As idades de Ana

17/11/2008

“Em seus primeiros anos, Ana Fellini acreditava que seus pais tinham morrido num acidente. Seus avós contaram. Disseram a ela que seus pais vinham buscá-la quando o avião caiu.

Aos onze anos, alguém disse a ela que seus pais tinham morrido lutando contra a ditadura militar argentina. Não perguntou nada, não disse nada. Ela, menina faladora, desde aquele momento falou pouco ou nada.

Aos dezessete anos, era difícil beijar. Tinha uma chaguinha debaixo da língua.

Aos dezoito, era difícil comer. A chaga era cada vez mais funda.

Aos dezenove, foi operada.

Aos vinte, morreu.

O médico disse que foi morta por um câncer na boca.

Os avós disseram que foi morta pela verdade.

A bruxa do bairro disse que morreu porque não gritou.”
 

A história é do livro mais recente do Eduardo Galeano, Espelhos – Uma História Quase Universal, que segue o mesmo formato d’O Livro dos Abraços, só que é bem maior. Trezentas e poucas páginas. Por sinal, o Eduardo Galeano esteve em Porto Alegre, na Feira do Livro, na quinta-feira passada (13/11), para lançar o livro.

Essas idades todas de Ana me fazem lembrar do filme Caótica Ana (2006), do cineasta basco Julio Medem. Eu assisti há pouco tempo. Conheci a obra dele por Os Amantes do Círculo Polar, de 1998. É triste e trágico, mas tem toda uma transcedentalidade cheia de simbologias. A protagonista, como em Caótica Ana, também se chama Ana, e seu par, Otto. Palíndromos perfeitos. Depois de “Os Amantes do Círculo Polar”, assisti ao Lúcia e o Sexo. Novamente, o mesmo estilo, mas com uma fragmentação bem maior (pode-se comparar, nessa ótica, a Amores Brutos, do Iñárritu). Outra coisa que me chamou atenção em “Lúcia e o Sexo” é a fotografia, totalmente estourada, exatamente na contramão do cinema publicitário, que preza por imagens mais limpas (considere Ensaio sobre a Cegueira como um exemplo dessa busca pela limpeza visual). Logo no iníco, Medem fala pelas palavras de Lourenzo que Lucia e o Sexo é um conto cheio de vantagens: “a primeira é que quando chega ao fim não acaba, mas cai por um buraco e reaparece na metade do conto. E a segunda e maior vantagem, é que daí se pode mudar o rumo.”

Há quem já tenha falado bem mal: “Ah, porque é experimental demais. Ah, porque parece filme caseiro em algumas cenas. É juvenil demais, uma pretensão frustrada do diretor. O cara tentou fazer um filme de baixo orçamento e acabou em má qualidade“. Olha, eu adorei. E outra: o filme foi indicado a dez prêmios Goya (o Oscar espanhol). Levou três. Proposital ou não, achei que deu certo e que essa paranóia delirante focada em existencialismo, coincidências, encontros e desencontros (com ancestrais, vidas passadas, pessoas ou com a própria alma, seja lá o que for) é poética, e é estilo do diretor desde os seus primeiros filmes. Funciona. 

O trailer de Caótica Ana:

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5 Respostas to “As idades de Ana”

  1. Edu Says:

    Cara,

    Isto não é um post. É um roteiro. É uma imagem. Começa com o narrador em-off. Cenas da ditadura militar argentina, em p&B ao fundo. General Vidella em sua pose de carrasco.
    Corte.
    Agora o que se vê na tela são imagens de Meden. Ana. Suas Anas. Busca por saídas. Sentimento que sai da tela, sem cabimento.
    O plano final volta para a primeira Ana que finalmente encontra a palavra que lhe foi roubada.
    Agora, só falta filmar:-)
    1 ab
    Edu

  2. natusch Says:

    Fiquei curioso para ver o filme ;)

  3. Taís Says:

    Ei, fiquei curiosa com o filme. Vou ver se acho pra baixar (um pouquinho de pirataria rs).
    Aliás fiquei mais curiosa ainda é em ler o livro. Quem é que não morre um pouquinho a cada grito que gostaria de dar e cala?
    Gostei muito do seu espaço
    Bjos

  4. Edu Says:

    Cara Usineira,

    Linkado eu já estava porque sempre retorno aqui.:-)
    obrigado
    um ab

  5. Sandra Leite Says:

    Cris,

    Que vida louca!

    To com um montão de saudades de você. Obrigada pelas palavras tão nobres que deixou pra mim. Você é um mega amiga $&*#*6!@&5
    Voltei de viagem hoje ( fiquei quase 1 semana off line).
    Coisa muito boa , afinal eu gosto dos cheiros, sons e cores da vida :)

    beijos imensos

    PS: saudades do chá ;)


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