Nos meus sete anos, eu era o que eu sou.

21/06/2007

Num dia entre 20 e 26 de fevereiro desse ano eu me vi tomando café da manhã com pessoas de 4 línguas diferentes. Foi em num albergue, em Buenos Aires. Torre de Babel!!! Nos entendíamos no inglês e, claro, linguagem gestual e risadas. Tínhamos então uma brasileira (eu), uma americana, um israelense, e um sul-africano. O sul-africano, um cara de olhos verdes, cabelos claros e pele bem bronzeada, contava que ainda não sabia o que queria da vida, mas que futuramente seria escritor (até agora não sei se estava brincando ou falando sério, porque ele era engraçadíssimo. O cara transpirava carisma. Em um segundo passávamos de um assunto sério para uma gargalhada, e geralmente era ele o responsável por isso). Ok. Mas entre uma risada e outra, ele falou uma coisa que eu achei MÁGICA, e por isso nunca mais esqueci. O cara (puxa, estou tentando lembrar o nome dele, mas…) contava que apesar de ter 27 anos não tinha certeza de suas escolhas. A única coisa que sabia é que escreveria um livro. No mais, viajava. Queria saber mais sobre a vida, sentir coisas diferentes, conhecer pessoas, lugares e histórias. E começou a contar uma das histórias que um dia alguém havia contado pra ele. Vou tentar reproduzir as palavras dele. Pelo menos o sentido em que ele falou cada frase, e como ele contou, me lembro exatamente.

“O fato é que eu não tenho certeza sobre as coisas que espero. Mas sei que também não estou completamente errado. E tenho uma coisa pra contar. Quando você está perdido, meio sem saber o que pensar, sem rumo, ou precisa tomar uma decisão que você sabe que vai influenciar para o resto da sua vida, uma coisa pode ajudar. Você começa a pensar no que foi ontem, e então no que foi na semana passada, e então no mês passado (gesticulava delicadamente com o dedo indicador), e começa a voltar no tempo. Você então chega aos seus dezoito anos, e então aos quinze, aos dez… e então finalmente chega aos seus sete anos. E lá, nos seus sete anos, é que está a resposta. Você é o que você era quando tinha sete anos. Você vai descobrir isso. E quando você não souber o que fazer, tente se lembrar do que você pensava quando tinhas sete anos. Porque é lá que está a resposta. O que você pensava quando tinha sete anos é o que vai ajudar você agora, tantos anos depois.”

Não sei se o cara realmente queria ser escritor, e se um dia vai descobrir o que realmente espera da vida, mas bom contador de histórias era. Quando ele colocou um ponto final no que dizia todos ficaram calados. Queríamos era ouvir mais. Depois daquela manhã ele passou a ocupar um lugar na minha memória. E sei que não fui só eu que saí daquela mesa com uma sensação de que a gente sempre guarda um pouco da criança que foi por baixo dessa pele que envelhece. Nos meus sete anos, vejamos, eu era sonhadora demais.

Nada mudou.

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16 Respostas to “Nos meus sete anos, eu era o que eu sou.”

  1. Helena Furtado Says:

    eu também era. a diferença é que a flecha pode ir mais longe agora, e declarar independência não é bem só uma viagem.

    além de sonhadora, eu sou pretensiosa.
    mas a arrogância, diria esse povo de abris, é quase uma virtude.

  2. Bruno R. Says:

    muito interessante. li imaginando o sujeito, com seus movimentos característicos, e imaginando você com o olhar fixo, prestando atenção na história. depois, comecei a imaginar os meus 7 anos e, confesso, não me lembrei de muita coisa. acho que aos 7 eu já era assim, meio esquecido. mas lembro q eu gostava de redação na escola e era meio encapetado. hehe. talvez seja uma teoria bastante válida, essa.
    :*

  3. Cris Says:

    Acho que pretensão vem com maturidade, sabe? Ser sonhadora e ter os pés na lua é uma coisa. Coisa de criança. Agora, ser sonhadora e saber que as coisas que a gente quer não estão assim tãããão longe é outra. A pretensão vem com isso. Tu sabe que se tu der um passo maior pra direita ou pra esquerda tu consegue. As coisas deixam de ser tão platônicas.

    É, Helena. Tu bem tem uma carinha de arrogante : P
    Beijo!

    Bruno, eu lembro que também gostava de redação. Até os meus 5 anos e pouco eu era terrível. Depois entrei na escola e virei gente. Só que daí tb fiquei tímida demais. Ninguém ouvia o que eu falava, de tão baixa que era a minha voz. Eu fico viajando nessa teoria às vezes. Volta e meia concordo, depois vejo que não tem nada a ver. Até acho que é uma daquelas histórias que não se tem o que concordar ou discordar, mas achei bonita : )


  4. fofinho teu blog. realmente simpático
    :)

  5. Natusch Says:

    Que post bacana. Bom jeito de reencontrar os teus escritos depois de uma semana de delírio futebolístico :)

    Fiquei pensando. Incrível como eu era quase a mesma pessoa quando eu tinha 7 anos de idade. A diferença é que eu era um pouco mais calado, acho – mas o sentimento com que eu encaro todas as coisas segue igualzinho. É como se eu estivesse assistindo um filme muito legal que ninguém mais está vendo, e eu tenho que memorizar tudo para poder contar depois. Era assim quando eu era moleque, e é igual agora. Imagino que seja isso que chamam de curiosidade.

  6. gabriel Says:

    to tentando me lembrar dos meus sete anos…to tentando…


  7. esse cara deve ser legaaaaal!
    *.*

    esse blog me enche os olhos. quando abri (depois de tempos que não o fazia) haviam muitos e muitos postsss!!! fiquei tãaao feliz.
    obrigada por alegrar ainda mais o meu dia!

    abraços. =D

  8. Marcos Says:

    Parabéns pelo blog! Muito bom mesmo…

  9. SUELEN Says:

    Eu, nos 7 anos, queria crescer.
    Eu, nos 23, continuo querendo.
    A diferença é que nesse espaço de tempo,
    algumas pessoas me ajudaram a fazer o que eu queria!
    Te amo!
    Obrigada!

  10. ritaloureiro Says:

    Deixa eu ver…

    Eu nos meus sete anos, queria ajudar pessoas.
    Realmente acho que não mudou…

    Acho muito difícil uma pessoa mudar em essência.
    Só na superficie mesmo… Na “pele que envelhece”.

    Bom. Irmão são criaturas “curiosas” e presentes em tudo…
    Neblina colorida deveria ser sete anos…^^

  11. ritaloureiro Says:

    *irmãos!

  12. Lola Says:

    nhaaaaa. *sorriso*

  13. gabriel Says:

    lembrei…queria ser o que sou agora…ainda bem que lembrei…ainda bem…

  14. GuiCaon Says:

    No fim das contas acabei achando uma música do Nei Lisboa que eu não conhecia e me lembrou DIRETO desse post. Doody II:

    “tenho um carinho despido / por esse menino travesso / que vejo quando olho no espelho / em dias de muito calor / que esconde que fica vermelho / e finge que odeia o cupido”

    Queria te passar, mas não soube pra qual mail :(

    Saudades dos papos e do café que a gente nunca tomou :)
    bjs


  15. Quando eu tinha sete anos estava aprendendo a ler e escrever e achava que isso me faria conquistar o mundo!

  16. Sandra Leite Says:

    Muito bom o teu blog! Bom mesmo e esse texto eu adoreiiiii. Lembrei que aos 7 anos queria ser enfermeira, uma grande necessidade de cuidar do mundo. Hoje sou economista e quero também cuidar do mundo, mas o mundo não entende os algoritmos. Não entende. Preciso de terapia.
    beijos


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