Introdução ao abismo

11/03/2008

Odeio procurar uma palavra no dicionário e não encontrar. Dessa vez foi PLATITUDE. O meu MINILUFT de 99 foi incompetente e eu, infeliz. Decisão: quero um Houaiss!

Platitude é fragmento da orelha de Os Melhores Contos de Loucura, uma das minhas aquisições durante as férias em São Paulo. O livro é uma coletânia de contos e testemunhos sobre a loucura  – “muitos dos quais, escritos diretamente de dentro dela” – organizado pelo gaúcho Flávio Moreira da Costa. É dividido em quatro partes: Loucura e Cotidiano, Loucura e Drogas, Loucura e Clínica e Loucura e Testemunho. E ainda as referências bibliográficas, claro (eu adoro essa parte, sabia? Quando li Saturno nos Trópicos, do Scliar, eu vivia passando os olhos pelas últimas páginas).  Na introdução – Introdução ao Abismo da Alma – o organizador deixa claro que o intuito da obra não é desenrolar nenhum tratado científico sobre neuroses, nem analisar os ramos Psi ou algo do gênero. Antes de tudo, o conteúdo é de inclinação poética, até. Literatura em essência. Nada comprometido  com verdades (até porque a verdade é um conceito contraditório dentro da loucura, não? Senão a loucura em si, contraditória).

Seria a literatura um subproduto da infelicidade? Leon Tolstoi teria respondido que sim. Sua famosa Anna Karênina sugere que os infelizes inventam diferentes estilos de sofrer, cada um à sua maneira. Quanto aos felizes, estes se limitam a viver num estado de ininterrupta platitude*, a salvo de sobressaltos e contradições”.

*eis a palavra em questão, de acordo com o Houaiss: característica do que é plano, chato. Qualidade do que é banal, trivial. Sem originalidade, medíocre.

Estou na primeira parte, Loucura e Cotidiano. O livro abre com uma fábula de La Fountaine, chamada O Amor e a Loucura. Bah, por aí me pegou pela orelha e me fez ler até pegar no sono com o livro na mão! Leiam, é MUITO bacana. Acabei de ler pra minha irmã, sentada aqui no sofá. Ela também gostou:

“No Amor tudo é mistério: suas flechas e sua aljava, sua chama e sua infância eterna.

Mas por que o amor é cego?Aconteceu que num certo dia o Amor e a Loucura brincavam juntos. Aquele ainda não era cego. Surgiu entre eles um desentendimento qualquer. Pretendeu então o Amor que se reunisse para tratar do assunto o conselho dos deuses. Mas a Loucura, impaciente, deu-lhe uma pancada tão violenta que lhe privou da visão.

Vênus, mãe e mulher, pôs-se a clamar por vingança, aos gritos. E diante de Júpiter, Nêmesis – a deusa da vingança – e de todos os juízes do Inferno, Vênus exigiu que aquele crime fosse reparado. Seu filho não podia ficar cego.

Depois de estudar detalhadamente o caso, a sentença do supremo tribunal celeste consistiu em condenar a Loucura a servir de guia ao Amor.”

A antologia ainda conta com textos de George Büchner, Tchekhov, Qorpo Santo, João do Rio, Bukowski,  Allan Poe, Charles Dickens, Guy de Maupassant, Machado de Assis (me lembrei agora das neuroses do Bentinho. Traído ou não?), Van Gogh, Lima Barreto e outros autores legais. Ando perdendo o sono, mas não a leitura.

Pensamento solitário aqui: eu devia ter cursado psicologia, a opção marcada no meu primeiro vestibular.

Não, não. Jornalismo tá tri. 

* * * 

Nos próximos posts conto alguns capítulos sobre os dias em São Paulo. Eu não me esqueci disso!

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8 Respostas to “Introdução ao abismo”

  1. Sara Says:

    Ebaaa! até que enfim… AMEI!

  2. Vica Says:

    Fiquei com vontade de ler esse livro. Eu também adoro referências, assim como créditos de filme!

  3. clara Says:

    pois sabe que tem um amigo meu que por vezes me lembra o bentinho…. mas certamente a loucura é guia do amor e, diante disso, só nos resta nos dobrarmos ante a maluquice de amar e nos entregarmos.

    bjocas

  4. Samara Says:

    É interessante como você inicia seu post falando de uma coisa e já introduz outro assunto, e outro, e outro, sem deixar o leitor confuso.
    É sempre bom vir aqui.
    Beijo Cris

  5. Cris Says:

    Sara:
    Leiturinha antes de ir pra cama = P

    Vica:
    Mania a nossa de ficar procurando sempre mais material sobre o mesmo assunto, né? Se eu curto o livro sempre acabo procurando algo da bibliografia dele e tal. Também vejo os créditos sempre! Extras?

    Clara:
    E a prudência guia quem?

    Samara:
    Tempão que não te via! O que é sempre bom é a tua atenção comigo aqui! Quanto eu for visitar meus pais quero te conhecer. = )
    Minha mãe fala bem de ti!
    Beijos

  6. Vica Says:

    Sim, eu li o Enigmas da Culpa, do Scliar, e fiquei morrendo de vontade de ler o original do Pinóquio, que ele cita mais de uma vez. É um livrinho que tá na minha lista.

  7. Marcos Says:

    Adoro esse tipo de biografia não autorizada de personagens mitológicos. É legal saber que esse tipo de entidade de milhares de anos atrás não tá morta, ela pode se renovar nos contos de cada um e encontrar novos significados, dependendo da loucura de quem escreveu…

  8. gabriel Says:

    Cara poderia tecer um comentário mais profundo, mas não…tenho e tento ser tão leve quanto as coisas profundas que encontro aqui, tentarei….mas como é possivel ser tão leve, tão claro, tão agradável e tão cativante como as coisas que aqui encontro…não sei mas tentarei sempre…
    Se bem que o melhor que aqui encontrei hoje…tenho que ser sincero…é sobre a verdade ser um conceito contraditório..isso é perfeito…mais até é extremo…e extremamente simples.
    Reverencio isto aqui…cada vez mais… e que bom que voce voltou…e que bom que voce tem esse dom de tornar as coisas simples e dividir isso com outros seres humanos …
    Saudações pra ti guria…sinceras saudações


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