Então fale sobre o tempo

01/08/2008

Créditos da imagem, para ele

A Europa me roubou mais um amigo na quarta-feira. Ah, que droga. Fui para o aeroporto toda chorona, me despedir, engolindo a falta que os cafés com ele vão me fazer. Até onde uma coisa pode ser considerada drama? Enfim. Minha memória ainda foi competente e honesta em me lembrar que eu estava com um livro do Ricardo na estante. Eu Receberia As Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios. Ainda não li, e o livro esteve ali o tempo todo. Simplesmente não tive o bom senso de me lembrar que não era meu e que o dono dele estava indo embora dentro de poucos dias. Peguei rápido o livro e bati a porta sem voltar pra conferir se havia desligado as luzes. Não dava mais tempo. Entrei no ônibus e sentei na primeira poltrona após a roleta, ao lado do cobrador. Larguei o livro no lugar vazio ao meu lado. Quanto tempo até o aeroporto? Chegaremos lá às doze e dez. Paciência. O avião saía às doze e meia. O cobrador olhou para o livro: desculpe a indiscrição, mas muito bonito o título do teu livro. É. Foi por isso que eu pedi emprestado, mas ainda não li.

Cheguei ao aeroporto a tempo de ver o Ricardo no portão de embarque. Ah, sabe, eu acho esses rituais de despedida bem importantes, seja lá qual for o motivo. Acho que é importante dizer oi, tchau, volte logo, não volte nunca mais, mas não gosto de dizer não volte nunca mais, por isso não sei se alguma vez disse isso para alguém. Para ele, amigo de ótimas conversas, Paris, Texas e astrologia, eu fui dizer até logo. Ele já estava entregando o bilhete. Deu tempo! Abracei um abraço meio solto e apressado e estendi o livro. Fica, fica, fica, ele me disse, estendendo o livro de volta, e se foi para a Alemanha.

Eu ainda tinha uma tarde toda de trabalho pela frente. I’m free to do what I want any old time. O Mick Jagger não calava a boca no carro durante o caminho de volta do aeroporto. I’m free to sing my song knowing it’s out of trend. Eu não sei, eu não sei. Essa liberdade não existe. Ou existe e eu ainda não aprendi a enxergá-la como deveria. Passei o dia pensando nas coisas que ando pensando na última semana. Repensando, por sinal. A Clara uma vez me questionou: o que te segura aqui, Cris, o quê? Minha faculdade, meu trabalho, algo mais, não sei. Já não moro com meus pais, mas minha irmã está aqui ao lado e não queria sair de perto dela. Desculpa tua, a Clara me disse. Pode ser. Minha família vai estar comigo onde quer que eu esteja e já aprendi a negociar com a distância, mas não sei se gosto da idéia de depender da sorte. Às vezes vale a pena. Já valeu muitas vezes. Descomplique(se). A faculdade, pelo menos, vou deixar que me complete.

Nessa mesma conversa com a Clara discutimos o que nos prende a algum lugar. Cheguei em casa hoje pensando sobre isso e fui para a cozinha, fazer a minha janta. Senti uma docilidade tão grande nas paredes brancas e na louça suja na pia. Uma presença humana muito estranha e comovente, talvez parecida com o remorso que sinto quando percebo que passei tempo demais sem molhar as plantas da sala. Como se eu estivesse desprezando meu lar sem motivo ao dizer que aqui nada me prende. Minha mãe já me falou sobre isso também quando me contou a história da nossa família. Eram desertores de guerra, Cristiana. Cada filho nasceu em um país. Teu avô nasceu na Argentina, e por isso viemos parar aqui no Sul. Mas antes disso eles viviam fugindo de um país para outro. Quando visitamos pela última vez a casa onde tua bisavó morou, em Bagé, o pequeno buraco que ela tinha no chão do sótão ainda existia. Na época era coberto por um tapete, e lá ela guardava as schmiers (geléias) que fazia. Mas sabíamos que aquele buraco no chão não havia sido feito para esconder doces. O vô Eda, nos anos 80 inventou de procurar outros cantos do Brasil, e foi para o Mato Grosso. Então ele e tua avó passavam seis meses morando lá, e seis meses aqui no Sul. Era sempre assim. Ainda penso que esse medo que eles sentiam continuou seguindo a família mesmo depois que ela se estabeleceu em um lugar. E eu ainda não sei se estou no meu lugar. Pois é. Eu também não, mãe.

Sinto que Porto Alegre me acolhe como se fosse um cobertor quando chega o inverno. O sol abraça de uma forma intensa demais aqui. É impressionante. Mas sabe que eu senti isso em Buenos Aires também? E talvez eu só não tenha sentido isso ainda em outros lugares do mundo porque não conheço o mundo. Precisamos usar mais os mapas, os países, a cidade e usar mais as ruas. Indo para o aeroporto vi que algumas ruas pareciam parte de outra cidade. Não é só o meu apartamento que eu quero considerar minha casa. Sinto falta de expandir o que considero ser o meu lar, doce lar. O mundo um dia não te disse seja bem-vindo?

Acho que no fundo eu morro de medo de mudanças. Normal, todo mundo sente isso, mas eu não gosto de justificar os meus receios apontando receios alheios e coletivos. Acho falta de criatividade. Eu estou falando em mudanças no geral, mudanças de emprego, de apartamento, de ponto de vista e temperamento, e de lar. E outras. Mas ninguém foi feito pra ser pedra, certo? No meu caminho tinha uma pedra e não era eu. Passei a quarta-feira toda trabalhando e olhando para o livro que eu trouxe de volta do aeroporto. Às vezes folheava algumas páginas. Conhecer Lavínia tornou invisíveis as outras mulheres. Tornou-as indesejáveis. Fiquei imune à sedução. Página 51, segundo parágrafo. Preciso terminar logo a faculdade, e agora está perto, só que a minha busca nos últimos semestres tem sido muito mais do que por encerrar esse tempo, mas aproveitá-lo. E tenho arrancado páginas de livros com os olhos nos últimos dias, os últimos de férias. Segunda-feira as aulas recomeçam, e o meu tempo para a literatura vai diminuir, então vou ficar um pouco mais sozinha. Mas ainda tem o mundo, não? E por mais que ele seja um traço um pouco borrado, eu não quero sentir que estou “presa” na minha própria casa.

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9 Respostas to “Então fale sobre o tempo”

  1. ma Says:

    Meu pequeno grande pedaço de gente,as mãos e os bolsos estão ficando pequenos para o tanto de coisas que queres e tens a fazer…o braço alcança um tanto mas a mão quer mais…o mundo (mesmo o da casa da gente) sempre nos oferece surpresas que podem ser boas ou ruins dependendo do estado de espirito da gente…a nossa vida nos toma toda sensibilidade para percebermos coisa muito lindas,falta tempo…parece que temos muito tempo e só qdo vemos coisas assim como o amigo partindo que lembramos de coisas que deixamos de fazer ou dizer e são tão importantes…não foram ditas e deixam um vazio enorme…sinto cada vez que abraço minhas filhas e saio correndo no aeroporto apressada…o tempo passou e merece ser bem aproveitado.Precisas bolsos e mãos maiores ainda filha..mas a vontade de conhecer outras coisas não passará nunca…É isto que vai te mover sempre em direção à vida …
    Beijão


  2. cris, que bonito o comentário! ainda bem que tu conseguiu aparecer nos últimos segundos. se ainda não tivesse entregue o bilhete de embarque, eu voltava para nos falarmos melhor. mas enfim. e o cobrador também gostou do título do livro, hehe, que momento! hoje já estou melhor, recuperado da viagem. inclusive dei umas bandas com a Lenara e a Ivana.

    leia o livro para matar a saudade =) dá pra ler em duas tardes. depois quero saber o que tu achou.

    honrado e emocionado pela menção no teu lindo blog.
    grande beijo!


  3. minha metade má (se é que não são duas) está aqui se vangloriando por ter lido esse texto em primeira mão, hehehe : ) beijoo

  4. Sandra Leite Says:

    cris,

    que força há nesse texto! A harmonia das palavras, o livro (ah, o livro), o ônibus, o trocador, o corre-corre, ele vai, chega, abraço.
    Cumplicidade.
    É tão forte e bom perceber que dentro da roda-viva que estamos ainda nos permitimos humanos.
    Também não tenho o que me prenda por aqui. O mundo, com certeza, não está na Vila Mariana.
    Quero o mundo.

    Beijos, guria querida

  5. Cris Says:

    Mãe, tu sempre me deixa muda…
    Ontem vi um dos teus filmes preferidos = )
    Beijo, beijo, beijo!

    Ricardo, por dois segundos!
    Depois conta como é a cidade. A Lenara disse que é muito bonitinha.
    O cobrador do ônibus era muito simpático. Comentou umas coisas de literatura e tal, logo depois de falar sobre o livro.
    Cuida-te! Bjos! = )

    Clau, a tua metade má (se é que ela existe) nunca apareceu para mim = )

    Sandra…
    Ah, a roda-viva… O RODA-VIVA. Tens aproveitado? E a Valéria? Tu me deve uma visita e não é no blog. O mundo passa por Porto Alegre também. Beijos, mineira!

  6. Rita Says:

    Cris, saudade tua, fiquei tempos sem vir aqui e quando venho essa surpresa boa de ver que os teus textos continuam muito humanos e sempre uma certa identificação de algo me surge; é uma sensação homogênea.
    “O mundo um dia não te disse seja bem-vindo?”
    Parando pra pensar, não que disse mesmo, também me sinto presa em muitas coisas, na casa, nos relacionamentos, na cidade, na escola e tenho vontade de jogar tudo pro alto, um dia faço, mas agora não é o momento. Pena, mas virá!
    E o melhor para tirar um pouco essa sensação é lembrar de recitar um verso ao acordar, e quem sabe o poema inteiro…
    beijos

  7. Sandra Leite Says:

    meme pra vc…heheheh…cinemaaaa


  8. Se a gente pensa muito, acaba se deprimindo. Melhor é deixar – se conseguir- as coisas acontecerem naturalmente. Hoje parece impossível? Não é bem assim. Lembro que uma vez disse: acho que nunca vou me apaixonar de novo. De repente, quando tu menos espera, acontece! Assim é a vida. Amanhã é amanhã. Não vale a pena morrer na véspera. Beijo!

  9. Graziana Says:

    cheguei aqui atraves do blog da Marcia Benneti, gostei muito dos textos, especialmente este, que fla de mudanças, talvez porque eu esteja vivendo um turbilhão dentro de mim, pensando em todas mudanças que terei de passar , enfim… tomar decisão nunca foi fácil para alguém tão indeciso, mesmo quando algumas certezas são claras…
    um abraço! Graziana


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