila”

  1. .:Just a Little Time Girl:. Says:

    Sabe, também tenho cá uma idéia visual das palavras… Quando estou a falar com alguem, me ponho logo a escrever palavras soltas, que a pessoa pronuncia, em alguma folha por perto.

    Uma palavra que me encanta é allure e uma que acho que diz muito bem o seu significado é cinismo. Enlaço é outra a qual me prendo…

  2. sapollium Says:

    Eu lembro da Camomila.

    Eu tenho minhas sonoras também: xilema, floema, cambalacho [aliás, já dediquei uma postagem a elas].

    Mas, quando tu falou do “A Máquina”, jurei que ia citar um poema de um cara aqui de porto alegre, mais ou menos no tom. Bien, fair enough propaganda.

    Só mais uma coisa: eu não acho tão bonita a palavra amigo. Bem que podia ser mais carinhosa, não?


  3. Que linda essa teorias da criação das letras!!!!

    Talvez ela acalante a cisma que eu tinha em querer saber porque pipoca é pipoca, porque casa é casa… Engraçado que sempre usei o exemplo da pipoca e agora escrevendo aqui me dei conta: não é que as letrinhas ficam saltitando para formar a palavra?! Pi po Ca

  4. camila scheifler lang Says:

    Adorei a associação de camomila com camila, a delicadeza do nome e a forma de traduzir na letra a essência do sentimento. Parabéns pelas escolhas…

  5. Usina Says:

    […] especifico de xampu de camomila”  (caiu no post Cantarola Camomila) “Pode ser que eu não fique no Brasil” – planos… “em cartaz no cinema as […]


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