Archive for setembro, 2008

Da boa ironia descritiva, quase criminosa

30/09/2008

“Tropecei, então, com Lady Brandon. ‘Vai deixar-nos tão cedo, Sr. Hallward?’, exclamou. Conhece a sua estranha e estridente voz?

– Sim; é um pavão real em tudo, menos na beleza – disse Lorde Henry (…)”

Trecho de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Estou me vendo aos tombos e post-its. O livro é emprestado e eu não posso sublinhar. Penso em devolver o que comecei a ler e comprar um para mim, só para poder rabiscar. Ainda: personagens de gênio forte e convictos em seus diálogos, extremamente bem caracterizados. 

Outro:

“- Pobre Lady Brandon! Você é severo para com ela, Harry – disse Hallward negligentemente.

– Meu caro amigo, ela quis fundar um salon, e só conseguiu abrir um restaurante. Como poderia eu admirá-la?”

* * *

Terminei de ler Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios. Li rápido, mais da metade no aeroporto de Cuiabá, onde precisei esperar por mais ou menos umas cinco horas antes de embarcar para Porto Alegre novamente. Não foi tão ruim. Há muita coisa para se fazer em um aeroporto, e a vista, embora meio difusa devido à distância, era para a Chapada dos Guimarães. Ainda deu tempo de comprar um licor de Pequi, que já experimentei: a garganta queimou. Adocicado! Maravilhoso!

* A regra é: dois livros por vez. Um de autor estrangeiro; o outro, brasileiro.

Acima do Trópico

20/09/2008

“Este ano tá estranho, a Chuva do Caju* nem aconteceu”, meu pai me disse. Me disse ontem, quando começaram a cair os primeiros pingos d’água desde abril aqui, a 350 Km, mais ou menos, ao norte de Cuiabá. Procurem no mapa, chama-se Nova Mutum, a cidade. 25 mil habitantes, aproximadamente. Estou aqui!

Porto Alegre-conexão em Curitiba-escala em Campo Grande-Cuiabá. Mais cinco horas de carro e cheguei, na terça passada. 38 graus em Cuiabá, e eu me desmontando, porque saí de Porto Alegre com um casaco grosso. Da cultura, olha só, já ouvi rasqueado tocando no aeroporto. O Rio Cuiabá já me pareceu maior; talvez eu fosse menor. A mata que acompanha a BR tá seca. O cerrado só se mostra preto, queimado. Dá pena e revolta. Enquanto o inverno gela os pés dos gaúchos, a época da seca deixa a grama marrom e quebradiça aqui, bem acima do Trópico de Capricórnio. E não, não tá morta, por mais óbvio que isso possa parecer. É só o inverno passar e tudo volta a ter um verde completamente vivo. Sabe, o terreno aqui de casa tem grama até os fundos, e chega a dar um aperto no peito, porque as folhinhas estão todas secas. Sorte é que nem todas as plantas demonstram a mesma fragilidade. Então tenho bastante verde pra ver. No primeiro dia inteiro que passei aqui era ruim de respirar, porque o ar tá seco demais! Usamos umidificador de ar (confesso que eu nem conhecia isso). Enfim, depois da chuva forte de ontem, nesta madrugada a água caiu de vez. Chuvona! Hoje acordei e até usei um casaquinho.

Não estou falando sobre o tempo por falta de assunto, acreditem. Estou falando porque há dois anos eu não vinha pra cá e não me lembrava de como era tudo tão diferente. Aqui existem duas estações bem definidas e previsíveis: inverno SECO e verão CHUVOSO (só pra lembrar: Porto Alegre pode ter até quatro estações em um único dia). Estou me readaptando. E quando eu finalmente me acostumar com algumas coisas, já volto pra Porto.

*Chuva do Caju é como chamam aqui a primeira das chuvas fortes que acontecem em julho ou agosto. Essa chuva dá início à época de amadurecimento dos cajus.

** Vir pra cá é total aula de biologia. Geografia também.

***Estou com cheiro de cebola nas mãos. Hoje eu e meu pai dividimos o fogão :)

Terminei, finalmente:
– Os Melhores Contos de Loucura
– Entrevistas – Clarice Lispector

Lendo agora (e adorando!):
– O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
– Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios – Marçal Aquino:

“De acordo com o professor Schianberg, não é possível determinar o momento exato em que uma pessoa se apaixona. Se fosse, ele afirma, bastaria um termômetro para comprovar sua teoria de que, nesse instante, a temperatura corporal se eleva vários graus. Uma febre, nossa única seqüela divina. Schianberg diz mais: ao se apaixonar, um ‘homem de sangue quente’ experimenta o desamparo de sentir-se vulnerável.”

A função da arte

12/09/2008

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

Me ajuda a olhar!

Tirei d’O Livro dos Abraços, do Eduardo Galeano. Página 15. É um livrinho pequeno, daqueles que tu nunca vai ler inteiro de uma vez só. Às vezes abro em algumas páginas, aleatoriamente, leio e fecho novamente. Esse é o meu segundo texto favorito dali. O primeiro é este.

* * *

PS. Pela milésima quinta vez, lá vem um dia cinza me ganhar no silêncio. Nada como um guarda-chuva vermelho no meio de tantas sombrinhas pretas. Definitivamente, o mundo não acabou(!). E olhem as cores destes vídeos. Eu fico meio bêbada quando vejo coisas assim. Da Stars. Canadenses, só podia. São muito caprichosos.

O início é meio bizarro, mas o azul (branco? branco.) aparece logo.

Convite

10/09/2008

Eu não sei ler sem lápis entre os dedos. Sublinho, pontuo exclamações e interrogações, circulo palavras desconhecidas e vou atrás do dicionário. Meus livros, todos os que mais me agradaram, serão encontrados sempre num estado rabiscado e bem usado. Por isso gosto de livros velhos, esses de sebos, que até com dedicatória vêm.

Literalmente, esse é um pedaço de mim… Afinal, tu sabe o quanto eu amo livros, né? Por isso quero que este seja teu. Te adoro! Beijos! Mi. Outubro/2006

Mi? O que era teu já não é mais. E aquele (desnaturado? mudou-se. deixou de herança? foi assaltado. emprestou? sem volta.) que um dia recebeu esse pedaço de ti também não carrega mais tal valor. O que tu doou de ti agora é meu. Comprei barato, no sebo da Osvaldo Aranha. Não pretendo dar de presente a ninguém. Gosto do livro e quero tê-lo comigo. Tua dedicatória continua lá, e o livro está intacto, quase novo.

* * *

Juntei todos os livros espalhados pela casa (como se a casa fosse gigante) e organizei na estante preta. Revistas também, cadernos velhos e folhas soltas. Tudo, tudo. Achei um livro que já deveria ter começado a ler, e algumas das páginas tinham anotações tuas, frases que conversavam com as linhas, que formavam diálogos cheios de observações curiosas, até meio indignadas.  Um teor crítico sempre bem sutil e característico. Por falar nisso, também encontrei páginas inteiras com interrogações por todos os lados. Logo tu, que sempre teve teus olhos tão cheios de segurança? Sorri de leve, sem mostrar os dentes, achando engraçado. Guardei de volta na estante.

* * *

A quem passar por aqui, faço um convite: leia este texto do Limão Expresso, escrito pela Prill. Como disse acima, o hábito. Senti vontade de gastar a ponta do lápis. Já que rabiscar desordenadamente não me é permitido, transcrevo abaixo minhas maiores atenções:

“Toda vez que ele dizia umas palavras, parecia que a casa tinha ficado menor; eu queria tanto ouvir as palavras que destruía todos os espaços, todos os móveis, esquecia as cores e não perdia a atenção dos teus ditos.”

“Penso que você trazia dentro dos bolsos, do trabalho, trezentos fantasmas e por causa disso eu nem dormia mais, só dormia quando Augusto Pedro aparecia e me dizia que podia ser.”

“Terminamos, quis levar as coisas, fui lavar na pia, quis ser perfeita nisso, quis Augusto pra chamar de Pedro, esqueci o pano de prato, o exaustor, as cortinas, apaguei desatenções e o garfo rolou pelo detergente até que caiu.”

“Quando eu te conheci frívola…”

Gabriel

06/09/2008

O nome do meu filho vai ser Gabriel. Isso não é um futuro próximo. Isso é “um dia”. Não sei exatamente de onde surgiu essa convicção. São duas, as convicções, aliás. A primeira é a de que eu terei um menino, e não uma menina. Segundo, a escolha do nome foi sendo moldada aos poucos. Acho que minha mãe certa vez, quando eu era pequena, me contou que Gabriel era o nome de um anjo (e essa é a origem do nome do meu irmão mais novo). Gabriel é o arcanjo da esperança, revelador das boas novas, a quem foi confiada a maior de todas as missões: anunciar a chegada de Jesus.  É também o anjo mais representado nas telas de cinema. Criança ainda, eu fiquei impressionada com a história, e com o nome na cabeça. Outras coisas, com o passar dos anos, foram somando-se à sensação boa que o nome sempre me causa. Coisas simples, na verdade, como agradáveis coincidências. E não, NÃO acredito em recados divinos. Vide explicação no parágrafo seguinte. Hoje o que menos importa é se Gabriel era ou não um anjo. É a beleza do nome que me prende a atenção. Milhares de boas impressões que eu não sei descrever surgem na minha cabeça quando alguém diz que se chama Gabriel. Estranho é eu pensar que já escolhi o nome do filho que não vai ser só meu. Espero que o futuro pai da criança concorde com a idéia. Pra mostrar como todo Gabriel é cativante, ó, meu irmão, a váááaaaarios anos atrás. I-MUN-DO, brincando. Ele continua  gatinho assim, só que UM POUQUINHO maior:

Não sigo nenhuma religião, e talvez minha mãe fique chateada ao ler isso. Talvez por não ter uma crença profunda no Deus que teoricamente é o pai da humanidade, senti falta de algo em que acreditar quando o Bruno, meu amigo, morreu. Me senti vazia, com pensamentos vagos e senti a morte e a vida dispersas em todo canto, no ar. Há séculos não entro em uma igreja sem ser por mero interesse pelo seu valor arquitetônico e/ou pela arte contida nas imagens, nas paredes, em todos os cantos. A mesma coisa com a Bíblia. Não a vejo como um instrumento de guia para valores e condutas, e sim como uma obra histórica e documental. Não consigo crer que ali estão todas as grandes verdades. A Bíblia entrou para a minha lista de leituras obrigatórias, que por sinal, só aumenta, pela sua riqueza literária (poesia, profecia, anjos, pestes, demônios e alguma ironia), histórica e geográfica. É preciso considerar, sem a pretensão de reduzir o valor ou igualar a qualquer outra obra, que a Bíblia é UM LIVRO; o mais amplamente lido e distribuído de todos os tempos, e também o mais censurado, queimado e perseguido. Transcende diferenças culturais e temporais. Acho que me expliquei em relação a isso

O Rodrigo, já tão citado por aqui, sem saber sobre essa minha afeição por Gabriel, o nome, outro dia me mandou procurar Gabriel, a música, da Lamb, uma banda britânica (um duo, na verdade). Aliás, até esse post ir para o ar, acho que pouquíssima gente sabia que o meu filho, que sequer foi gerado ainda, enfim, assim um dia se chamará. Não é um grande segredo. Continuando, o Rodrigo sempre acerta! Adorei. O último álbum da Lamb, What Sound, foi lançado em 2005 e depois disso a dupla se desfez. Quem gosta de Lamb, provavelmente também gostará de Antony and The Johnsons e St. Vincent. Hmmm. Lembra também um pouco de Portishead e Massive Attack. De St. Vincent, sugiro que comecem a ouvir pelas músicas Marry Me ou We Put A Pearl In The Ground. Your Lips Are Red também é bonita. A St. Vincent só lançou um álbum até agora (Marry Me).

O vídeo de Gabriel:

Outra, enquanto eu escrevia aqui, o Flávio me mandou o link desta página, que foi por onde ele conheceu Lamb. Ali são disponibilizados materiais sobre cinema, música, literatura, aquitetura… Bem legal :)

* Existe uma trilogia chamada The Prophecy, de Gregory Widen (no Brasil, Os Anjos Rebeldes I, II e III). Os três filmes têm como protagonista o Christopher Walken (ele já protagonizou também Na Hora da Zona Morta, do Cronenberg), e o Viggo Mortensen, que volta e meia atua em filmes do Cronenberg também, fez o primeiro da seqüência. A história é uma fantasia, terror propriamente dito, em que a “fábula” bíblica sobre a guerra dos anjos, em que Lucifer, o anjo caído, e Gabriel, o anjo a quem foi aplicada a autoridade para vencer Lucifer, lutam entre si. O filme, porém mostra Gabriel como um ser cruel, diferente das passagens originais. Gabriel como anjo caído foi uma criação de roteiro para o filme, FICÇÃO não baseada na Bíblia. Mas sobre essa história da revolta dos anjos eu falo mais depois. Acho bem legal, por sinal. Ahh,  sim, sim,  mais uma coisa pra acabar o post sem anjos renegados. Tem também o filme do Wim Wenders, Asas do Desejo, que se passa em Berlim, no pós-guerra, com o Bruno Ganz (Pão e Tulipas, Nosferatu – O Vampiro da Noite…) e o Otto Sander, (Far Away, So Close, também do Wim Wenders e com a mesma temática de Asas do Desejo, O Einstein do Sexo, etc). O argumento do filme é do escritor e dramaturgo austríaco Peter Handke, de quem cito abaixo um trecho do poema Song of Childhood:

“When the child was a child,
It was the time for these questions:
Why am I me, and why not you?
Why am I here, and why not there?
When did time begin, and where does space end?
Is life under the sun not just a dream?
Is what I see and hear and smell
not just an illusion of a world before the world?
Given the facts of evil and people.
does evil really exist?
How can it be that I, who I am,
didn’t exist before I came to be,
and that, someday, I, who I am,
will no longer be who I am?”