Cenas perfeitas

27/08/2007

Meu silêncio guarda um mundo. Só meu. Guarda o ronco de um automóvel, guarda uma caixinha de músicas que já não existe mais. Guarda diários empoeirados nas minhas gavetas, e um envelope com cartas de amizade de 1995, fotos de antes disso, e depois. Meu silêncio guarda o som da rua, apenas alguns metros longe de mim e guarda as palavras que eu não quero dizer. Guarda cenas que acontecem todos os dias, irretocáveis, cenas perfeitas. Talvez a perfeição exista mesmo. Não sei se um dia vou chegar a uma conclusão sobre isso e, sinceramente, não há motivo nenhum para eu me abalar se não conseguir. Não vai mudar nada na minha vida. Talvez a perfeição caiba em um espaço de tempo tão curto, tão, mas tão curto, que quase não é percebida, mas ok, admito, talvez ela exista. Não é sólida nem eterna, mas está aí, em segundos. Não precisam ser cenas com finais felizes, nem com início, meio e fim. Só precisam funcionar. Só precisam nos atingir de alguma forma. É isso? Perfeição é isso? Como eu me contradigo nos meus conceitos. Mas não é sobre isso que quero conversar agora.

Naquela hora da manhã poucas pessoas andavam pelas ruas, e minha aula era cedo. Eu ia com calma, incrivelmente não me atrasaria. O velhinho que caminhava alguns metros a minha frente ia em um ritmo só um pouco mais lento que o meu, com um jornal aberto, lendo. Atenção no caminho, nem pensar. Atenção na calçada, nem pensar. A vida para ele estava naquele momento nas linhas diagramadas do jornal. Alguém vinha em direção contrária, e reconheci a manta. Existem trocentas mantas iguais por aí. Óbvio, eu sei disso. Mas talvez aquela fosse justamente a manta que eu conhecia. Não sei. Minha visão estava totalmente comprometida por causa do jornal aberto. Talvez o velhinho feche o jornal e eu consiga ver. Talvez. Talvez. Mas eu me aproximava. E a pessoa em direção contrária também. Não fiz muito esforço para ver, confesso. Deixei que a pessoa se aproximasse e eu pudesse ver quem era. Eu me aproximei do velhinho, o jornal se manteve aberto, e eu nada pude ver além de algumas linhas de lã verde escura. A cena perfeita estava aí. Exatamente no mesmo momento em que eu ultrapassei o velhinho, a pessoa em direção contrária também o fez. Nem um segundo antes, nem um segundo depois. Precisamente ao mesmo tempo. O velhinho continuou o caminho, com as folhas abertas, eu já estava a sua frente, e a manta se distanciava atrás de mim. Não fiz questão de olhar para trás. Nem pensei em fazer isso, sei lá por que motivo. Vi mais interesse no que tinha acabado de acontecer do que na pessoa que havia passado. Era irretocável, claramente irretocável. Se era a manta que eu conhecia, não sei, nunca vou saber. Talvez se eu tivesse enxergado a pessoa que carregava a manta algo tivesse mudado, ou não. Talvez aquele se tornasse só mais um dos meus freqüentes atrasos. Nunca vou saber.

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2 Respostas to “Cenas perfeitas”

  1. Helena F. Says:

    deslocar da pessoa para o fragmento.
    por um segundo pode funcionar mesmo.

    bj

  2. gabriel Says:

    saudades sinceras saudades…


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