Dos resíduos

22/07/2007


[Ilustração de Fernanda Fonseca]

Fui tomar um café com a Jô. Fazia um bom tempo que não via ela. O lugar era pequeno. Uma dessas padarias com cheiro bom. Enfim, o café que ela queria, não tinha. A máquina estava estragada. Fui no pão de queijo e depois peguei um café (o meu não precisava da máquina). Ficamos ali, conversando, falando dos dias, da morte, dos caminhos alternativos, das gentes, da vida que tá aí e da que queremos pra nós. Um pouco antes eu estava indo para a casa dela e vi escrito em algum lugar que não me lembro bem onde, acho que era um outdoor, sobre os sonhos quebrados dessas pessoas que morreram em SP. E fiquei pensando que o ser humano é mesmo um ser teimoso. Muito teimoso. A gente sabe que um dia vai morrer. Pode ser hoje, pode ser amanhã, em alguma esquina, pode ser daqui uns 30 anos, sei lá eu. Ninguém sabe quando vai ser, e mesmo assim constrói a vida como se ela fosse eterna. Pode ter quem ache o contrário, sempre vai ter. Mas só o fato de eu economizar no super hoje e deixar de comprar o chocolate que eu queria porque à noite tem uma festa e eu quero ter dinheiro pra ir já escancara isso. E se eu não chegar à festa? É a isso que me refiro. A gente constrói cada pensamento como se nada fosse cortar o caminho dele, ou a ordem seqüencial das coisas.

Sendo estranhamente fria e objetiva, quem foi que disse que somos eternos? Quem foi que disse que temos o direito de reservar uma fatia de bolo para o café da manhã do dia seguinte? Ninguém nos disse. A gente sabe que um dia vai morrer, e sabe que as pessoas que estão junto da gente também podem nos deixar de repente. Ninguém aqui é eterno, mas no fundo, no fundo, gostaríamos de ser, e agimos como se isso fosse realidade. Podemos morrer com 130 anos e ter a certeza de que com essa idade toda vamos deixar a vida com algo incompleto.

A chuva começou a cair e na hora de ir embora, ninguém tinha guarda-chuva nem nada. Esperamos um pouco para os pingos ficarem mais fininhos e cada uma foi pra sua casa. Pensei em pegar um ônibus para evitar a chuva, então atravessei a rua e fui até a parada. Só tinha eu ali. A chuva fina, e eu esperando o ônibus. De repente me dei conta de que eu nem estava tão longe assim de casa, e o ônibus ia fazer uma volta enorme até passar pela minha rua. Mas a chuva… Saí caminhando e reparando que eu dobrei a esquina, já estava na rua da minha casa, e ainda não tinha visto o ônibus passar por mim. Fiz a escolha certa. E a chuva, discreta, nem estava me incomodando. Tava era bem gostoso molhar o cabelo e desviar das lajotas soltas na calçada.

O ser humano é muito teimoso porque sabe que vai morrer, não tem nem idéia de quando isso vai acontecer, e mesmo assim, carrega de eternidade cada atitude, tem agenda preenchida até o fim do ano, idéias, bolos para o dia seguinte, e depois ainda insiste que precisa aproveitar melhor as chances e os instantes. Nunca vai ser o bastante, e acho que a vida sempre vai guardar algo residual. Vamos sempre querer gastar todas as vontades e experimentar coisas novas, mesmo que tenhamos 130 anos nas costas. A gente sabe que vai morrer e não se acostuma com essa idéia, e eu acho isso tão vulnerável, mas ao mesmo tempo tão nobre e desafiador.

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11 Respostas to “Dos resíduos”

  1. Rita Loureiro Says:

    Desfecho;

  2. marlene Says:

    Mas aí é que está a maior magia das coisas…vc sabe que não é eterno ,mas faz cada coisa pensando no amanhã…o filho vai ser o companheiro de conversas,vai estar formado,ser a agente do inacabado , o tempo vai ser maior…também muitas coisas…mas e se não se sonhar que tem amanhã?
    Acho que a vida seria bem menos saborosa e as coisas das quais a gente se priva não teriam gostinho de quero mais como eu estou tendo agora…A minha fatia de bolo adoçou muito nestes últimos tempos e pode ter certeza valeu esperar!
    beijo na ponta do nariz….


  3. e é a intensidade de cada momento vivido como único nos dará a resposta.
    vivendo mais um dia, ou mais 30 anos. saberemos que vivemos, e não apenas existimos…

    bom texto, boa reflexição
    obrigada e…
    abraços xP

  4. Marcos Says:

    Imprensa marrom, o mundo nem vai acabar coisa nenhuma. Todos vamos viver pra sempre e a chuva e o café sempre vão ser bons, não importa a circunstância!

    Já notou que tem um smile aqui no final da página de comentários? :)

  5. Rafael Terra Says:

    “A gente constrói cada pensamento como se nada fosse cortar o caminho dele, ou a ordem seqüencial das coisas.” É, integro esse grupinho de humanos sonhadores e teimosos.
    Belo texto!
    Abração.


  6. sábado de chuva também me faz pensar nessas coisas. belo texto!

    sugestão de trilha para o próximo dia chuvoso: 12 segundos de oscuridad, cd do jorge drexler lançado a pouco.

    beijo!

  7. Cris Says:

    Não sei se vou ser a agente do inacabado, mãe, mas seria bom.
    Beijinho na ponta do nariz também.

  8. Cris Says:

    Vou ouvir esse cd, Ricardo. Num dia chuvoso : )
    Depois te conto o que achei.

    E a pizza, por que não foi?!??!?!
    Beijão! Volte sempre : )

  9. marlene Says:

    Põe a cabeça no travesseiro e dorme sossegada…você já é!

  10. Sara Says:

    Me fez pensar… muitoo!
    Te Amo!
    Bjão

  11. gabriel Says:

    tinha tentado ler já por duas vezes este escrito, mas nunca conseguira chegar ao segundo apragrafo, hoje li até o fim e fiquei parado depois de ler, parado pensando o quanto somos moldados, disciplinados, preparados para acharmos que somos eternos. Eu confesso que o que aqui voce escreveu abordou um tema que tenho encontrado em muitos blogs, muita gente escreveu com raiva, com indignação, com rancor, poucos escreveram com a razão, com o sentimento, mas ainda sim com um sinal de reflexão. Muito bom ter lido o que aqui eu li…muito bom..
    saudações sinceras.


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