Só As Mães São Felizes

27/07/2008

Há duas semanas fui visitar a minha avó, em Cruz Alta. Acho que não falei nada por aqui na época, mas ela teve um AVC (derrame). Não foi agora. Isso já faz algum tempo. O fato é que ela passou dias bem pesados. Ela e a família toda, porque minha avó é a avó do coração, a matriarca da família, aquela que quer todos em volta, que manda meinhas de lã, mantas e potes de mel para aquecer o nosso inverno, que quer mimar os filhos, os netos, o(a)s namorados(as) dos netos (ela chama de brotinhos, os namorados, hahaha, ai, ai, só minha avó), os amigos, os passarinhos.

A recuperação foi demorada, cercada de cuidados e da família, principalmente porque minha avó sempre foi uma pessoa muito ativa. Da casa, e é uma casa enorme, antigona, com um jardim recheado de plantas, ela cuidava praticamente sozinha, além de viajar, fazer caminhadas… Tudo isso foi interrompido por causa do tratamento. Outra briga foi fazer ela entender que o cabelo cresceria novamente (por causa da cirurgia, uma parte do cabelo foi raspada), e que ela não precisava esconder a beleza dela. Acho minha avó muito bonita. Então, para disfarçar, ela comprou vários lencinhos e usava um em cada dia. A dona Hilda é delicada e hoje, depois de recuperada, tem um sorriso que não cabe no rosto. Ela toca os objetos com as pontas dos dedos. Com os mesmos dedos gordinhos, vindos da Alemanha, ela dobra a parte da toalha de mesa que cai na lateral e encosta na barriga dela para cima da mesa, deixando a toalha do lado inverso, enquanto toma uma xícara de café-com-leite depois do almoço (por sinal, reparei que nessa última vez em que estive lá ela não fez esse ritual). O engraçado é que minha mãe faz exatamente a mesma coisa. Borda da toalhinha para cima, inverte, “filha, me faz um café-com-leite?”. E eu já me peguei fazendo a mesma coisa com a toalha.

Não tenho dúvidas de que eu herdei muitas, mas muitas características MESMO, da minha mãe, e é isso que faz eu e ela sentirmos a presença uma da outra num dia chuvoso. Não sei contar quantas vezes sentei na varanda de casa, quando eu era criança, para assistir à chuva com a minha mãe, assim como também não sei desviar de uma lojinha de produtos orgânicos, coloniais, e essas frescuras gostosuras. Culpa dela. O gosto pela poesia deve ter vindo do Poema Enjoadinho, do Vinicius de Moraes, o poetinha. Foi esse poema que ela escreveu na primeira página do caderno de receitas dela, e eu sempre lia ele quando pegava aquele caderno:

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio

E eu ADORAVA esta parte. Achava tri engraçada:

Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

As mãos, herdei dela também. Dedos finos, de pianista. Ou de ladra, como dizia meu avô. E no fim, contei toda a história acima só pra mostrar o que minha mãe me mandou hoje, por msn. Mostrei pra ela o template novo do blog, sem a foto minha que ilustrava o topo do antigo. Prontamente ela me respondeu:

marlene diz (23:37):
sim. ficou bom, mas as mãos são muito significativas
marlene diz (23:37):
eu reconheceria elas entre um milhão de mãos

Minha mãe não existe. Se pudéssemos escolher nossas mães, eu escolheria ela entre um milhão de mães.

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6 Respostas to “Só As Mães São Felizes”

  1. poetriz Says:

    Lindo o seu texto!
    Realmente ter essa conexão com a família é algo raro, essencial, divino!

    E mãe, reconheceria mãos, cabelos (mesmo pintado ou tratados quimicamente), sorrisos, olhares, qualquer coisa nossa…

    A resposta disso está no verso do Vinicius:

    “Melhor não tê-los…
    Mas se não os temos
    Como sabê-los?”

    As mulheres que tiveram a coragem de ser mães, sabem…

  2. ma Says:

    E a saudade bateu bem mais forte…por isto amo muito mais o meu computador…a distancia fica pequena qdo lemos coisas assim…não tocar e ver dói,mas ter destas emoções a esta distancia por causa de algumas linhas escritas desta forma não tem preço…as vezes perto não temos tais alegrias…de nada vale estar junto e estar vazio destes sentimentos que vc expressou tão bem…em meus bolsos ainda cabem mais emoções que vou levar sempre comigo como um carinho que o vento faz no meu rosto de vez em qdo na rede que ficávamos na área de casa em dia de chuva…
    Beijão na testa

  3. marcia Says:

    é uma sabedoria, sinal de maturidade, saber reconhecer em si algo que vem da mãe e da avó. mas saber-se diferente e única, mesmo assim.

    eu gosto daquela foto.


  4. Assim deveriam todos fazer, pelo menos de vez em quando, declarar seu amor às mães, mas, nessas visitas, nem todos conseguem voltar repletos de poesia. 100% coração, mocinha. Beijo!

  5. Sara Says:

    Parece que estou vendo a cena da toalha dobrada… :)
    Lindo!!
    Beijão


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