Sobre uma certa sede

11/08/2008

 Leonardo Da Vinci
Estudos de feto no útero, a parede uterina e a placenta, com mecânica e óptica

Quando eu era pequena achava o entardecer lindo. Todas aquelas cores luminosas e dispersas olhando para a terra. Enfim. Desejava um dia poder colocar no papel, com meus lápis de cor Faber-Castell, todas as formas nobres que o céu assume pouco antes de receber a lua. Um dia tentei. O estojo era aquele de “dois andares”, lembra? Com “Aquarela” no comercial da TV. O resultado foi medonho. Talvez se eu tivesse todas as cores e as tintas especiais dos grandes pintores o resultado fosse diferente. Talvez me descobrissem como grande promessa da pintura mundial. Não entendo como tanta fantasia cabe na cabeça minúscula de uma criança, e como essa fantasia toda vai embora depois que a criança cresce. A rigor, se o cérebro cresce, existe então mais espaço para mentalizações surreais, certo? Não precisa responder. Óbvio que nunca consegui imitar a natureza. Às vezes me contento em vê-la, acima de mim ou sob os meus pés, ou ao meu lado. Existe coisa mais perfeita do que um corpo humano, com todos os seus cantos, encantos, encontros e todas as suas falhas? Ainda – e Caio Fernando Abreu sabia muito bem disso quando falou em carnes, cheiros, pobreza e nobreza do corpo do outro – todas essas pequenas falhas expostas ao julgamento? Nada é mais humano e natural do que isso. Me contento, e isso pra mim é pouco, em fazer parte dessa natureza. Boris Vian me entenderia:

“Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo dum sítio sozinho
Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos
Em forma de pão verde ou de cântara
Em forma de sapata mole
Em forma de tanglomanglo
De limpa chaminés ou de lilás
De terra cheia de calhaus
De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco
Quero uma vida em forma de ti
E tenho-a mas ainda não é bastante
Eu nunca estou contente”

Depois desse último verso chega então o momento em que Ferreira Gullar vocifera: “Mas que discurso chato! O que foi que Beckett fez contigo, menina?”. Fique sossegado, Gullar. Beckett é inocente. Nem todo teatro do absurdo dele nasce em mim.

“Eu nunca estou contente” não me parece pessimista. Encontro nisso um recurso megalomaníaco que me torna um pouco ansiosa, na verdade. Não cabe em mim a vontade de viver. Eu disse EM mim, e não A. É um pensamento circular e inútil, só como pensamento. Não sei exatamente como vou plantar minha eternidade. Dizem que toda obra de arte é uma tentativa de transcender a morte e a inevitável finitude do corpo. Apego à vida, em essência. Permanecer na terra por um pouco mais de tempo do que o corpo. Shakespeare que o diga. Leonardo Da Vinci, então? Arte e ciência em um corpo só. GÊNIO.

(Garçom, traz mais uma cerveja?)

Mas não sou artista, não tenho dons grandiosos como pintura, matemática, filosofia. Não sou cientista. Não sei arquitetar teorias ou grandes argumentações que tenham alcance mundial. Não tenho a resposta para a maioria das tuas perguntas. E agora vocês vão me dizer que a maternidade foi a forma encontrada pela natureza (Eu uso a palavra natureza. Não sei exatamente o que pensar quando falo em ORIGEM DO UNIVERSO E DAS ESPÉCIES) para que a eternidade fosse alcançada. Não! Não é disso que falo! Acho bonito pensar assim e tudo mais. Faz sentido. Mas sem poesia agora. Não estou falando disso. Falo do MEU corpo mesmo, dos MEUS anseios. Do começo e do fim de uma vida. Nascimento e morte. Existe um teor orgânico em tudo isso. E para onde iria a vontade de viver, se no próprio corpo ela não caberia? Se tudo sucumbe assim, o que é que fica?

Um filho faria parte da minha vida enquanto ela existisse fisicamente, seria a continuação de uma parte do meu corpo na forma de outro ser, com idéias próprias e coração como tambor. Não seria EU. Entende ou acha egocêntrico? Não importa. Não seria EU. Sístoles e diástoles morrem comigo. E o que eu fiz/farei no mundo para justificar a minha existência?

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11 Respostas to “Sobre uma certa sede”

  1. Sandra Leite Says:

    Aehhhh Cris,

    o USINA é blog da Semana do “Pensar enlouquece, pense nisso” !!!! uhuhuhuhuhuhuhuhh

    beijokas, gata

  2. ma Says:

    Quando era pequena eu olhava pela janela olhava o horizonte…Pedia para meu pai me levar lá no fim do mundo, que para mim era no fim daquela estrada que eu enxergava ao longe…ele ria e dizia que não acabava lá e que ele era muito grande …
    E no fim eu penso que tua inquietação tb era a minha e de muita gente…como vamos nos tornar eternos e deixar nossa marca de passagem pelo mundo que eu achava que terminava bem alí na curva daquela estrada? Hoje acho que e tenho certeza que por mais que não se queira,temos em nos um pedaço de cada antepassado que tivemos…Você precisa apenas parar e se olhar!
    Beijão


  3. Por isso é que o louco vive melhor e intensamente. Continua pensando… um dia tu pira. Quer? Faz um filho e escreve um livro – isso tu consegues!

  4. Rafael Terra Says:

    Cris, texto e imagem perfeitos.
    Abração, Rafael

  5. Diego Viana Says:

    Nota honrosa para as citações. Caio, Boris Vian, Gullar… delícia de leitura.

  6. Cris Says:

    Sandra! Aê!
    Saudades de ti, mineira!!!
    : )

    Mãe, que história bonitinha. Não sabia dessa…
    Que amor devia ser o vô te falando isso e rindo.
    Beijo na testa.

    Ricardo, engraçado teu comentário. Ter um filho está nos meus planos futuros. Escrever um livro, bem, não sei se penso nisso. Acho que não. Prefiro lê-los. Por sinal, estou terminando de ler um livro chamado “Os Melhores Contos de Loucura”. Na terceira parte do livro, que se chama “Loucura e Testemunho”, li dois textos de Antonin Artaud. Indico. Muito bons. O Artaud fazia bastante referência à teoria de Freud sobre a eterna disputa entre a libido e o instinto/pulsão de morte. Ele mesmo passou muito tempo internado em centros psiquiátricos, mesmo estando lúcido. Não sei se uso LÚCIDO entre aspas ou não.

    Rafa, Beijo pra ti!
    Link atualizado também : )

    Diego, obrigada pela visita. Os textos do Caio Fernando Abreu são minhas horas preferidas. Difícil alguém não gostar, certo? Chego a imaginar o sangue branco e perfumado de algumas criaturas dele em O Ovo Apunhalado. Boris Vian também. Existencialista ele… Eu gosto.
    : )

  7. Graziana Says:

    também fui aluna da Marcia…
    estou numa fase de querer mudanças, mas ainda com medo de dar o passo a diante… algumas coisas são difíceis de mudar, mas é a vida né! acredito que tudo é pra melhor!
    te linkei nos meus escritos, virei te visitar mais vezes ;)
    beijos
    Grazi

  8. Vica Says:

    Adorei esse post, as imagens, as citações.

  9. Luísa Says:

    cris!
    é incrível a habilidade que tu tens de transformar pensamentos em palavras. eles são teus, às vezes são meus e de outros também, mas talvez poucos de nós conseguissem expressá-los de forma tão clara e honesta e poética. tudo isso.

    um beijo, queri!

  10. Cris Says:

    Luísa e Vica,
    Fiquei feliz : )

    Luísa, preciso te contar, pois na hora não falei nada e tu estava no msn. No momento em que tu deixou esse comentário eu estava ouvindo Luiza (com Z), do Tom Jobim. Fiquei impressionada O.Ô

  11. tina Says:

    Hmmm, quando eu era pequena(até uns 12 anos),subia todos os dias em uma árvore e ficava observando o crepúsculo.É a hora do dia que eu mais gosto!

    É quando me dá uma certa melancolia e isso me faz bem.É a hora em que eu saio do meu trabalho com aquela sensação gostosa de dever cumprido.Tenho 17 anos agora , mas ainda guardo essas qualidades de criança que eu nunca gostaria de perder.

    Gostei de ter vindo aqui.Voltarei mais vezes!!

    Um abraço!


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