O Homem da Foto

16/10/2008

Refiro-me ao homem de terno escuro. Sei que essa foto foi tirada na Rua da Praia, aqui em Porto Alegre. Sem data. Sem circunstância. No names. O tempo amarelou tudo. Encontrei-a junto com outras tantas fotografias anônimas em uma caixinha, em um brique perto do Parque da Redenção. Paguei cinco reais por ela na época, acho que alguns meses atrás, talvez até um ano. Realmente, não me lembro. Comprei a foto por um motivo muito claro: o homem da direita só podia ser meu avô. Juro que naquele dia eu coloquei em dúvida qualquer possibilidade de aquilo ser uma coincidência. E ainda vivo fazendo isso em outros casos, papo pra outro post, ou não. Enfim. Comprei a foto, impressionada com o que estava acontecendo e tentando imaginar toda a história. Ih, viajei. Ficava imaginando como a foto dele havia ido parar naquele brique, e por que justamente EU, neta dele, havia tido a idéia de passar lá e olhar aquela caixinha de fotos de um monte de gente que eu nunca vi na minha vida. O que estava acontecendo era fantástico! E ainda por cima, eu queria amaldiçoar a criatura que havia vendido a foto dele para um brique. No dia seguinte, escaneei a foto e mandei para o meu pai.

Não. Não era o meu avô na foto, meu pai disse, “mas é muuuuito parecido”. Até agora fico olhando e não entendo tamanha semelhança. A verdade é que a foto adquiriu um valor sentimental grande para mim. Não sei quem são/eram essas pessoas tão elegantemente retratadas, mas elas agora fazem parte de uma história legal.

Ontem fez uma semana que o meu avô morreu. Foi na quarta-feira pela manhã*. Ainda pude ver ele com vida, falar com ele e receber resposta e até um sorriso há algumas semanas. Isso foi no hospital. A previsão era de que ele receberia alta logo e iria para casa. Um dia perguntei para ele quando ele voltaria para casa e ele respondeu, enfático, “AMANHÔ. É estranho e triste concluir que quando eu visitar novamente os meus pais, o quarto do meu avô continuará vazio, como se ele estivesse ainda no hospital. Não sei muito bem o que pensar. Acho que porque eu estou longe de casa a ficha está caindo aos poucos. Agora eu tenho somente minhas avós. E que bom, ainda tenho avós. Fico pensando que quando elas passarem a existir também somente nas minhas boas lembranças, como os meus avôs, uma coisa inevitável acontecerá: eu não serei mais a criança de ninguém. No fundo, para os nossos velhinhos a gente sempre vai ser a criança que eles viram nascer. Para eles, só o nosso corpo cresce, entende? Para nós, sempre vai ter colo.

Durante esses dias que eu passei no Mato Grosso, e que antecederam a morte do meu avô, pude conviver mais com meu pai. Eu conheço muito a minha mãe e me identifico muito com ela, mas meu pai ainda é uma página que estou aprendendo a ler. Ele é um pouco mais reservado. É brincalhão, muito brincalhão, mas algumas coisas simplesmente não fazem parte das nossas pautas, e isso me incomoda. É o jeito dele, eu sei. E talvez isso era o que eu nunca havia entendido: o jeito dele. A nobreza e o carinho com que o meu pai cuidou do meu avô durante o tempo em que ele esteve doente, passando noites em claro e jamais deixando meu avô sentir a tristeza escondida nos olhos do filho, eram-me estranhos nele. E adianto, não me eram estranhos porque eu não esperava isso dele, mas realmente porque eu não conhecia muito meu pai. Acho que uma semana ainda não foi o suficiente, mas esse tempo valeu por anos reticentes. Meu pai é doce, muito doce. Isso me deixa feliz, e ele nem imagina o quanto.

* Sabe, a resposta é: não se diz nada. As pessoas, nessas horas, não precisam de palavras ou de alguém falando do lado. Elas só precisam do silêncio quente de um abraço.

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14 Respostas to “O Homem da Foto”

  1. Sandra Leite Says:

    Cris,

    Que relato lindo! Relato de paixão. Estranho é que acabei de escrever sobre Amelie Poulain e transcrevo parte do post

    – ” Qual de nós ainda possui a caixinha de recordações guardada? E as bolinhas de gude, onde estão? Já encontrou uma caixinha que não é sua?”

    Você , pelo visto, pegou parte da caixinha de alguém. Um alguém que hoje é muito seu! História bonita. Queria q se encontrassem, assim como Amelie fez no filme. Quanto à morte, poucas palavras. Nunca estamos preparados. Não sabemos como lidar. Ainda nos surpreende.

    E você nem sabia que a morte do seu avô iria revelar um pai tão nobre e digno…parece filme! Ainda sem muitas explicações, mas com um argumento lindo. Essas histórias são nosso maior tesouro, Cris!

    E isso é dádiva!

    bjs

  2. masimon Says:

    De matar filha este teu relato…bendita semana que vc passou com a gente..resgatou coisas de uma vida toda de desencontros…Que sensibilidade fantastica a tua que consegue enxergar nas entrelinhas toda a carga emocional de momentos que aos outros passam despercebidas…Que bom poder ler estas coisas vindas de vc
    Um beijão na testa

  3. gabriel Says:

    Belo relato…como sempre sincera, honesta e nesse emotiva…belo relato…momentos são pra guardar…para sucitar o pensar, o refletir, o amar.
    Beijo pra ti

    ps. legal ter passado aqui hoje…coincidência ou não tava pensando no Usina por esses dias…tava pensando na escrita leve de você Cris…e é isso.

  4. Henry of Charlotte Says:

    Cara

    Texto-filme este seu. Mesmo seu pai nao concordando, tenha certeza, o homem da foto é seu avô:-> A verdade é o que construímos. A verdade é a memória.
    Presenças dos ausentes. Memórias são reinvenções da realidade. As cadeias que construímos. Aquilo que habilmente esquecemos. O que destacamos. “Momentos bons, momentos maus, que a memória côa”. Construções hábeis dos engenheiros da memória. Fotografias e souvenires que alicerçam prédios que construímos e reformamos continuamente. Passado “passado a limpo” pela arquitetura de nossas memórias.
    Quixote somos nós todos. Dragões contra os quais lutamos e de donzelas pelas quais nos apaixonamos. Tudo memória. Tudo verdade. Doces verdades inventadas. Tudo tão real como o passado pode ser. Tudo tão grávido da esperança do futuro.

    um ab
    Eduardo

  5. Ricardo Seron Says:

    Sabe Cris, vc escreve incrivelmente bem!!

    =)

  6. Caco Says:

    Sabe, família é muito importante, é uma delícia que a gente vai se esquecendo e, de repente, ela cai de paraquedas na cabeça da gente ou se esconde numa caixinha.
    Beijodaí.

  7. tamara guimaraes Says:

    Cris, lindo teu texto!Insólitas coincidências te levaram até a foto qye parecia ser de teu avô!Também o comentário do Eduardo sobre o que é a memória é poético:Nada mais somos do que as memórias de momentos bons e momentos maus que vivenciamos! Santo Agostinho já disse que “A memória é a casa da alma” e é tua ternura por teu pai e teu avô presença significativa em tua alma. Quanta sensibilidade , parabéns!

  8. Cris Says:

    Sandra,
    São dias de Amélie…
    E eu vou completando a caixinha :)
    Ficaria toda boba se encontrasse essas pessoas.

    Mãe,
    nem sei muito o que dizer, talvez que minhas características são todas herdadas. Mesmo sem eu dizer qualquer palavra, tu entenderia, né?
    Obrigada por tudo.
    Beijo grande!

    Gabriel,
    Tua visita e tua simpatia sempre fazem a diferença por aqui.
    Uma pergunta. Tu é de São Paulo? Eu e a Sandra (do Isso é Bossa Nova) estávamos outro dia conversando, falando sobre blogs e tal, e ela me perguntou de onde tu era, e eu não soube responder!
    Beijo :)

    Henry, Eduardo
    Agora não mais oculto, que bom. Muito prazer :)
    Esses teus comentários. Que coisa. Sempre são um problema pra responder, sabia? Eles ultrapassam a minha inteligência. Talvez até a minha vivência. Me sinto um pouco ignorante, mas me mantenho curiosa. Já te disse, aprendo com eles. Gosto de ouvir as pessoas, de ler o que escrevem, de sabê-las. Venha sempre.
    Às vezes volto e fico olhando para essa foto, e ela me parece tão íntima e real.
    Abraços

    Ricardo,
    (ai, vou te chamar de Ric! Se eu chamar de Ricardo, parece que tou braba contigo! hahaha)
    Fiquei feliz agora :)
    Ahh, lembra da Sandra, né? Aí de São Paulo. Ela vai pro Chile no fim do ano. Passa ali no Isso é Bossa Nova (blog dela) e deixa umas dicas pra ela :)
    Ou eu passo teus contatos pra ela. Te importas?

    Caco,
    Que bonito o que tu escreveu… Não tem como medir o valor.
    Sabe, às vezes eu brigo com a minha irmã. Não dura nem alguns minutos, vem uma ou outra, toda chorona, se encostando, querendo desculpas, fazendo birra pra que a outra dê uma risada. Hahaha!
    Beijodaqui.

    Tamara,
    Me entristeço quando alguém vem me contar algo que aconteceu, e que no fundo eu já nem me lembrava mais. Sabe, fico triste mesmo. A memória tem falhas, ela se enche, deixa vazar, nos engana. Mas adoro me pegar rindo em algum lugar por lembrar de alguma coisa legal. Tu já encontrou alguém sozinho no teu caminho, e essa pessoa, no entanto, passa por ti distraída, rindo do nada? É a melhor coisa que existe.
    Beijos!
    PS. Curiosidade ariana: como chegaste aqui?

  9. Carmen Says:

    Olá. Sei que não me conheces e acho que nunca deixei um comentário aqui, se bem que venho cá regularmente porque gosto de te ler.
    Neste post que efectuas-te tive que parar porque me tocou para demais.
    O meu avô morreu dia 12 de Janeiro deste mesmo ano; quem ouve de fora pensa que já tive meses para me recompor, mas não. Aliás, acho que poderão passar anos e eu nunca ficarei habituada à ausência dele. Como estou longe, e não tenho que me encarar todos os dias com essa realidade ainda mais estranho quando vou a casa da minha avó.
    Só tenho uma avó. Lembro-me quando tinha ainda uma bisavó, e de repente só tenho uma avó. É-me estranho e dói-me aqui dentro.
    Quando me lembro disso respiro fundo, mas parece que custa fazer esse acto.
    E sim, é verdade, ninguém precisa de palavras. Quem nos dá palavras para mostrar que está ali, para somente fazer com que a outra pessoa saiba, por mais carinhosa a outra pessoa for não é aquilo que na altura se precisa; aliás simplesmente se precisa de um tempo sozinha sem conversa e mais tarde de um abraço, de um beijo, de um toque para SENTIR (não saber) que está alguém ali, para ela.
    As palavras muitas vezes são demais e são vazias mesmo que o significado delas esteja cheio de emoções.

    Um beijo,
    Carmen.
    (ficou um pouco confuso a minha escrita, mas agora parece que estou a aprender de novo a conversar. Despejei recentemente coisas que me faziam falar, fiquei sem nada, fiquei muda até ao presente; não creio que vá falar para já. )

  10. Says:

    Que filme cris… me identifiquei bastante com algumas partes, sabes?
    Um beijo, jô


  11. Sabe Cris, têm coisas que a gente quer ler, ao invés de ouvir. Tu tens um sentimento forte, que aflora em palavras. Emocionei-em. Beijo!


  12. palavras escritas. Emocionei-me (corrigindo)

  13. Bertram Says:

    Olá, Cris!
    Já não sei se é o caso, pois o que tenho a dizer sai do imaginário e nos traz de volta à real.
    Acho que a foto não é da rua da Praia, Poa. Olhe a calçada e seus desenhos. Que eu lembre ou conheça, este tipo de desenho não é das calçadas de Poa.
    Sorry!
    Serve para imaginar por onde viajou seu avô…
    Abraços
    Martreb

  14. Suelen Says:

    É, Titi… A gente já está longe de casa há quase dez anos… Entendo perfeitamente cada palavra que vc escreveu. Seu pai, seu avô… Parece que mudam apenas personagens de uma mesma história… Parece que a distância nos aproxima dos nossos pais… E como eu sinto falta de tudo isso… Ficam belas fotos…


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