Puzzle

05/11/2007


[Carla Salgueiro]

São rabiscos e são arte. Discutir arte contemporânea é interessante porque tu pula de um assunto pra outro rapidamente e vai amarrando as pontas, formando redes, sistemas, ligando imagem, som e universos tácteis. Entre quatro ou mais paredes o assunto começou aí. Depois, a céu aberto, fluiu descontrolado. Eu estava muito mais perto da água do que imaginava, e por incrível que pareça, aquilo não me causava medo algum. Já falei há algum tempo sobre minha repulsa e atração (na verdade não sei como chamar isso) de “águas grandes”. “Serve para mergulhar”. Longe de mim, perto de mim. Não me tocava, então eu não sentia. Mentira. Era mais uma vontade de sentar um metro à frente, fora de grades, um pouco mais perto do pequeno precipício. A mesma vontade que uma pessoa que tem medo de altura sente quando está no alto de um prédio. Pular e sentir os pés no chão logo. A gravidade faz isso. O outro lado nem ficava tão longe, mas era fundo, barrento, pouco lúcido. Odeio falta de clareza. E não era só a água que estava assim. Conversávamos sobre fobias e atos inconscientes. As hipóteses sempre foram múltiplas, nesse caso. Sem explicação nenhuma. (Ela falou através de letras de músicas. Citou Bob Dylan. E eu disse que não gostava dele. Na verdade não conhecia muito bem, e ainda não tinha sentido vontade de desmitificar isso). No meio de achismos, o anel dela quebrou e foi parar além da grade, perto da água. Então resolveu quebrar o outro e jogar para longe também. Contei sobre o impulso que tive quando vi a carne em cima da mesa, na hora do almoço, e me senti animal. Falei do sentimento e me senti humana. Se o impulso em cuspir não falasse tão alto talvez a gente pudesse sentir o gosto das coisas por mais tempo. “Eu gosto é do estrago”, ela disse. Falei que as melhores atitudes que eu já havia tomado, pelo menos as mais eficientes, foram por impulso, e ela riu. Óbvio que não eram por impulso. É porque tinham chegado a um limite. O assunto morreu. O horizonte dela era inclinado. E ela, sem perceber, emoldurou-o e deu de presente para uma amiga. “Tou me sentindo em Waking life”. “Nunca tinha visto um navio tão perto de mim”.

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4 Respostas to “Puzzle”

  1. Thiago Gonçalves Says:

    Vi. E foi incrível ver. De longe, uns 50 metros. Ela e as meninas da WonderBrass. Foi… mágico. Pra dizer o mínimo.

    Não perca a próxima chance. =)

    E se for, avise – é sempre bom ter companhia nessas horas pra viajar um assunto qualquer, uma letra de música, uma poça ou um rio (não sei o que era a tua massa d’água). Avise…

    Beijo, moça da Usina.

  2. natusch Says:

    Eu gosto do jeito de tu escreve, sabe? É meio como se ele te pegasse pela mão e dissesse “vem”. Muitos textos te pegam pela mão, vários te carregam para os mais diferentes lugares, mas poucos dizem “vem” =)

    No mais, é curioso, porque hoje mesmo eu tava falando de Bob Dylan para algumas pessoas – de como eu acho que ele teria feito melhor apenas compondo as músicas e contratando músicos (especialmente vocalistas) para interpretá-las. Acham que digo isso porque não gosto de Bob Dylan, e se eu digo que gosto acham esquisito que eu goste do homem, e mais ainda que eu seja capaz de dizer uma coisa dessas. Ah, as pessoas. Tentar entendê-las, às vezes, dá trabalho.

  3. gabriel Says:

    o mais interessante da conversa foi o horizonte dela ser inclinado….é de se refletir sobre tal….

    saudações sinceras e minhas saudações pra ti são sempre sinceras…

  4. Cris Says:

    : )
    Igor, já ouvi mais gente falando isso. Que talvez fosse se ele se contentasse em compor, apenas…

    Thiago. Invejinha!

    Gabriel, reativou o blooog!


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