19/10/2007

Geralmente não consigo ler no ônibus. Me distraio olhando pela janela, vendo o movimento (ou a inércia das pessoas), as filas, os carros, o fluxo. Outro dia meu ônibus ficou parado um bom tempo esperando as pessoas entrarem e fiquei observando um mendigo que passava do lado de fora. Ele parou e ficou olhando para as pessoas no ônibus, inclusive para mim, cuspiu umas duas vezes no chão, coçou a cabeça e continuou caminhando. E na hora me veio à cabeça um pensamento cruel, talvez verdadeiro, sei lá. Mas achei cruel. Algo no sentido de que talvez os filhos que a gente coloca no mundo sejam o resultado dos nossos piores aspectos. Dos melhores também, é claro, mas eles vão carregar toda nossa nojeira junto. Vão carregar o escarro, a nossa animalidade, as vontades e os fracassos. Foi um pensamento rápido e amargo. Mas vendo aquela pessoa na minha frente não consegui imaginar outra coisa. Como na noite anterior tinha falado com minha mãe por telefone, e estávamos justamente falando sobre filhos e tal, acho que associei as coisas. Só que a minha mãe falou de uma forma tão mais limpa e bela sobre isso. Vendo o mendigo ali, sujo e pedante, como se nunca tivesse sido uma criança ou como se não tivesse o direito de ter filhos, vi os dois lados da moeda e senti um pouco de vergonha do que pensei. Claro, o vidro protegia ele dos meus pensamentos, e eu, da presença dele. Mas nada protegia ninguém da visão de ninguém e do julgamento de ninguém. Acho que o que vi arrancou um pouco da suavidade que eu tento manter. E assim é com todo mundo. E vai ser com os filhos de todo mundo. As crianças vão nascer não se sabe se de amor ou perversão (das duas coisas), crescer, deixar a inocência de lado e apostar nas próprias vontades. Minha tendência à subjetividade e ao lirismo sempre me leva a pensar que um filho vai tornar as pessoas mais cuidadosas com a vida. Talvez mais sorridentes. Lembrando do mendigo me vem um sentimento amargo que não gosto de ter por perto. É como um puxão forte.

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10 Respostas to “”

  1. luizm Says:

    Estou criando um “Agregador de Blogs”, um site que usará o WordPressMU e uma séried e plugins para oferecer tudo que o WordPress oferece + a possibildiade (e um apoio efetivo) para monetização do blog.

    O Endereço já cadastrado é blogprofissional.com.br

    Estou buscando blog como o seu para fazer parte do projeto, acredito que pdoeremos ter uma sinergia grande e ampliar as visitações de todos e ainda por cima faturar em cima disso, o que acha?

    Se aceitar, apenas para efeitod e cadastro, me mande um e-mail para luizm@rocketmail.com com o Subject PROBLOGGER (para meu filtro pegar) e passe no contendo as seguintes informaçoes sobre o blog:

    Nome:
    Assunto:
    URL:
    Vistação média:

    Preciso disso para adequar a estrutura, pois não adianta colocar algo no ar que caia na primeira semana…

  2. L@uR!nh@ Says:

    Cris, grata pela visita no blog!
    O teu é fantástico… Vou voltar!! :)
    Bjinhus

  3. ma Says:

    Ainda aposto no lado bom dizendo que os filhos ,apesar de ser a nossa continuidade tb são o que de melhor a vida nos reserva e tb o de pior pq são o resultado do que colocamos para eles…não concordo que sejam página em branco ao nascer mas são em uma análise o filtro do que passamos a eles…é neles que a gente tb vê os erros que cometeu anos depois ,mas pela falta de experiencia e conhecimento…Apenas uma coisa:Hoje pensaria muitas e muitas vezes em colocá-los novamente no mundo por apenas uma razão,a de sentir que algo me escapou das mãos…o tempo passou muito rápido e o turbilhão de informações que despejam na gente a todo instante precisa de pessoas mais corajosas que eu…fica sobrando o amor que dediquei ,e este é inesgotável e vai correr pelo meu ser em outros mundos tb…Amo vc guria!

  4. Natusch Says:

    Eu não consigo ler no ônibus porque fico com dor de cabeça, simplesmente =P

    No mais, eu concordo contigo em boa medida. E é por isso que eu acho que mudar o mundo passa, necessária e desesperadamente, por mudar os pais. Porque, não se iludam, a gente não muda mais é coisa nenhuma – a não ser que consigamos transmitir para o futuro o incorformismo com o errado e a vontade de mudar para melhor. Aos poucos, tende a dar certo ;)

  5. Sandra Leite Says:

    Difícil essa reflexão porque nos expõe aos espelhos que tanto queremos desviar.
    Adoro seus posts , Cris!

    beijos

  6. Cris Says:

    Oi, Laura!

    A casa está de portas abertas : )
    Bjs

    Mãe,
    O possível foi feito. O resultado tá aí… Hehehe
    Também te amoo!!
    Beijão : )

    Igor,
    Às vezes realmente penso que a gente não muda mais é nada também. Só que é como tu disse, talvez transmitindo o inconformismo com algumas coisas já ajude. A questão é: já não estamos bem mais conformados com tudo do que as gerações passadas? A tendencia não é a acomodação? Torço para que não seja, na boa.

    Bêjo!

    Sandra, também acho isso. Ao mesmo tempo que eu não repetiria com meus filhos algumas coisas da educação que recebi (e disso a gente sempre quer desviar e mudar), outras eu reafirmaria. Sei lá, mas daí penso que meus filhos vão nascer e ver tanta coisa feia que existe por aí. Dá um certo medinho, não?
    Beijão!!! : )
    Bons os nossos papos, sempre!

  7. Tia Mone Says:

    Tua escrita me lembra…..um pássaro! Um pássaro????Sim, isso mesmo, um pássaro! Mas não um pássaro cantando…! Me lembra um pássaro voando! Bjos!

  8. Cris Says:

    Fiquei vermelha, tia. : )
    Hehehe

    Beijão!

  9. gabriel Says:

    o pior é que existem muitos mendigos ainda que nao sao vistos nem sentidos se tornam sem sentido mas qual o real sentido de nossas competiçoes diarias não nos tornarmos mendigos?
    beijo na buchecha, saudades de passar por aqui e saudações sinceras…sempre sinceras…

  10. Cris Says:

    Gabriel, quanto tempo!
    Como está teu trabalho?

    Saudades sinceras também! Nada de reativar o blog?

    Beijo!
    : )


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