Cinco leituras

20/07/2007

O Donizetti me passou um meme sobre as cinco leituras mais presentes pra mim. Vasculhei a memória e pensei. Já aconteceu de eu simplesmente me apaixonar por um conto e depois procurar outras obras do autor e não achar a mesma maravilha. Opto, então, pelas leituras que me deram mais satisfação, sejam elas livros inteiros ou trechos deles, contos em separado… ok, lá vou eu. E lembrem-se: a ordem dos fatores não altera o produto.

 

https://i0.wp.com/www.arara.fr/OsLadosDoCirculo.jpgOs Lados do Círculo (2004), de Amílcar Bettega Barbosa – Vi uma resenha na Bravo, se não me engano e achei interessante. Comprei. Não conhecia o autor, até aí. Todos os contos (doze, no total) têm como cenário ruas, praças e lugares conhecidos de Porto Alegre. Os círculos a que Bettega Barbosa se refere aparecem, realmente, tanto na estrutura das narrativas, como em pequenos gestos dos personagens. Elementos como o movimento que uma porta faz ao abrir, reproduzindo um quarto de círculo no espaço, a forma geométrica do sol numa manhã de domingo, o círculo vicioso que se forma entre o início e o fim de um conto. Personagens somem de uma história e aparecem em outra… Ora primeira pessoa, ora terceira. Ora obsessivo e raivoso, ora singelo (é só virar a página). Eu terminei de ler o livro boquiaberta, com vontade de ler tudo de novo, e mais, e mais, e cada palavrinha. Genial.

 

A imagem “https://i0.wp.com/farm1.static.flickr.com/172/420515031_5f5e04da4d_m.jpg” contém erros e não pode ser exibida.Para uma Menina com uma Flor – Vinicius de Moraes – Coletânea de crônicas, contos e pedaços do cotidiano escritos pelo poeta entre 1941 e 1966 e publicados na imprensa. Os assuntos são leves e com toques de humor. Engraçado que conforme a minha leitura ia avançando as páginas eu ia ficando feliz, feliz. As histórias são cheias de carinho. Minha preferida é a que dá nome ao livro. Eu tinha comprado a edição antiga, e por gostar tanto dela, acabei dando de presente a uma amiga. Para uma menina com uma flor.

 

“E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a cara-na-vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.”

 

O Ovo Apunhalado (1975), de Caio Fernando Abreu – O que mais me fascinou foi a facilidade dele em tirar os pés do chão. A maneira de abordar temas controversos, indivídio x coletivo, solidão x multidão e crises existenciais de forma atrativa. Sabe? Realismo fantástico puro. Seres de sangue (?) claro e aroma perfumado que enlouquece e faz rir, algumas divagações regadas a bebida… Lembro que terminei de ler Réquiem por um Fugitivo com um arrepio no corpo e um pouco de medo. Fiquei imaginando o personagem de cor pálida e dedos finos que o Caio Fernando Abreu descreveu. Achei uma página com muitos contos dele. Aceito de presente Morangos Mofados.

 

O Livro dos Abraços, do Eduardo Galeano – Histórias que o autor ouviu em seus caminhos pela América. “A memória viva nasce a cada dia”, diz Galeano, e é por aí mesmo que o livro se encaminha. Entre celebrações, contradições, crônicas e causos, a obra traz ilustrações em preto e branco que parecem ter sido feitas à lápis, meio tosquinhas e justamente por isso charmosas, e todas as páginas têm margem. É a América Latina se mostrando em detalhes, lendas e textos curtos. Eu não sei se já li o livro inteiro. Como são minicontos e histórias que dificilmente passam de duas páginas, ele fica ao lado da minha cama e volta e meia pego e escolho algo aleatoriamente. Tenho um marcador entre as páginas, que muda de lugar sem critério nenhum. Ta aí a graça de tudo. O meu conto preferido, até agora, fica na página 95. Chama-se A Pequena Morte:

 

“Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França, a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”

 

A imagem “https://i0.wp.com/img371.imageshack.us/img371/5622/edgarallanpoe0bh0.jpg” contém erros e não pode ser exibida.A quinta leitura que eu cito é um poema do Edgar Allan Poe chamado O Corvo, publicado em 1845 (The Raven and Other Poems). Quem me apresentou esse poema foi o Seben em uma aula de Comunicação em Língua Portuguesa II. Não tenho tanta certeza quanto à cadeira, mas acho que foi isso. Na real sempre me vi meio desconfiada com esses contos de crimes, mistério e tal. Nunca me atraíram muito, mas depois de ler O Corvo, fui procurar mais coisas do Poe. Gostei, mas não chegou perto da sensação que me deu quando li o poema. É sombrio e triste, e tão visual. Pela internet tem na versão original, em inglês, e algumas traduções. Uma, aliás, do Machado de Assis e outra do Fernando Pessoa, se quiserem ler.

 

Estão aí. É o que me vem à cabeça. Aproveito e repasso o meme para a Clau, o Flávio, o Márcio, a Rita e o Gabriel. E que ninguém se sinta obrigado. Responde quem quiser.

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9 Respostas to “Cinco leituras”


  1. Aceito.

    Aliás, não posso te dar o Morangos Mofados, mas posso te emprestar, caso não tenhas lido ainda.

    Belas escolhas as suas, por sinal.

  2. Donizetti Says:

    Poxa, eu realmente fiz uma boa escolha ao te passar essa batata quent.. esse meme, não? É delicioso alguém que cria com as histórias uma relação tão pessoal e interessante… O ponto engraçado é que você presenteou uma amiga com sua edição antiga do livro do Vinicius, olha só este meu texto:
    http://www.interney.net/blogs/hedonismos/2007/03/13/para_uma_menina_flor

    Temos algo em comum! :-)


  3. A Pequena Morte também é o meu preferido do livro do Galeano!
    Já coloquei diversas vezes no meu blog.

  4. Rita Loureiro Says:

    Uns dois livros ai em cima me interessaram bastante,
    Os Lados do Círculo (2004), de Amílcar Bettega Barbosa e
    O Ovo Apunhalado (1975), de Caio Fernando Abreu

    Não deixarei de procurar ler…
    Tou lendo Poe, mas não li o corvo ainda.

    Quero lê-lo assim como você me aconselhou,
    numa noite chuvosa, com luz de velas.

    Aceito… Já vou preparar minha lista.
    Mas acho que vai ser difícil escolher só cinco!
    ^^

  5. Sandra Leite Says:

    adoro o Caio! Muito mesmo.

    E estou aprendendo a gostar do Edgar Allan Poe….boas dicas.

    bjs,

    Sandra

  6. gabriel Says:

    Caraca alguns livros que voce citou aqui, não sei se pela facilidade que voce tem com a critica e fazer a resenha, bom impressionam é o que posso dizer. O do Galeano eu li só o tradicional – Veias abertas da América latina – e já fiquei extremamente impressionado, mas Vinicius e Caio Fernando Abreu eu to em divida com esses dois autores…Mais ainda depois de ler suas resenhas. Bom Cris eu já tinha escrito sobre isso, me propuseram anteriormente um “meme” sobre esse mesmo tema então deixo aqui o link, pois creio que leituras são sempre extremamente pessoais, mas sempre fica a curiosidade eu pelo menos três desses livros que você citou eu vou ler com certeza. E suas criticas estão extremas se é que isso pode ser usado como elogio. Bom o link para o post que fiz sobre livros é esse:

    http://sincerosreceios.blogspot.com/2007/06/cinco-livros-que-tenham-e-que-ainda-so.html

    Saudações sinceras e legal sua lista, vamos ver o que voce acha da minha…

  7. gabriel Says:

    Cris voltei por que achei que abusei, no comentário anterior, da palavra extremo…bom não irei ao extremo de dizer que não usarei mais a palavra extremo, mas confesso a você que chegarei ao extremo de diminuir o uso extremamente importante da palavra extremo.
    e é isso
    saudações sinceras


  8. […] não recebo essas coisas e meus amigos não devem conhecer sequer o termo. Mas li no blog da Cris Simon e achei divertido, tanto que resolvi fazer o mesmo. Vou usar exatamente o mesmo significado – […]

  9. lins Says:

    “para uma menina” é definitivo.
    Quanto ao “Corvo”, pra mim, tem a “Filosofia da Composição” (se não me engano) que é um ótimo texto do Poe sobre o poema.
    beijão do gordo


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