Archive for janeiro, 2008

Coisas que me cativam em um livro

23/01/2008

Aqui:

_ Vão tomá-lo de mim, compreende. Pelo menos se alguém o recolhesse… Mas não! Com aquelas feridas enoja todo mundo. A carrocinha vai apanhá-lo, tenho certeza.

Eu lhe disse então que se dirigisse ao depósito de cães e que eles o devolveriam, mediante o pagamento de alguma taxa. Perguntou-me se era muito caro. Eu não sabia. Então, irritou-se:

_ Dar dinheiro por aquele cão nojento? Ah, ele que se dane! – E pôs-se a xingá-lo.

Raymond riu e entrou na casa. Segui-o. Despedimo-nos no corredor. Pouco depois, ouvi os passos do velho e ele bateu à porta. Quando abri, ficou uns momentos na entrada.

_ Desculpe, desculpe – disse-me ele.

Convidei-o a entrar, mas ele não quis. Olhava para as pontas dos sapatos e as mãos cheias de crostas tremiam. Sem me encarar, perguntou-me:

_ Não vão tirá-lo de mim, não é, Sr. Meursault? Vão devolvê-lo, não vão? Senão, o que vai ser de mim?

Expliquei-lhe que os cães ficavam durante três dias no depósito, à disposição dos donos, e que, depois disso, faziam deles o que bem entendiam. Olhou para mim, em silêncio. Depois, disse:

_ Boa noite.

Fechou a porta, e eu o ouvi andar de um lado para o outro. A cama dele rangeu. E, pelo estranho barulho que atravessou a parede, compreendi que estava chorando.*

E ainda, aqui:

O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, com um barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Então, atirei quatro vezes ainda no corpo já inerte, em que as balas se enterravam sem que se desse por isso. E era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça.**

E, por fim, aqui:

Acho que dormi, pois acordei com estrelas sobre o rosto.***

Os trechos são de O Estrangeiro, de Albert Camus, livro que acabei de devorar, deitada na cama e com os pés na parede. Comecei curiosa, porque já ouvi falar muito, mas a leitura parecia não avançar nunca. Tanta inércia tinha que mudar em alguma linha ali. Não era possível. E mudou. Eu sublinhei os trechos acima, no livro. Gostei deles. Depois me dei conta de que esses foram os trechos em que os personagens começaram a demonstrar algum sentimento, tão pouco visível na obra. O Sr. Meursault, personagem principal, parece não mexer as sobrancelhas nunca. Não se surpreende, fala pouco, só sente calor, calor e calor. É de um vazio incômodo, sem emoções, sem movimento. Niilista. Chato, ele, assim como o velho Raymond, dono do cachorro sarnento que desapareceu. O legal é que em curtos momentos, e em frases cheias de vírgulas, todos os personagens acabam deixando escapar um pouco de sensibilidade.

* página 42
** página 60
*** página 121

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E o Oscar vai para…

23/01/2008

Minha mãe veio passar um fim-de-semana aqui em casa. Dois, na verdade. Mas no primeiro ela não deixou tantos indícios da visita quanto no segundo. S-É-R-I-O! Eu não consigo mais encontrar nem meus sapatos! Ela “organizou” e “guardou” tudo! Eu sei, eu sei, nem tudo é tempestade. Hoje de manhã saí do banho e vi que as toalhas não estavam dobradas no armário, mas guardadas em rolinhos. Coisa mais querida. E deu uma saudadinha doída. E o sofá aqui de casa agora está limpo. Sim, porque ela mandou lavar. E o varal arrumado, porque ela mandou arrumar (e trocar de lugar, diga-se de passagem, porque no lugar antigo ficava apertado demais para alcançar). Também nunca vi a geladeira tão cheia! Só que eu simplesmente tenho que ficar correndo atrás do mouse aqui, enquanto escrevo, porque ele foge em um piscar de olhos! Tá vivo! Óbvio, efeito Marlene. Ela chamou alguém pra organizar os fios do micro, e para isso, a pessoa colocou todos os fios juntos em um tubo, incluindo o fio do mouse! E pra variar, ficou curto demais. Eu puxo, ele volta, eu puxo, ele encurta. É uma batalha. Um minuto. Já venho. Vou buscar mais uma colherada do Nutella que ELA comprou pra mim e pra minha o irmã (mãe, volta?). Que mais… Tem chá de maçã gelado. Querem? Mas voltando ao ponto, ela sumiu com umas velas minhas. Bah, me enfureci. Eu tenho várias velas espalhadas pela casa. São meu xodó. E hoje percebi a ausência de algumas… Não eram lá cheias de frescuras, mas tinham valor sentimental. Mesmo. Pega, pega! O mouse saiu correndo!! Puxa de volta! Ok, isso passa. A mãe deixou um vasinho de flores no lugar das velas. Mãe é mãe. Não adianta. Já tou com saudades.

Filme vai, filme vem 2

18/01/2008

Odeio matar a charada de um filme antes do tempo. A Janela Secreta perdeu a graça na metade. Andei um pouco pela casa, passei umas cenas e voltei para o sofá pra ver o final. Ontem também vi Contra A Parede. ADOREI. Uma história de amor regada ao ritmo do pós-punk inglês do Depeche Mode (I feeeeeeeel you! Your sun it shines/ I feel you/ Within my mind/ You take me there/ You take me where/ The kingdom comes/ You take me to/And lead me through/ Babylon!). Tem também Sisters of Mercy, entre outros sons, e uma trilha turca bem bacana.

Speechlesswithoutwriters

15/01/2008

“Isso (a greve) tem que acontecer para discutir a situação. Quando o Globo de Ouro é cancelado é sinal de que se precisa discutir”. Palavras de Will Smith…

Preocupado com a magnitude que a greve dos roteiristas está alcançando, o ator norte-americano disse ontem, em entrevista à Reuters, que compreende a paralisação, mas que espera que tudo acabe logo para que o Oscar não seja também prejudicado.

No domingo passado, a greve dos roteiristas causou o cancelamento da entrega dos prêmios Globo de Ouro, e a cerimônia foi substituída por uma coletiva de imprensa.Para os roteiristas, estar em greve não quer dizer que tenham que deixar a criatividade de lado. Com o objetivo de difundir a causa, fizeram (e ainda estão fazendo) pequenos roteiros de filmes e chamaram artistas renomados para interpretá-los. Na lista estão Sean Penn, Woody Allen, Jane Fonda, Ethan Hawke, Susan Sarandon, Tim Robbins…

A campanha, feita pela internet, chama-se Speechless, e já está no 31º episódio. Vale muito a pena dar uma olhada! Consegui rir, ficar P da vida e sentir frio na barriga ao mesmo tempo.

Ó, o link: speechlesswithoutwriters.com

Aliás

11/01/2008

2008 já começou? Tenho uma impressão de que ainda estamos em 2007. “Um sentido a refazer”. São as velharias, eu já sabia disso. Let it be.

* * *

Nos próximos dias dou minha resposta ao desafio lançado pela Fê. Tou pensando, tou pensando.

E o que é pior: todo mundo se acostuma

11/01/2008

Desci agora pouco pra arejar as idéias e aproveitar a noite lá fora, já que ficar dentro de casa seria o mesmo que pedir pra derreter por causa do calor insuportável. Encontrei o Ricardo aqui pela República e fomos tomar uma cerveja. Entre uma conversa e outra vimos algo estranho em um guri que passava na rua. Ele vestia uma bermuda de cor bem clara e uma camiseta branca, e um pouco abaixo de uma das axilas havia uma mancha vermelha. Foi só depois de olharmos com mais atenção que percebemos que ele estava sangrando, e não era pouco. Outra pessoa andava ao lado dele, segurando-o pelo braço para ajudar. O mais incrível é que a rua estava cheia, e pouquíssima gente percebeu o que estava acontecendo. Logo em seguida um carro passou buzinando e carregou o guri para um hospital. Depois o garçom comentou que aquilo tinha sido um assalto perto dali, e que o garoto havia sido esfaqueado e vinha caminhando pela rua, sem falar nada. Pouca gente viu, e logo depois de colocarem o guri no carro, tudo voltou ao normal.

Meu cartão chegou!

11/01/2008

Lembram que eu falei que meu amigo me mandaria um cartão-postal lá da França e tal? Pois é. Chegou na véspera do Natal. Na verdade chegou na sexta-feira (21/12), mas como eu não tenho o mínimo costume de abrir a caixinha de correio aqui de casa, quem faz esse trabalho legal é minha irmã. Ela recebeu o cartão na sexta, e eu só fui ver que aquele envelope pardo que estava em cima da escrivaninha era pra mim no domingo (23/12) . Foi um dos meus presentes de Natal.

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Lindo, não? Tudo em francês, como prometido.