Archive for junho, 2008

Por Não Estarem Distraídos

23/06/2008

Preciso ler mais coisas da Clarice Lispector. Se eu morresse hoje, conhecer tão pouco as obras dela seria um dos meus lamentos, acredito. Gosto tanto da Macabéa e da sua coleção de anúncios em A Hora da Estrela. DA-TI-LÓ-GRA-FA, orgulhava-se. Li umas partes de A Paixão Segundo G.H., livro sobre o qual o Noah tem uma teoria bem interessante, mas foram partes distantes, nada linear. Isso não chega a ser má índole, porém é uma falta grave.

Pois bem, o acesso apressado pela web me impede de saber como cheguei ao texto que dá nome a esse post, mas isso não importa, o que importa é o que vem a seguir.

“Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.

Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.

Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto.

No entanto ele que estava ali, tudo errou. E havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.

Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos
.”

Lindo, né? Triste também. Alguém sabe em que livro foi publicado? Eu não achei…

Pensei em ilustrar com uma foto dela, mas eu preciso confessar uma coisa: eu acho as fotos da Clarice Lispector enjoativas, apesar do charme que ela tinha. Sempre me assusto um pouco quando vejo aqueles olhos grandes e sérios. A Lispector tinha no rosto vários elementos que poderiam fazer dela uma pessoa de impressão antipática à primeira vista. As sobrancelhas finas e bem traçadas, altas, o rosto pontiagudo e bochechas fundas e ossudas. Puro charme. O Manuel Bandeira escreveu em um livro de crônicas que aprendeu a sorrir por influência de sua mãe, de quem herdou os dentes grandes. Dizia ele que havia meditado muito sobre esse problema da antipatia dos dentuços, e que o dentuço que não ri para que não se perceba que ele é dentuço está perdido. Talvez com a Clarice Lispector também fosse assim. Talvez as sobrancelhas lhe conferissem um ar rígido e imponente quando séria. Sorrindo, tudo isso se desfaz e vira ternura.

Clau, me empresta o livro de entrevistas dela?

O Romanoff me devolveu O Estrangeiro, do Camus. Disse que leu em poucos dias, mas que não é o grande livro da vida dele. Como prometido, me emprestou Eu Receberia As Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, do qual eu já falei em outro post, mas não sei se vou conseguir ler agora. Acredito que até o fim do mês termino o que estou lendo há um século, já (não por falta de vontade), e começo então esse. Tenho ainda ao lado da minha cama, me esperando, um livro de mitos que encontrei pela casa. Bem bacana. É da minha irmã.

* * *

Mas QUE BEM essa trilha sonora do filme Viagem a Darjeeling, ãhm? Quando vi o filme, imaginei que fosse boa, mas agora, ouvindo na íntegra, melhor ainda.

Dragan

21/06/2008

David Lynch e outras criaturas sombrias, na página do fotógrafo Andrzej Dragan.

“They are all beautiful”, diz o diretor de cinema na abertura. É a degradação da pele pelo tempo, a poeira que se instala nos cantos do corpo. O novo e o velho. O belo revestido pelo elemento mórbido. Me senti em um castelo, com cortinas amareladas, poeira e passos silenciosos. Podia tocar Faun Fables e ter uma floresta por perto.

Tem o perfil no Myspace também.

“DOESN’T MATTER

1. DOESN’TMATTER, (n); A hypothetical form of matter similar to normal matter, except that it’s atoms do not exist.

The theory of doesn’tmatter was first proposed by A. E. Roraback to explain the meaning of his life and the preponderance of apatheticism that permeated the air about him. Mr. Roraback was once known to say, “You of course have heard of anti-matter??? We have taken it one step further. We are so insignificant in the scheme of things that we have become what is known as doesn’tmatter. . . Instead of destroying any matter we come in contact with, no one notices.”

Dr. R. Tuklov II, an expert on non-existent particles, explains, “In ordinary matter, you have atoms, in which you have a nucleus with lots of electrons spinning wildly around it. In doesn’tmatter, the electrons just sort of sit around despondently.”

Redes sociais e comportamento do consumidor

21/06/2008

Recebi da minha irmã duas notícias por e-mail hoje. Achei ambas bem significativas. A primeira, abaixo:

Número de perfis do Orkut cai 34% em um ano, revela estudo da comScore

Ao mesmo tempo cresce a popularidade do Facebook, MySpace e HI5

O número de usuários do Orkut caiu 34% na América Latina no intervalo de um ano, segundo dados da comScore publicados pelo IDG Now.

De acordo com o estudo, realizado entre abril de 2007 e abril de 2008, o número de perfis no Orkut caiu de 23,2 milhões para 15,2 milhões. Foram ouvidos internautas com 15 anos de idade ou mais, excluindo acesso de computadores públicos, celulares e PDAs. No mesmo período, o Facebook cresceu espantosos 976%, passando de 717 mil para 7,7 milhões de usuários na América Latina.

O total de integrantes do MySpace, por sua vez, aumentou 45%, o que representa um salto de 3,9 milhões para 5,8 milhões de perfis.

A rede social HI5 também está conhecendo o sucesso na região. Em um ano, avançou de 7 milhões para quase 13 milhões de usuários, um aumento de 79%.

A nota é do Cidade Biz.

Eu não conhecia o HI5. É uma rede social como o orkut e o Facebook. O Donizetti acabou de me contar aqui por msn que foi uma das primeiras que surgiu, e que era bem ruinzinha, mas que foi melhorando com o tempo. O alcance maior é na América Central e Europa, mais especificamente em Portugal. Bem que alguns amigos meus que passaram um tempo morando em Portugal comentaram que lá o orkut quase não era conhecido, e que eles usavam muito outra ferramenta.

Enfim, fiz perfil e dei uma mexida ali pra ver como funcionava. No HI5, diferente do orkut ou do Facebook, tu pode estilizar o teu perfil, bem como se faz com o template de blog, sabe? Usando templates que o site te oferece, prontos. Ainda tem a opção de personalizar o perfil, mudando a cor de fundo, cores dos textos e a própria fonte. Tem uns aplicativos que o orkut não tem, outros que serviram de modelo para o Facebook, que os melhorou (mas exagerou na quantidade… ). Pelos tantos convites que tenho recebido por e-mail pra participar do HI5 e do Facebook, a informação do Cidade Biz se confirma.

* * *

Agora, a segunda notícia, que pode ser lida na íntegra no G1:

“Ibope passa a usar Orkut para entender consumidor

Em um ranking com dez países, o Brasil liderou em abril o acesso à categoria comunidades (78,2% dos usuários domésticos), seguido por Japão (67,1%), França (60,9%), Espanha (59,6%), Itália (59%), Reino Unido (56,6%), EUA (56,3%), Austrália (52,2%), Suíça (42,7%) e Alemanha (37,7%). O Orkut é o mais acessado pelos brasileiros (69,8% dos internautas domésticos em maio). Em segundo lugar fica o Sonico (7,9%), seguido por MySpace (4,8%), Via6 (4,1%), hi5 (2,8%), Haboo (1,7%) e Facebook (1,6%).

Estudo

O primeiro estudo da Coleta RS teve foco voltado ao mercado automobilístico brasileiro. Para isso, foram selecionadas diversas comunidades do Orkut ligadas a grandes fabricantes de carros – elas indicavam uma percepção positiva (eu amo…), negativa (odeio…) ou neutra sobre essas empresas. Um software fez então uma varredura para identificar os 50 últimos usuários a realizarem qualquer tipo de atividade em cada uma dessas comunidades: esses foram os internautas analisados pelo estudo. 

De maneira automática, um robô (software) identificou todas as outras comunidades às quais esses usuários estavam associados. Além disso, também determinou a região de onde são essas pessoas (se um membro do Orkut diz ser do Afeganistão, mas tem diversas comunidades sobre o Rio de Janeiro, entende-se que ele seja carioca). A solução não divulga dados pessoais desses internautas, como seus nomes.

Com base nos dados coletados é possível concluir, por exemplo, que a Peugeot tem mais citações negativas no Rio do que em São Paulo, ao contrário do que acontece com a Volkswagen e com a Ford. Já a GM não apresenta altos percentuais de citações positivas nem negativas, indicando que as comunidades ligadas a ela são, em sua maioria, neutras (têm apenas o nome da fabricante ou modelo do automóvel, sem um sentimento associado).

A Coleta RS também permite avaliar, com base nas comunidades de internautas do Orkut, a associação entre marcas automotivas com as esportivas e de bebidas. A Adidas, por exemplo, é a marca de maior relação com Citroën, Fiat, Ford, GM, Honda, Peugeot, Renault, e Toyota. Já a Nike tem maior relação com a Volkswagen. Esse primeiro estudo foi feito no Orkut, mas futuramente pode ser realizado no MySpace, Facebook, Twitter, blogs, YouTube e diversas outras ferramentas sociais disponíveis na web.

Control

11/06/2008

Control

Fui ver Control, a cinebiografia em preto e branco do Ian Curtis, dirigida pelo holandês Anton Corbjin. A opção pela ausência de cores no filme foi porque o Corbjin é fotógrafo e registrou memoráveis imagens em P&B do Joy Division, que foi, inclusive, a primeira banda a ser fotografada por ele.

Como sempre, no Guion as salas são vazias. Até achei que nessa sessão teria mais gente e que, a exemplo do que aconteceu em Across the Universe, os espectadores cantariam algumas letras junto com o filme e tal. Mas graças a deus não foi nada. Eu não gosto dessas manifestações de idolatria que às vezes acontecem nas salas de cinema. Os fãs do Joy Division, parece-me, são menos exaltados. Nem tinham como agir diferente assistindo a um filme cinzento e melancólico (mas nem por isso são menos fãs, GARANTO MUITO).

A atuação de Sam Riley como Ian Curtis é impecável. Impressionante como ele conseguiu encenar tão bem os gestos sem rumo do vocalista no palco e as crises de epilepsia. Saí do cinema meio abalada. Até deu uma vontadezinha de chorar, mas tenho ressalvas quanto à profundidade com que foram tratados os motivos pelos quais o Ian Curtis cometeu suicídio. Não sei, ficou a impressão de que tudo aquilo que levou ele ao ato extremo não parece realmente tão forte para justificar isso. Não senti na pele assistindo ao filme, sabe? Quando vi Piaf saí do cinema corroída. MESMO. Em Control isso aconteceu só na última crise epilética.

A filha do Ian Curtis, Natalie, já se manifestou sobre o filme, e o Peter Hook, baixista do New Order, também, e meio de cara com o diretor.

Tudo mais leve

10/06/2008

Eu sempre quebro as minhas férias do trabalho em duas ou três parcelas. Tirei 15 dias em fevereiro e fui pra São Paulo, e agora tirei mais oito dias que, infelizmente, vão ser ocupados com trabalhos da faculdade, leituras e coisas que vão ficando de uma semana pra outra. Um dia tudo explode. É bom evitar. Mas não sejamos hipócritas. É óbvio que vou descansar, pegar cinema, ler LITERATURA, essas coisas. Hoje tirei metade da noite pra arrumar meu guarda-roupas. MEU DEUS! Tem roupas que eu não uso desde os meus 16 anos. Ali na barra lateral diz que eu tenho 25. Sem brincadeira! Quase dez anos passando de prateleira pra prateleira porque “um dia talvez eu use”. Que use que nada. Hoje acordei intolerante. Vai tudo pra sacola de doação. Se bem que agora fiquei feliz pensando isso. Se eu não havia dado essas roupas antes, é porque ainda me serviam. 16 –> 25 = TRI. Eu gosto desse traço genético da minha família. Os ossos se espetam.

Cintos! Achei cintos em uma das gavetas. Sério. Bah, que coisa mais cafona. Mulher de cinto. Tem cintos e CINTOS. Mas não os que eu achei no meu armário. Tinha uma calça de quando eu ia na academia. Um dia eu fui na academia.

Na próxima (eu ando com um terrível impulso de escrever prócima antes de voltar e trocar por x. diabos) arrumação vão-se os calçados. E ainda tem uma exclusiva pra prateleira da sala, com direito a nostalgia. Nosso apartamento é pequeno, logo quanto menos coisas dentro, melhor. Bom para uma pessoa, não para duas. Eu e minha irmã já chegamos a essa conclusão sem traumas nem ressentimentos. É fato.