17/04/2007

Não foi muito longe. Chegando na sinaleira da esquina parou, de cabeça baixa e coceira no pescoço. Voltou. De onde eu te conheço? Desculpa. Não foge. Eu sei que parece cantada, mas acredita em mim, não é. Ela olhou desconfiada, como de costume. Ergueu um pouco as sobrancelhas e fugiu os olhos para o lado. Tornou a olhar para frente e sorriu. Não sei… Acho que não te conheço. E escondeu uma mecha de cabelo atrás da orelha. A expressão dele perdeu a graça. Ele arrumou a alça da mochila. Ela segurou melhor os livros e tentou continuar o caminho. Peraí. To me lembrando. Tu não faz artes plásticas? Não. Faço história. Na UFRGS? Aham. Ah, fica perto de Letras. Talvez eu já tenha te visto por lá. Pode ser. Eu tenho aulas nas quartas. Eu, nas sextas. Hmmm. Pois é. Preciso ir. Não tem importância, a gente tava indo pro mesmo caminho. Sim. É. aaahm. Na verdade eu atravessaria a rua. Ah, não. Tudo bem. Eu não queria ser chato. Desculpa. Nãã… Bem capaz. Se eu tivesse no teu lugar, teria feito a mesma coisa. Nadavê. Ele sorriu e abriu espaço para ela passar. Ela deu um passo inseguro. Como é teu nome? Gabriel. Ana. Eu gosto do teu nome. Eles se olharam. Ela olhou pra cima, ele, pra baixo. A mão dele abandonou o bolso e coçou a sobrancelha. De repente a gente se vê por aí então. Vai ver é do campus mesmo que a gente se conhece. Sim… Bom, eu tava indo pro mesmo caminho que tu… Tu não ia atravessar a rua? Sim, mas mais lá na frente. A calçada, aos poucos, vai ficando pra trás e a esquina, se aproximando. Os carros passavam, barulhentos, ofegantes. Eu odeio essa avenida. É difícil de atravessar. É. Pior. Eu sempre espero o sinal fechar. Morro de medo de atravessar rápido e levar um tombo no meio da rua. Hahaha… Capaz. É. É porque já aconteceu, e agora eu tenho medo. Aaaah bom. Fechou. Onde tu mora? Moro aqui no bairro, na real. Tava indo na locadora. E tu? Bom Fim. Perto da Independência. Ela franzia um pouco a testa, por causa do sol que entrava nos olhos. E olhava meio de canto. Rapidamente. Um pouco tímida, talvez. Era o que dava para perceber. Arrumou de novo a mecha escura que insistia em atrapalhar a visão, mas tomava o cuidado de deixá-la não muito presa, para que logo caísse de novo e precisasse ser arrumada atrás da orelha. Assim ela teria o que fazer com a mão, por pelo menos alguns segundos. Eu tenho um amigo que mora por ali, na Garibaldi. Ah, é perto. Eu gosto daquele bairro, principalmente nos sábados à tarde. Eu tentei morar lá, mas acabei achando apartamento por aqui, e ficou tudo mais perto. Fora a faculdade, claro. A locadora é aqui. Pertinnho. Aham. Eu vou caminhar mais um pouco. Desarmou a seriedade e sorriu. A ponta do nariz dela estava brilhosa. Tinha o nariz empinado, de gente segura. Nada a ver com os gestos tímidos. Ele parou na entrada da locadora. Ela já dava mais alguns passos, de fininho. Ana, eu posso te encontrar em algum lugar nessa cidade ainda? É sério. Ahm. A mecha caiu, e ela não arrumou. Tinha as unhas compridas, bem cuidadas. Em vez disso, levou a mão até a orelha e massageou um dos brincos que usava. A gente se encontra por aí. O campus é pequeno… Mesmo? Sim. Me promete? Prometo.

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