Archive for novembro, 2008

Amanhã

23/11/2008

Primeiro dia no trabalho novo. Que minha distração tenha piedade de mim. Que eu não derrame café no teclado.

: )

As idades de Ana

17/11/2008

“Em seus primeiros anos, Ana Fellini acreditava que seus pais tinham morrido num acidente. Seus avós contaram. Disseram a ela que seus pais vinham buscá-la quando o avião caiu.

Aos onze anos, alguém disse a ela que seus pais tinham morrido lutando contra a ditadura militar argentina. Não perguntou nada, não disse nada. Ela, menina faladora, desde aquele momento falou pouco ou nada.

Aos dezessete anos, era difícil beijar. Tinha uma chaguinha debaixo da língua.

Aos dezoito, era difícil comer. A chaga era cada vez mais funda.

Aos dezenove, foi operada.

Aos vinte, morreu.

O médico disse que foi morta por um câncer na boca.

Os avós disseram que foi morta pela verdade.

A bruxa do bairro disse que morreu porque não gritou.”
 

A história é do livro mais recente do Eduardo Galeano, Espelhos – Uma História Quase Universal, que segue o mesmo formato d’O Livro dos Abraços, só que é bem maior. Trezentas e poucas páginas. Por sinal, o Eduardo Galeano esteve em Porto Alegre, na Feira do Livro, na quinta-feira passada (13/11), para lançar o livro.

Essas idades todas de Ana me fazem lembrar do filme Caótica Ana (2006), do cineasta basco Julio Medem. Eu assisti há pouco tempo. Conheci a obra dele por Os Amantes do Círculo Polar, de 1998. É triste e trágico, mas tem toda uma transcedentalidade cheia de simbologias. A protagonista, como em Caótica Ana, também se chama Ana, e seu par, Otto. Palíndromos perfeitos. Depois de “Os Amantes do Círculo Polar”, assisti ao Lúcia e o Sexo. Novamente, o mesmo estilo, mas com uma fragmentação bem maior (pode-se comparar, nessa ótica, a Amores Brutos, do Iñárritu). Outra coisa que me chamou atenção em “Lúcia e o Sexo” é a fotografia, totalmente estourada, exatamente na contramão do cinema publicitário, que preza por imagens mais limpas (considere Ensaio sobre a Cegueira como um exemplo dessa busca pela limpeza visual). Logo no iníco, Medem fala pelas palavras de Lourenzo que Lucia e o Sexo é um conto cheio de vantagens: “a primeira é que quando chega ao fim não acaba, mas cai por um buraco e reaparece na metade do conto. E a segunda e maior vantagem, é que daí se pode mudar o rumo.”

Há quem já tenha falado bem mal: “Ah, porque é experimental demais. Ah, porque parece filme caseiro em algumas cenas. É juvenil demais, uma pretensão frustrada do diretor. O cara tentou fazer um filme de baixo orçamento e acabou em má qualidade“. Olha, eu adorei. E outra: o filme foi indicado a dez prêmios Goya (o Oscar espanhol). Levou três. Proposital ou não, achei que deu certo e que essa paranóia delirante focada em existencialismo, coincidências, encontros e desencontros (com ancestrais, vidas passadas, pessoas ou com a própria alma, seja lá o que for) é poética, e é estilo do diretor desde os seus primeiros filmes. Funciona. 

O trailer de Caótica Ana:

mas este lugar não existe

07/11/2008

eu não sinto um peito cheio. sinto falta de uma lua vazia tentando chamar a atenção. de um tomate mal cortado. de uma saudade com dono. um diálogo entre dedos. de paredes que desaforadamente enchem o espaço em que só cabe tu. sinto falta do incômodo da objetividade. de dormir sem anéis. de acordar com batuques de ursinhos. de encontrar três em um único um. eu sinto falta de ver um guarda-chuva colorido entre tantos outros pretos. ver um entre que é exato. ou um santuário de abraços que nunca tenham fim.

Os motivos da minha inércia

01/11/2008

Venho por meio deste singelo e um pouco preguiçoso post informar aos que por aqui passarem que estou viva, com relativa paciência, com apego fenomenal pelos meus dias de primavera, mas sofrendo de uma enfermidade que me afasta deste espaço. Chama-se, a maldita, Blogging Blues. Quem me alertou sobre ela foi a Sandra.

O que acontece então é que meus dias têm sido bonitos demais fora da internet. Tenho lido como nunca, aproveitado mais a companhia dos meus amigos, conhecido muita música. Tenho me olhado com um distanciamento agradável. Isso significa entender melhor algumas coisas, e simplesmente esquecer ou ignorar outras. Um pouco de tolerância faz bem. Mas principalmente, estou definindo o tema da minha monografia. Isso sim, tem sido trabalhoso. A confusão mental acontece porque eu gosto de temas diversos demais. Por enquanto, as palavras mais cogitadas giram em torno de (e olhem o porquê da minha neura em definir logo essa naba. Algumas coisas simplesmente não têm conexão segura!!): Schopenhauer, Foucault, Freud e Lacan (em linha conseqüente dentro do tema em estudo, inevitavelmente passarei por eles), literatura, loucura… Tá, esse é o surgimento de um dos temas em questão. A outra possibilidade é uma idéia mais antiguinha, tem a ver com a relação entre corpo e tecnologia e… Tá tudo verde demais. Tá tudo amplo demais. Há algumas semanas eu tive um fiozinho de certeza e quase saí pulando, mas logo vi que o que eu tinha definido era insuficiente.

Não vou me alongar muito aqui. Também não desativarei o blog. Nem penso nisso, aliás. Continuarei vindo, organizando algumas coisas, talvez colocando textos menores, respondendo. É só por alguns tempos, talvez dias, talvez semanas. Não sei, entende? Não estou abandonando NADA.

As fotos abaixo, encontrei no Flickr de uma moça chamada Alisa Nel Paese. A indicação estava na revista Soma que a Helena me mostrou. Muito boa, por sinal, e de distribuição gratuita. É uma publicação de São Paulo.

Bonito, né?