Archive for agosto, 2008

As celebrações

30/08/2008

– “Amores que de tão perfeitos não podem ser gastos”, nas palavras bem pontuadas do anônimo freqüentador do Isso é Bossa Nova, em um comentário. Se não podem ser gastos, bem, permita-me o contraditório direito de desejar alguns defeitos.

– A arte existe para que a verdade não nos destrua.

– Recordar: do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração.

– O diagnóstico e a terapêutica

Além disso, as telas, as pessoas, os atos, domínio e imagem. Ah, e os intervalos.

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You were right about the stars*

29/08/2008

Nem me lembro de quando vi uma estrela cadente pela última vez. Deve fazer tempo, o que me leva a pensar em duas possibilidades: ou o céu anda nublado demais ultimamente ou eu não tenho olhado para cima e sequer percebo a presença das nuvens, o que é muito mais incômodo. O hermetismo urbano me sugou.

Eu costumava sentar na frente de casa para ouvir música no volume máximo e olhar o céu a aproximadamente dez anos atrás, antes de vir morar em Porto Alegre. Lembro-me de já ter visto mais de um suicídio estelar (carregamos poeira de estrelas no corpo, portanto) na mesma noite, e de alguns pedidos feitos nessas ocasiões também. Que eu me lembre, nenhum realizado, diga-se de passagem, mas não tem problema. C’est La Vie. Eram alguma coisa entre adolescentes, ansiosos e apressados (rá, adivinhem. Se esses adjetivos andam juntos, MORRI, descobri que continuo na adolescência). Não, não morri. E nenhuma estrela cadente mudou a minha vida (intervenção literária: a Clarice Lispector, de quem eu sempre falo por aqui, tem dois livros com a palavra “estrela” no título, e não só nele. São A Hora da Estrela – pobre Macabéa – e Como Nasceram as Estrelas, que seria o ORIGINAL título deste post caso eu não estivesse com a música Jesus, etc, do Wilco, na cabeça há dias).

Pois bem, vim falar de estrelas porque há mais ou menos duas semanas a Nasa divulgou fotos de uma região a 170 mil anos luz. Trata-se da Nebulosa de Tarântula (na foto acima), uma região onde acontece o nascimento de novas estrelas. A imagem, por todas as suas cores, agora enfeita a minha área de trabalho, e o contexto disso me lembrou de que existe uma lenda mato-grossense que fala da origem das estrelas. Triste, como a maioria das lendas indígenas, mas muito bela. A história vem de uma tribo chamada Bororo, que habita ainda hoje o planalto central do Mato Grosso. Entre os índios Bororo é função dos homens caçar e pescar; cabe às mulheres da tribo tecer redes, produzir o artesanato e trazer para a aldeia alimentos de origem vegetal (assim como fazer o plantio destes).

A lenda:

Em uma certa tarde, enquanto os homens estavam na floresta, as mulheres da tribo saíram para procurar espigas de milho; queriam fazer bolos e pães para os maridos. Caminharam durante longo  tempo e só encontraram alguns pezinhos mirrados, com poucas espigas. No dia seguinte resolveram levar algumas crianças da aldeia para ajudá-las, e o resultado foi satisfatório. O número de espigas já era suficiente para a surpresa que fariam aos maridos. Porém enquanto transportavam as espigas, um menino roubou algumas  e levou-as para a avó: “Prepare um bolo para que eu possa dividi-lo com meus amigos”. A velhinha não sabia nada sobre a origem das espigas, e na companhia de seu amigo, um papagaio, prontamente fez a vontade do menino. Assim que o bolo ficou pronto, os meninos devoraram alegres os pedaços e farelos, sem deixar nenhum sinal da refeição. Depois de saciados, lembraram-se de que as espigas haviam sido roubadas, e ficaram com medo de que as mães os castigassem pela arte cometida. Resolveram então fugir para a floresta, mas antes disso tomaram precauções para que a velhinha e seu companheiro, o papagaio, não contassem nada às mulheres. Cortaram-lhes as línguas.

E assim correram em direção à floresta. No caminho encontraram um beija-flor. Os meninos pediram então para que o beija-flor voasse o mais alto que conseguisse, e amarrasse a ponta de um cipó no céu para que conseguissem subir. O pássaro fez como lhe haviam pedido, e enquanto ele voava, os meninos iam subindo, subindo, um a um, pelo cipó céu acima. Quando as mulheres voltaram para a aldeia e não encontraram os meninos, ficaram preocupadas e foram perguntar para a velhinha, que nada podia responder, pois já não tinha mais língua. As mulheres então começaram a procurar pelas redondezas, muito mais preocupadas em encontrá-los do que aborrecidas pelo roubo das espigas. Uma das mães viu, então, a ponta do cipó, ainda próxima do chão. Imaginando que os meninos haviam subido por ali, elas começaram a gritar, implorando para que os filhos descessem e voltassem à aldeia, mas os meninos continuavam subindo, e o beija-flor voava cada vez mais alto com a ponta do cipó no bico, em direção ao céu. Mesmo com todo o choro e as súplicas das mães, os meninos não voltaram. Assim, como castigo pela desobediência e ingratidão, foram obrigados, todas as noites, a olhar fixamente para a terra e cuidar de suas mães, que sofriam de saudade. E os olhos dos meninos, sempre abertos, tornaram-se as estrelas.

* * *

*Eis a música que originou o título do post, uma das minhas preferidas do Wilco. Acho que merecia um clipe melhor, sem egocentrismos visuais da banda e com um pouco mais de ficção, mas prestem atenção na letra e na melodia:

O leve crescimento dos caninos ou Filmes para pessoas menos vulneráveis

23/08/2008

Entrei no táxi há pouco e a rádio sintonizada era a Continental, especialmente redentora para quem já tem memórias guardadas em músicas. Lembra da trilha da abertura de Vamp? Diz que sim. Era o que tava tocando. Cheguei a ensaiar um sorrisinho de canto de boca pra voltar pra 1991. Eu adorava a novela. Depois veio Roxette. O Per Gessle era charmoso – padrões da época, não me julguem por isso. A música era a que eu ouvia pra ficar pensando no meu primeiro namoradinho. A palavra é no diminutivo mesmo, porque a inocência reinava. Nem era namoro, acho, mas foi dele que ganhei as primeiras rosas vermelhas. Comprei o CD por causa disso, na época. Não é o momento pra nostalgias amorosas.

Pra refrescar a memória, olha o vídeo da abertura de Vamp:

Permitam-me um pouco de sarcasmo. Hahahaha, que coisa amadora. Horrível. Pra manter o nível deste blog, e porque o vídeo anterior tem uma cena parecida com a coreografia do clipe, eu lembro de Thriller, de um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos, homônimo. Na época o Michael Jackson AINDA TINHA MELANINA. Pena que não posso colocar o vídeo aqui, porque a incorporação está desativada, mas o link está ali em cima.

* Passei na locadora e peguei Nosferatu – O Vampiro da Noite, do Herzog. Eu queria mesmo era ver o Drácula mais clássico de todos, de 1931, com o Bela Lugosi (a página oficial dele é MUITO legal. Ele mesmo dá as boas-vindas aos visitantes). Foi, por sinal, o filme que tirou o ator do anonimato, e pelo qual ele ficou conhecido mundialmente. Depois de Drácula, Bela Lugosi fez alguns filmes baseados na obra do Edgar Allan Poe (outro MESTRE) e outros, mas jamais alcançou novamente tanto fervor nas telas como em seu primeiro papel. A biografia do ator é bem interessante, embora triste. O Fantaspoa deste ano exibiu um documentário sobre a vida dele, mas a única sessão era durante a tarde, num dia de semana, horário em que medíocres mortais estão fora de seus caixões, trabalhando. Perdi. Falando em caixões, Bela Lugosi morreu (supostamente) em 1956 e foi sepultado junto com a capa de seu personagem mais famoso. Voilà, Bauhaus! Na minha opinião, a versão de Bela Lugosi’s Dead que o Nouvelle Vague regravou é melhor do que a original.

* Tentei pegar também, além de um terrorzinho, o filme que a Prill me indicou nos comentários do post anterior, Uma Janela para o Amor, mas não encontrei na locadora. Tentarei achar em outra. PORÉM aluguei um que eu queria ver faz tempo, e perdi quando estava nos cinemas: Em Paris, com o Louis Garrel, que também fez Amantes Constantes e Os Sonhadores, e o Romain Duris (Bonecas Russas é o mais famoso dele) . Vi Amantes Constantes no Guion no ano passado, e valeu MUITO a pena. É totalmente em P&B, com uma fotografia fora do sério. Duração média: três horas, e um público total de no máximo seis pessoas na sala de cinema. O DVD é uma futura aquisição. Lindo, lindo.

Goethe manda lembranças

18/08/2008

O Romanoff avisa que abasteceu o Flickr com novas fotos de Frankfurt (crédito das  imagens acima devidamente reconhecido), mas ainda não me disse como são as cucas alemãs.

* * *

Sempre achei tão bonito o nome do movimento do qual Goethe, nascido em Frankfurt, fez parte, lá no início do romantismo literário alemão: Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto, em português). Diz-se que o romantismo nasceu na alemanha, com Os Sofrimentos do Jovem Werther, mas a história é controversa. Dizem também que nasceu na Inglaterra, com William Blake. Não me importo muito em argumentar a favor de um ou contra outro, na verdade. Eu bebo na fonte do ultra-romantismo byroniano, que influenciou toda a segunda geração romântica brasileira. Spleen,  ambientes sombrios, platonismo no amor, o mal do século, o dualismo (atração e medo, desejo e remorso)… O mito (é um mito ou é fato?) de que Álvares de Azevedo morreu virgem faz parte dessa idealização da mulher e das relações, tão presente na obra do escritor. “Foi poeta, sonhou e amou na vida”, quem não conhece? Tão lúdico e sublime, e tão IRREAL, tendo partido da poesia de alguém que não conheceu o amor inteiramente. Isso só é possível na literatura, amor assim como o dele, só de espera, sem ânsia, sem pele. Lord Byron, o britânico que o inspirou, foi descrito como “louco, mau e perigoso para se conhecer” por Lady Caroline Lamb, APÓS o término do tempestuoso caso que a aristocrata tivera com o poeta.

Lord Byron era “Don Juan”, libertino, apesar de ser coxo, e ao contrário de Álvares de Azevedo, desfrutou de todos os melhores pecados da carne, teve inúmeras amantes, foi admirado e fazia parte do imaginário das mulheres por sua literatura excêntrica. Sua imagem pública era declaradamente copiada dos vilões góticos; o arquétipo do “homem fatal” (soa-me brega e vulgar, essa expressão, mas é a que melhor define o que pretendo explicar). Talvez o escritor encontrasse sua felicidade (volúpia, digo) exatamente no crime, no que não lhe era permitido pelas leis sociais. Não vejo motivo para não salientar também que geralmente os heróis românticos e de energia desafiadora, tal como Byron, são irresistíveis para suas “vítimas”. Algo vampiresco no ar? Literariamente é permitido; em sonhos, também (um testemunho! uma confissão! déjà vu). Entre as extravagâncias do escritor, alega-se ainda que tenha tido um caso com a própria irmã, Augusta, do qual a moça saiu grávida.

Eu pararia de descrevê-lo por aqui, mas acho importante também dizer que o QI estimado  de Lord Byron era de 180; o normal oscila entre 90 e 105, por aí. Ainda, ele foi um dos primeiros escritores a descrever os efeitos da maconha. Sobre esta, não é novidade que era/é muito usada por escritores de contos fantásticos, e não somente. Na época de Poe a moda era ópio. Éter também, acho. O Horacio Quiroga tem um conto chamado O Inferno Artificial, em contraposição a Baudelaire e seus paraísos, em que descreve os efeitos do éter. Quiroga usou muito essa droga na tentativa (?) de amenizar (há sempre um pretexto, um “onde tudo começou”) as agonias de sua biografia, que será tema de outro post, portanto não falarei sobre isso agora. Apenas para bom entendimento, digo que a vida do escritor teve uma seqüência de tragédias em família.

Voltando ao título deste texto, um trecho de Goethe – e não o trecho final, que eu acho triste demais para encerrar um post. Prefiro este, com uma idéia mais VIVA do amor:

(…) Guilherme, o que é o mundo para o nosso coração sem amor? O mesmo que uma lanterna mágica sem luz! Mal colocas dentro dela a lamparina e já se projetam imagens das mais coloridas na parede branca! E mesmo que todas não sejam mais do que efêmeros fantasmas, elas nos fazem feliz enquanto permanecemos ali, acordados, e como criança nos extasiamos com suas aparições maravilhosas. Hoje não pude ir ver Carlota, uma visita inesperada me segurou em casa. Que havia a fazer? Mandei o meu criado ao encontro dela, só para ter junto de mim alguém que tivesse estado em sua presença. Com que impaciência o esperei, com que alegria tornei a vê-lo! Não tivesse vergonha e teria me atirado ao seu pescoço e coberto seu rosto de beijos.

Falam que a pedra de Bolonha, quando exposta ao sol, absorve seus raios e reluz por algum tempo durante a noite. Dava-se o mesmo comigo e aquele rapaz. A lembrança de que os olhos de Carlota haviam pousado em seu rosto, em suas faces, nos botões de sua casaca e na gola de seu sobretudo, tornava-o tão querido, tão sagrado para mim! Naquele momento não daria aquele rapaz nem por mil táleres! Me sentia tão bem em sua presença. Deus te livre de rir disso, Guilherme! Serão sempre fantasmas os responsáveis por nos sentirmos bem?

(Os Sofrimentos do Jovem Werther)

Frase do dia

15/08/2008

Repita em voz alta:

EU VOU VER O WIM WENDERS!

Com aliteração e tudo.

O Teatro da Saudade

15/08/2008

“É tudo fingimento. Finjo que não sinto, finjo que não penso, finjo que não vejo.  Amo, não amo, amo. Tropeço, o substantivo. É recurso básico. Está no manual do bom AMADOR.”

Avisa a mãe que eu vou me atrasar. De novo.

15/08/2008

Hoje no trabalho parei pra ler um cartaz que divulgava um curso sobre “como administrar melhor o seu TEMPO“. Acredito que isso não seja um bom sinal.

Norman Bates = motorista de táxi

13/08/2008

Sabe a clássica trilha da cena do assassinato no banheiro em Psicose?

Pois bem. Eu estava no táxi hoje e o celular do motorista começou a tocar. Adivinha qual era o toque? Que momento. Ele atendeu respeitosamente: “Oi, Dona XXX” (XXX é pra não expôr a vítima). Falou por alguns segundos e após encerrar a conversa concluiu muito sutilmente: “Bah, o que seria de mim sem a minha sogra…”

[…]

Notas The Flash:

1) Sempre que eu fecho os olhos enquanto estou tomando banho lembro-me da cena  de Psicose e do close fantástico no rosto da Janet Leigh colado no chão. Abro os olhos na hora.

2) Nunca entendi por que tanta implicância com as sogras. Só é permitido pela insistência no clichê mesmo.

3) Há algum tempo a Vanity Fair prestou uma homenagem ao mestre do suspense. Artistas como Scarlett Johansson, Jodie Foster, Robert Downey Jr., Renée Zellweger, Javier Bardem, Julie Christie, Marion Cotillard, Emile Hirsch, Gwyneth Paltrow, Charlize Theron, Naomi Watts, entre outros, recriaram as famosas cenas dos clássicos do Hitchcock para a publicação. As imagens abaixo são a original em Psicose, com Janet Leigh, e a seqüência reencenada por Marion Cotillard. Ficou legal, né?

4) Dos atores que eu citei no item acima, os que já ensaiaram também uma carreira musical são: Scarlett Johansson, Robert Downey Jr. e Gwyneth Paltrow (como diz meu amigo Willian: Roberto Justus e tal – que não merece destaque em negrito…)

5) A Marion Cotillard é linda, e conseguiu ficar horrível em algumas cenas de Piaf – Um Hino de Amor