Acima do Trópico

20/09/2008

“Este ano tá estranho, a Chuva do Caju* nem aconteceu”, meu pai me disse. Me disse ontem, quando começaram a cair os primeiros pingos d’água desde abril aqui, a 350 Km, mais ou menos, ao norte de Cuiabá. Procurem no mapa, chama-se Nova Mutum, a cidade. 25 mil habitantes, aproximadamente. Estou aqui!

Porto Alegre-conexão em Curitiba-escala em Campo Grande-Cuiabá. Mais cinco horas de carro e cheguei, na terça passada. 38 graus em Cuiabá, e eu me desmontando, porque saí de Porto Alegre com um casaco grosso. Da cultura, olha só, já ouvi rasqueado tocando no aeroporto. O Rio Cuiabá já me pareceu maior; talvez eu fosse menor. A mata que acompanha a BR tá seca. O cerrado só se mostra preto, queimado. Dá pena e revolta. Enquanto o inverno gela os pés dos gaúchos, a época da seca deixa a grama marrom e quebradiça aqui, bem acima do Trópico de Capricórnio. E não, não tá morta, por mais óbvio que isso possa parecer. É só o inverno passar e tudo volta a ter um verde completamente vivo. Sabe, o terreno aqui de casa tem grama até os fundos, e chega a dar um aperto no peito, porque as folhinhas estão todas secas. Sorte é que nem todas as plantas demonstram a mesma fragilidade. Então tenho bastante verde pra ver. No primeiro dia inteiro que passei aqui era ruim de respirar, porque o ar tá seco demais! Usamos umidificador de ar (confesso que eu nem conhecia isso). Enfim, depois da chuva forte de ontem, nesta madrugada a água caiu de vez. Chuvona! Hoje acordei e até usei um casaquinho.

Não estou falando sobre o tempo por falta de assunto, acreditem. Estou falando porque há dois anos eu não vinha pra cá e não me lembrava de como era tudo tão diferente. Aqui existem duas estações bem definidas e previsíveis: inverno SECO e verão CHUVOSO (só pra lembrar: Porto Alegre pode ter até quatro estações em um único dia). Estou me readaptando. E quando eu finalmente me acostumar com algumas coisas, já volto pra Porto.

*Chuva do Caju é como chamam aqui a primeira das chuvas fortes que acontecem em julho ou agosto. Essa chuva dá início à época de amadurecimento dos cajus.

** Vir pra cá é total aula de biologia. Geografia também.

***Estou com cheiro de cebola nas mãos. Hoje eu e meu pai dividimos o fogão :)

Terminei, finalmente:
– Os Melhores Contos de Loucura
– Entrevistas – Clarice Lispector

Lendo agora (e adorando!):
– O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
– Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios – Marçal Aquino:

“De acordo com o professor Schianberg, não é possível determinar o momento exato em que uma pessoa se apaixona. Se fosse, ele afirma, bastaria um termômetro para comprovar sua teoria de que, nesse instante, a temperatura corporal se eleva vários graus. Uma febre, nossa única seqüela divina. Schianberg diz mais: ao se apaixonar, um ‘homem de sangue quente’ experimenta o desamparo de sentir-se vulnerável.”

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11 Respostas to “Acima do Trópico”

  1. Sara Says:

    Aproveitando bem por mim, hein?! Traz um pouco pra mim em um potinho! Saudades, de todos vocês! Amo! Beijocas

  2. Sandra Leite Says:

    Cris, hermana,

    Dizem que quase nevou em BH. Exagero! Mas de fato houve granizo. Mas eu já estava em SP. Saí de BH com 34 graus cheguei aqui com 14 . Yes, sobrevivi.
    Estar em casa sempre é bom . Por mais que eu saiba que aquela casa de BH não é mais minha. É bom retornar às origens. Marcamos um dia de ir à BH?
    Cris, achei linda a expressão “Chuva do Caju “. Linda mesmo! Diz tanto pra mim, talvez porque eu goste do cheiro e do gosto do caju.
    Ah, Oscar Wilde! Se todos fossem como ele….adorei mil vezes o “Retrato de Dorian Gray” . Forte. Wilde tem um poder de nos levar de personagem a personagem. Me identifiquei com todos. Odiei todos. Amei Wilde. Ele brinca com as idéias, acompanhe-o. Brinca com conceitos. É finamente irônico e sarcástico. Ai, como adorei esse livro. Sabe que ao terminar vi que um pouco de cada personagem estava em mim….
    Wilde e Kundera, jogo duríssimo.

    beijos imensos (a la Prill)

    PS: Conte-me como estão as coisas por aí, tá?

  3. gabriel Says:

    você e suas excelentes descrições…excelentes…as vezes o cheiro de cebola nas mãos podem se transformar em um belo perfume que trás lembranças..boas sempre…e a propósito pode não ser possível determinar o exato momento em que surge a paixão, mas quando ela surge é impossível esquecer…é ai o momento jão nem precisa ser tão exato…nem precisa..
    beijo pra ti…e é sempre bom te ler…sempre…

  4. Sandra Says:

    Cris

    Dia extremamente feliz! Apenas para compartilhar com vc, minah amiga e hermana:)
    Estou pensando em ir a POA. Se tudo de certo, numa época em que você e Rogério (que comenta no meu blog) estejam aí. Seria muito bacana. Fala com o Márcio que nem aceito um talvez. Tenho que encontrar mesmo. E a Claudinha Flores, idem. Adoro essa turma de POA.
    Crisssssssssss, vamos pra Buenos Aires no reveillon???? Vamos, vamos???

    beijos


  5. É o segundo post que leio hoje de alguém que foi a Cuibá :)

    Acredite, já ouvi falar dessa cidade. Tem mais gaúcho vivendo aí hehe a irmã da mulher do meu pai mora aí com a família.

  6. camilalopes Says:

    Descobri onde tu anda!!! (hehehehe)
    Também adorei O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde.

    Saudades.

  7. Cris Says:

    Sarinha,
    Viagem bem aproveitada :)

    Sandra,
    Eu vi na TV sobre as enxurradas em BH. Que loucura!
    Bah, me senti interiorana, que bom, adorando aquela calma toda. Agora já estou de volta a PoA, e morrendo de saudades do barulho do sininho que balança com o vento na área de casa, lá.
    Chuva do Caju, minha amigaaaa, adivinha o que eu comi antes de ir embora de lá? Um caju BEM VERMELHO. Lindo!
    Estou no início do livro do Oscar Wilde. Não posso falar muito até agora. Quatro páginas não me dão muito substrato, mas parece bom. Pelo menos prendeu a minha concentração.

    E quando tu veeeem?? Já vou combinar com a Clau onde vamos te levar! Fica aqui em casa, né?? Notícia mais boa!! =)
    Beijo! Fiquei tri feliz!

    Gabriel, impressionante. Eu não gosto de cheiro de cebola nas mãos, mas isso que tu falou é real. Nesse caso, por ter cozinhado com o meu pai, o cheiro traz de volta coisas boas. Meu pai cozinha tri bem e eu adoro quando tenho a chance de acompanhar ele. No fim, dessa vez, por causa da pressa, eu preparei parte do almoço e ele outra. A comida ficou ótima (e a minha modéstia resolveu se esconder).
    Beijos! E, aliás, não se se já te dei boas-vindas depois da tua viagem. Se não, perdoe o meu lapso de memória.
    :)

    Fernanda,
    É MUITO gaúcho morando lá. Tem CTG pra tudo que é lado!

    Camila,
    hahaha! já voltei. Sexta tou aí.
    Tou no início do livro. Depois te conto o que achei.
    Beijocas :)

  8. Anônimo que também não Entende Says:

    Cara,
    Seu conto sobre sua estada matogossense é quase familiar. Tem cheiros (chuva, cebola, mata). Tem umidade (e falta dela). Tem temperatura (calor, frio). Tem muito sentimento (pai, cozinha, infancia…). Você disse muito, enquanto parecia dizer nada.
    Intrigado mesmo fiquei com a citaçao que vc escolheu para o final.
    Porque nos apaixonamos? qual é o momento? A explicação é que não têm explicação.
    inté

  9. Sandra Leite Says:

    E viva Chico Buarque no Last FM. Olha quem está aqui: O anônimo! Será o mesmo? Será que me largou? Será? :( Gaúcha querida, deixo hoje um recado para o anônimo:

    querido comentarista e encantador anônimo…%4#@8&8%_6%. Entendeu? Ainda bem :)

    beijos Cris, beijos anônimo

  10. natusch Says:

    Nunca fui ao Mato Grosso, e me senti como se estivesse lá enquanto lia. É uma qualidade rara. Bem rara. :D

    Beijo!

  11. Cris Says:

    Anônimo que também não Entende,

    O Mato Grosso me é familiar. Morei por mais de dez anos lá. Sinto falta do mato, do verde e ar de lá. Totalmente interiorana, sou, sim. Antes rejeitava a idéia de voltar a morar lá um dia. Agora, não mais. Algo mudou. Acho que fui eu, em meio à falta de umidade. Acho que foi o colo de mãe! :)
    A citação final escolhi porque achei muito verdadeira. É do livro que lia, do Marçal Aquino. Eu dificilmente consigo seguir o relógio. Estou sempre atrasada, mas tenho uma neura: preciso medir algumas situações em segundos, minutos, descobrir como acontecem e em que momento se transformam. Neura, de fato… Não tem explicação.

    Sandra, e VIVA! MBP anda tocando demais por aqui. Quem me mandou dois álbuns dele foi a Clau :)
    Sobre o comentário para o Anônimo: hahahahahahaha!
    Sandra, até os teus símbolos em bold e caixa alta, indecifráveis, eu entendo!
    Beijões :)

    Natusch,
    A tranqüilidade de lá é que é rara. Conheça a região um dia :)
    Beijo!


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