Archive for julho, 2007

Sobre elas

29/07/2007

Não é que as pessoas sejam contraditórias
nem tristes, nem solúveis em segundos
É que cada uma carrega tantos pedacinhos
e cada pedacinho se fragmenta em tantos outros pedacinhos
que é impossível colar as superfícies uma na outra
e pintar tudo de uma cor só

27/07/2007

please me
please me

Idéia fixa

27/07/2007

sempre teve mais amores do que pudores
Esmaltes escuros e dentes afiados
O terceiro furo na orelha dificilmente carregava um brinco
Oito passos da cama até a porta
eu te acompanho e tu nem vai ver que eu errei o caminho
ou isso é desculpa esfarrapada pra poder sonhar tão alto?
Eu não preciso de desculpas pra isso
Só preciso de uma caneta, pele e um bom vinho…
Tenho tudo
Me basta. E deixa essa janela fechada, meu bem
Que hoje eu vou ficar um pouco mais

25/07/2007

Ah. E sem exagerar no café.

Que medo.

Cansei de ser [vó]terana

25/07/2007

Promessa é dívida. No ano que vem, me formo. Então durante o próximo semestre, aulas até aos sábados.

24/07/2007

[comprei uma caixa de giz de cera
falta cor aqui lá
falta cor nas folhas brancas
e nas minhas paredes e unhas
só quero vermelho
derretido, vindo de longe
me compra um céu estrelado?
e um gramado verde, verde?
ah, mas isso não se compra, eu sei
um dia, uma noite e uma inquietude?
um sorriso em forma de parênteses
nas linhas que surgem ao redor da boca]

23/07/2007

Dawn McCarthy's SONGTELLING

 

“FAUN FABLES é uma exploração de música e teatro, liderada pela voz. Leva a lembrar forma e expressão de canções muito antigas, embora não antiquadas. É uma coleção de músicas constantemente enfeitada com amparo, narração e fisicalidade. Os shows do Faun Fables podem ser lidos como uma série de “composições” de canções, onde o mundo de cada música expande-se em um lugar integralmente dimensional.”

[http://www.faunfables.net/]

Faun Fables – Early Song

1 – The Crumb
2 – Old Village Churchyard
3 – Apple Trees
4 – Only a Miner
5 – Sometimes I Pray
6 – Honey Baby Blues
7 – Lullaby For Consciousness
8 – O Death
9 – Ode to Rejection
10 – Bliss

Dos resíduos

22/07/2007


[Ilustração de Fernanda Fonseca]

Fui tomar um café com a Jô. Fazia um bom tempo que não via ela. O lugar era pequeno. Uma dessas padarias com cheiro bom. Enfim, o café que ela queria, não tinha. A máquina estava estragada. Fui no pão de queijo e depois peguei um café (o meu não precisava da máquina). Ficamos ali, conversando, falando dos dias, da morte, dos caminhos alternativos, das gentes, da vida que tá aí e da que queremos pra nós. Um pouco antes eu estava indo para a casa dela e vi escrito em algum lugar que não me lembro bem onde, acho que era um outdoor, sobre os sonhos quebrados dessas pessoas que morreram em SP. E fiquei pensando que o ser humano é mesmo um ser teimoso. Muito teimoso. A gente sabe que um dia vai morrer. Pode ser hoje, pode ser amanhã, em alguma esquina, pode ser daqui uns 30 anos, sei lá eu. Ninguém sabe quando vai ser, e mesmo assim constrói a vida como se ela fosse eterna. Pode ter quem ache o contrário, sempre vai ter. Mas só o fato de eu economizar no super hoje e deixar de comprar o chocolate que eu queria porque à noite tem uma festa e eu quero ter dinheiro pra ir já escancara isso. E se eu não chegar à festa? É a isso que me refiro. A gente constrói cada pensamento como se nada fosse cortar o caminho dele, ou a ordem seqüencial das coisas.

Sendo estranhamente fria e objetiva, quem foi que disse que somos eternos? Quem foi que disse que temos o direito de reservar uma fatia de bolo para o café da manhã do dia seguinte? Ninguém nos disse. A gente sabe que um dia vai morrer, e sabe que as pessoas que estão junto da gente também podem nos deixar de repente. Ninguém aqui é eterno, mas no fundo, no fundo, gostaríamos de ser, e agimos como se isso fosse realidade. Podemos morrer com 130 anos e ter a certeza de que com essa idade toda vamos deixar a vida com algo incompleto.

A chuva começou a cair e na hora de ir embora, ninguém tinha guarda-chuva nem nada. Esperamos um pouco para os pingos ficarem mais fininhos e cada uma foi pra sua casa. Pensei em pegar um ônibus para evitar a chuva, então atravessei a rua e fui até a parada. Só tinha eu ali. A chuva fina, e eu esperando o ônibus. De repente me dei conta de que eu nem estava tão longe assim de casa, e o ônibus ia fazer uma volta enorme até passar pela minha rua. Mas a chuva… Saí caminhando e reparando que eu dobrei a esquina, já estava na rua da minha casa, e ainda não tinha visto o ônibus passar por mim. Fiz a escolha certa. E a chuva, discreta, nem estava me incomodando. Tava era bem gostoso molhar o cabelo e desviar das lajotas soltas na calçada.

O ser humano é muito teimoso porque sabe que vai morrer, não tem nem idéia de quando isso vai acontecer, e mesmo assim, carrega de eternidade cada atitude, tem agenda preenchida até o fim do ano, idéias, bolos para o dia seguinte, e depois ainda insiste que precisa aproveitar melhor as chances e os instantes. Nunca vai ser o bastante, e acho que a vida sempre vai guardar algo residual. Vamos sempre querer gastar todas as vontades e experimentar coisas novas, mesmo que tenhamos 130 anos nas costas. A gente sabe que vai morrer e não se acostuma com essa idéia, e eu acho isso tão vulnerável, mas ao mesmo tempo tão nobre e desafiador.