Archive for the 'Literatura' Category

Breve História do Corpo e de Seus Monstros

11/06/2009

Fotografia sem nome, de Cindy Sherman

Fotografia sem nome, de Cindy Sherman

Minha orientadora me emprestou uma série de livros com temas relevantes para o meu TCC.  Um deles chama-se “Breve História do corpo e de seus monstros“, de autoria de Ieda Tucherman. O exemplar da professora foi por ela mesmo definido como “meio desmontado”: está completamente sublinhado, desenhado, MUITO BEM usado. E ainda contém uma dedicatória da autora. Como eu tenho esse mesmo costume de USAR BEM meus livros, preferi encomendar meu exemplar para não estragar o dela. Mas enquanto ele não chega, leio o emprestado mesmo e me aproveito das anotações feitas por outras pessoas. As minhas ficam em post-it. Um trecho:

“Quem somos nós, humanos? Já as novas tecnologias biomédicas, as novas teorias de neurofisiologia cerebral, a profusão de próteses conectáveis ou implantáveis com as quais nos hibridizamos, as clonagens e as experiências que superaram as determinações da espécie e só fazem pôr em questão as mais antigas noções de humanidade e as nossas determinações mais radicais: a saber, mortalidade, singularidade e sexualidade.

Em relação à mortalidade, a nossa finitude constitutiva da experiência da Modernidade, cuja elaboração podemos reconhecer nas questões kantianas a partir da radicalidade do limite como nosso próprio corpo: o que posso conhecer? O que posso desejar? O que posso esperar? Parece estar sob suspeição. Assim como as intervenções protéticas e o processo de duplicação tornam possível o adiamento ou a superação da mortalidade, à condição que o homem perca suas pretensas características de ser natural, portador de singularidades próprias, pois para postular-se como imortal é possível que o homem seja “em seu próprio corpo”, puro artefacto, as questões que nos constituíam tornam-se anacrónicas ou obsoletas. Talvez não estejamos totalmente preparados, mas é sem dúvida preciso conceber as novas questões que se fazem necessárias. Entre elas, talvez a mais significativa seja: o que é ser um corpo? ou O que é ter um corpo? Que possibilidades hoje nos são abertas e que experiências nos são possíveis?

Quanto à singularidade, ela relacionava-se imediatamente com a experiência de finitude, de corpo e modo de ser próprios. E o processo de globalização, que configura o que chamamos de sociedade de controle, parece ter como premissa lógica para o seu funcionamento a nossa des-singularização. Somos agora senhas, que falam do nosso lugar no sistema, que é o que interessa para a operacionalidade do mundo que tem como alma a empresa, como somos conexões no regime da cibercultura. “Eu sou na medida das minhas conexões” parece ser o que hoje define a nossa subjectividade, assim como o nosso corpo.

No que se refere à nossa sexualidade, nós orgulhamo-nos do movimento político que nos permitiu destacá-la da reprodução, a nossa tão festejada revolução sexual que afirmava em nós a liberdade de seres de desejo. Mas não estávamos, parece, preparados para não sermos mais responsáveis pela vida e pela continuidade da espécie. Tudo parece supor que a ordem mundial na sua mais intensa radicalidade não depende mais do homem, condenado então a ‘funções inúteis’.”

Lembrei-me de que um ensaio sobre Leonardo Da Vinci fala sobre a forma e a função do corpo. Fui buscar e achei o trecho (p. 84):

“Embora o engenho humano conceba invenções diversificadas, que correspondem, por meio de várias máquinas, ao mesmo fim, nunca descobrirá invenções mais belas, mais apropriadas ou mais diretas que a natureza, porque no que ela inventa nada há que falte ou que seja supérfluo”

* * *

Enciclopédia dos Monstros, de Gonçalo Junior

Enciclopédia dos Monstros, de Gonçalo Junior

Ainda falando sobre isso, mas não muito,  ganhei recentemente a “Enciclopédia dos Monstros“. Adorei! A capa é meio juvenil demais, é verdade. Preferia uma capa preta, com letras prateadas e só. Acho mais clássico. Mas isso não é um defeito do presente, e sim da publicação. No mais, fotos, muitas fotos, a evolução da idéia de monstro, e as histórias de vida (?) de seres conhecidos na literatura, no cinema, nas HQs, na natureza. Há páginas também sobre os circos e espetáculos itinerantes que entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX atraiam a curiosidade mórbida do público expondo pessoas com deformidades congênitas. Os monstros folclóricos brasileiros também aparecem: Boitatá, Curupira, Saci-pererê. Em alguns há mais de humano do que de monstro. Frankenstein me adoraria por dizer isso, eu sei. Mas sobre isso também posso citar o Edward Mãos-de-Tesoura (categoria bonzinhos), e o ET (categoria Monstros Infantis). Melhor presente!

:)

A origem das espécies

20/02/2009

Li Saturno nos Trópicos, do Moacyr Scliar, há bons anos. Acho que logo que passei no vestibular, ou um pouco antes. Isso quer dizer de deve ter sido lá por 2003 ou final de 2002. Me darei ao trabalho de transcrever vários parágrafos que muito oportunamente reli no início da semana.

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O Combate do Carnaval com a Quaresma, de Pieter Bruegel (1559)

Também a festa era um antídoto para a tristeza do cotidiano. No final do medievo e no começo da modernidade multiplicaram-se as festividades populares, ligadas ou não à Igreja. É a época em que os goliardos, estudantes que se vestiam de maneira característica, com guizos nos chapéus de várias pontas, percorriam a Inglaterra, a França e a Alemanha recitando poemas debochados (que serviriam de inspiração para os Carmina burana de Carl Orff) e apresentando sátiras contra a Igreja. Os goliardos eram apenas uma das “confrarias alegres” (confréries joyeuses) que então surgiram na França e em outros países.

(…)

Essa é também a época em que o Carnaval ganha impulso. Originava-se, como já se disse, da Saturnália dos antigos romanos, ou talvez das Bacanais, festas em geral realizadas no solstício de inverno. Trata-se da noite mais longa do ano no hemisfério norte e, portanto, a mais lúgubre; neutralizá-la com uma festa deve ter parecido, à época, uma boa idéia (mais tarde, a Igreja estabeleceu quase a mesma data para o Natal). A propósito similar obedeciam outras celebrações, como a Festa dos Loucos. Não se tratava, como o nome pode sugerir, de uma celebração da loucura. Era, isso sim, uma válvula de escape – necessária, na medida em que, no Renascimento, as maneiras iam se refinando, impedindo a expressão da agressividade.

Roma e outras cidade italianas , notadamente Veneza, Florença, Milão e Nápoles, transformaram o Carnaval numa grande celebração que ocorria nos últimos dias antes da Quaresma, período destinado à penitência e à meditação. O contraste – na verdade a oposição – entre Carnaval e Quaresma, entre prazer e abstinência, não passava despercebido aos artistas. Em O Combate do Carnaval com a Quaresma (1559), Pieter Bruegel retrata a Quaresma como uma dama seca, magra, triste, usando um vestido cinzento – o retrato da melancolia. Já o Carnaval, obeso, rubicundo, está sentado sobre um enorme tonel de bebida empunhando um espeto com carne assada. A palavra Carnaval, aliás, vem de carne, e de fato, carnes de porco, de vaca, de coelho eram consumidas em grande quantidade. Em muitas cidades alemãs, os açougueiros eram figuras importantes nos desfiles. Em Koenigsberg, em 1583, noventa açougueiros desfilaram carregando uma salsicha de mais de duzentos quilos. Mas “carne” também aludia, claro, à carnalidade, ao sexo; falos gigantescos às vezes apareciam nos desfiles. O que coincidia, como na Saturnália, com uma liberdade geral de costumes, não raro agressiva; mascarados podiam insultar pessoas e criticar autoridades.

(…)

Bakhtin (Mikhail) mostra como esse e outros festejos cumpriam um papel histórico e psicológico importante, subvertendo, ainda que transitoriamente, a cruel ordem social: ao lado do mundo oficial, comportado, surgia um segundo mundo, carnavalesco. A localização da festa no calendário era apropriada, já que, no passado, ele ocorria logo após o ano-novo, marcando assim, diz Bakhtin, o fim do ano velho, dos velhos tempos; como o bifronte deus Janus, que deu origem à palavra janeiro, a festa medieval tinha uma face oficial, religiosa, a mirar o passado, e uma face debochada, olhando o futuro.

Saturno nos Trópicos – A Melancolia Européia Chega ao Brasil
Moacyr Scliar
Editora Companhia das Letras
p. 108 a 110

As idades de Ana

17/11/2008

“Em seus primeiros anos, Ana Fellini acreditava que seus pais tinham morrido num acidente. Seus avós contaram. Disseram a ela que seus pais vinham buscá-la quando o avião caiu.

Aos onze anos, alguém disse a ela que seus pais tinham morrido lutando contra a ditadura militar argentina. Não perguntou nada, não disse nada. Ela, menina faladora, desde aquele momento falou pouco ou nada.

Aos dezessete anos, era difícil beijar. Tinha uma chaguinha debaixo da língua.

Aos dezoito, era difícil comer. A chaga era cada vez mais funda.

Aos dezenove, foi operada.

Aos vinte, morreu.

O médico disse que foi morta por um câncer na boca.

Os avós disseram que foi morta pela verdade.

A bruxa do bairro disse que morreu porque não gritou.”
 

A história é do livro mais recente do Eduardo Galeano, Espelhos – Uma História Quase Universal, que segue o mesmo formato d’O Livro dos Abraços, só que é bem maior. Trezentas e poucas páginas. Por sinal, o Eduardo Galeano esteve em Porto Alegre, na Feira do Livro, na quinta-feira passada (13/11), para lançar o livro.

Essas idades todas de Ana me fazem lembrar do filme Caótica Ana (2006), do cineasta basco Julio Medem. Eu assisti há pouco tempo. Conheci a obra dele por Os Amantes do Círculo Polar, de 1998. É triste e trágico, mas tem toda uma transcedentalidade cheia de simbologias. A protagonista, como em Caótica Ana, também se chama Ana, e seu par, Otto. Palíndromos perfeitos. Depois de “Os Amantes do Círculo Polar”, assisti ao Lúcia e o Sexo. Novamente, o mesmo estilo, mas com uma fragmentação bem maior (pode-se comparar, nessa ótica, a Amores Brutos, do Iñárritu). Outra coisa que me chamou atenção em “Lúcia e o Sexo” é a fotografia, totalmente estourada, exatamente na contramão do cinema publicitário, que preza por imagens mais limpas (considere Ensaio sobre a Cegueira como um exemplo dessa busca pela limpeza visual). Logo no iníco, Medem fala pelas palavras de Lourenzo que Lucia e o Sexo é um conto cheio de vantagens: “a primeira é que quando chega ao fim não acaba, mas cai por um buraco e reaparece na metade do conto. E a segunda e maior vantagem, é que daí se pode mudar o rumo.”

Há quem já tenha falado bem mal: “Ah, porque é experimental demais. Ah, porque parece filme caseiro em algumas cenas. É juvenil demais, uma pretensão frustrada do diretor. O cara tentou fazer um filme de baixo orçamento e acabou em má qualidade“. Olha, eu adorei. E outra: o filme foi indicado a dez prêmios Goya (o Oscar espanhol). Levou três. Proposital ou não, achei que deu certo e que essa paranóia delirante focada em existencialismo, coincidências, encontros e desencontros (com ancestrais, vidas passadas, pessoas ou com a própria alma, seja lá o que for) é poética, e é estilo do diretor desde os seus primeiros filmes. Funciona. 

O trailer de Caótica Ana:

Da boa ironia descritiva, quase criminosa

30/09/2008

“Tropecei, então, com Lady Brandon. ‘Vai deixar-nos tão cedo, Sr. Hallward?’, exclamou. Conhece a sua estranha e estridente voz?

– Sim; é um pavão real em tudo, menos na beleza – disse Lorde Henry (…)”

Trecho de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Estou me vendo aos tombos e post-its. O livro é emprestado e eu não posso sublinhar. Penso em devolver o que comecei a ler e comprar um para mim, só para poder rabiscar. Ainda: personagens de gênio forte e convictos em seus diálogos, extremamente bem caracterizados. 

Outro:

“- Pobre Lady Brandon! Você é severo para com ela, Harry – disse Hallward negligentemente.

– Meu caro amigo, ela quis fundar um salon, e só conseguiu abrir um restaurante. Como poderia eu admirá-la?”

* * *

Terminei de ler Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios. Li rápido, mais da metade no aeroporto de Cuiabá, onde precisei esperar por mais ou menos umas cinco horas antes de embarcar para Porto Alegre novamente. Não foi tão ruim. Há muita coisa para se fazer em um aeroporto, e a vista, embora meio difusa devido à distância, era para a Chapada dos Guimarães. Ainda deu tempo de comprar um licor de Pequi, que já experimentei: a garganta queimou. Adocicado! Maravilhoso!

* A regra é: dois livros por vez. Um de autor estrangeiro; o outro, brasileiro.

A função da arte

12/09/2008

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

Me ajuda a olhar!

Tirei d’O Livro dos Abraços, do Eduardo Galeano. Página 15. É um livrinho pequeno, daqueles que tu nunca vai ler inteiro de uma vez só. Às vezes abro em algumas páginas, aleatoriamente, leio e fecho novamente. Esse é o meu segundo texto favorito dali. O primeiro é este.

* * *

PS. Pela milésima quinta vez, lá vem um dia cinza me ganhar no silêncio. Nada como um guarda-chuva vermelho no meio de tantas sombrinhas pretas. Definitivamente, o mundo não acabou(!). E olhem as cores destes vídeos. Eu fico meio bêbada quando vejo coisas assim. Da Stars. Canadenses, só podia. São muito caprichosos.

O início é meio bizarro, mas o azul (branco? branco.) aparece logo.

Convite

10/09/2008

Eu não sei ler sem lápis entre os dedos. Sublinho, pontuo exclamações e interrogações, circulo palavras desconhecidas e vou atrás do dicionário. Meus livros, todos os que mais me agradaram, serão encontrados sempre num estado rabiscado e bem usado. Por isso gosto de livros velhos, esses de sebos, que até com dedicatória vêm.

Literalmente, esse é um pedaço de mim… Afinal, tu sabe o quanto eu amo livros, né? Por isso quero que este seja teu. Te adoro! Beijos! Mi. Outubro/2006

Mi? O que era teu já não é mais. E aquele (desnaturado? mudou-se. deixou de herança? foi assaltado. emprestou? sem volta.) que um dia recebeu esse pedaço de ti também não carrega mais tal valor. O que tu doou de ti agora é meu. Comprei barato, no sebo da Osvaldo Aranha. Não pretendo dar de presente a ninguém. Gosto do livro e quero tê-lo comigo. Tua dedicatória continua lá, e o livro está intacto, quase novo.

* * *

Juntei todos os livros espalhados pela casa (como se a casa fosse gigante) e organizei na estante preta. Revistas também, cadernos velhos e folhas soltas. Tudo, tudo. Achei um livro que já deveria ter começado a ler, e algumas das páginas tinham anotações tuas, frases que conversavam com as linhas, que formavam diálogos cheios de observações curiosas, até meio indignadas.  Um teor crítico sempre bem sutil e característico. Por falar nisso, também encontrei páginas inteiras com interrogações por todos os lados. Logo tu, que sempre teve teus olhos tão cheios de segurança? Sorri de leve, sem mostrar os dentes, achando engraçado. Guardei de volta na estante.

* * *

A quem passar por aqui, faço um convite: leia este texto do Limão Expresso, escrito pela Prill. Como disse acima, o hábito. Senti vontade de gastar a ponta do lápis. Já que rabiscar desordenadamente não me é permitido, transcrevo abaixo minhas maiores atenções:

“Toda vez que ele dizia umas palavras, parecia que a casa tinha ficado menor; eu queria tanto ouvir as palavras que destruía todos os espaços, todos os móveis, esquecia as cores e não perdia a atenção dos teus ditos.”

“Penso que você trazia dentro dos bolsos, do trabalho, trezentos fantasmas e por causa disso eu nem dormia mais, só dormia quando Augusto Pedro aparecia e me dizia que podia ser.”

“Terminamos, quis levar as coisas, fui lavar na pia, quis ser perfeita nisso, quis Augusto pra chamar de Pedro, esqueci o pano de prato, o exaustor, as cortinas, apaguei desatenções e o garfo rolou pelo detergente até que caiu.”

“Quando eu te conheci frívola…”

Gabriel

06/09/2008

O nome do meu filho vai ser Gabriel. Isso não é um futuro próximo. Isso é “um dia”. Não sei exatamente de onde surgiu essa convicção. São duas, as convicções, aliás. A primeira é a de que eu terei um menino, e não uma menina. Segundo, a escolha do nome foi sendo moldada aos poucos. Acho que minha mãe certa vez, quando eu era pequena, me contou que Gabriel era o nome de um anjo (e essa é a origem do nome do meu irmão mais novo). Gabriel é o arcanjo da esperança, revelador das boas novas, a quem foi confiada a maior de todas as missões: anunciar a chegada de Jesus.  É também o anjo mais representado nas telas de cinema. Criança ainda, eu fiquei impressionada com a história, e com o nome na cabeça. Outras coisas, com o passar dos anos, foram somando-se à sensação boa que o nome sempre me causa. Coisas simples, na verdade, como agradáveis coincidências. E não, NÃO acredito em recados divinos. Vide explicação no parágrafo seguinte. Hoje o que menos importa é se Gabriel era ou não um anjo. É a beleza do nome que me prende a atenção. Milhares de boas impressões que eu não sei descrever surgem na minha cabeça quando alguém diz que se chama Gabriel. Estranho é eu pensar que já escolhi o nome do filho que não vai ser só meu. Espero que o futuro pai da criança concorde com a idéia. Pra mostrar como todo Gabriel é cativante, ó, meu irmão, a váááaaaarios anos atrás. I-MUN-DO, brincando. Ele continua  gatinho assim, só que UM POUQUINHO maior:

Não sigo nenhuma religião, e talvez minha mãe fique chateada ao ler isso. Talvez por não ter uma crença profunda no Deus que teoricamente é o pai da humanidade, senti falta de algo em que acreditar quando o Bruno, meu amigo, morreu. Me senti vazia, com pensamentos vagos e senti a morte e a vida dispersas em todo canto, no ar. Há séculos não entro em uma igreja sem ser por mero interesse pelo seu valor arquitetônico e/ou pela arte contida nas imagens, nas paredes, em todos os cantos. A mesma coisa com a Bíblia. Não a vejo como um instrumento de guia para valores e condutas, e sim como uma obra histórica e documental. Não consigo crer que ali estão todas as grandes verdades. A Bíblia entrou para a minha lista de leituras obrigatórias, que por sinal, só aumenta, pela sua riqueza literária (poesia, profecia, anjos, pestes, demônios e alguma ironia), histórica e geográfica. É preciso considerar, sem a pretensão de reduzir o valor ou igualar a qualquer outra obra, que a Bíblia é UM LIVRO; o mais amplamente lido e distribuído de todos os tempos, e também o mais censurado, queimado e perseguido. Transcende diferenças culturais e temporais. Acho que me expliquei em relação a isso

O Rodrigo, já tão citado por aqui, sem saber sobre essa minha afeição por Gabriel, o nome, outro dia me mandou procurar Gabriel, a música, da Lamb, uma banda britânica (um duo, na verdade). Aliás, até esse post ir para o ar, acho que pouquíssima gente sabia que o meu filho, que sequer foi gerado ainda, enfim, assim um dia se chamará. Não é um grande segredo. Continuando, o Rodrigo sempre acerta! Adorei. O último álbum da Lamb, What Sound, foi lançado em 2005 e depois disso a dupla se desfez. Quem gosta de Lamb, provavelmente também gostará de Antony and The Johnsons e St. Vincent. Hmmm. Lembra também um pouco de Portishead e Massive Attack. De St. Vincent, sugiro que comecem a ouvir pelas músicas Marry Me ou We Put A Pearl In The Ground. Your Lips Are Red também é bonita. A St. Vincent só lançou um álbum até agora (Marry Me).

O vídeo de Gabriel:

Outra, enquanto eu escrevia aqui, o Flávio me mandou o link desta página, que foi por onde ele conheceu Lamb. Ali são disponibilizados materiais sobre cinema, música, literatura, aquitetura… Bem legal :)

* Existe uma trilogia chamada The Prophecy, de Gregory Widen (no Brasil, Os Anjos Rebeldes I, II e III). Os três filmes têm como protagonista o Christopher Walken (ele já protagonizou também Na Hora da Zona Morta, do Cronenberg), e o Viggo Mortensen, que volta e meia atua em filmes do Cronenberg também, fez o primeiro da seqüência. A história é uma fantasia, terror propriamente dito, em que a “fábula” bíblica sobre a guerra dos anjos, em que Lucifer, o anjo caído, e Gabriel, o anjo a quem foi aplicada a autoridade para vencer Lucifer, lutam entre si. O filme, porém mostra Gabriel como um ser cruel, diferente das passagens originais. Gabriel como anjo caído foi uma criação de roteiro para o filme, FICÇÃO não baseada na Bíblia. Mas sobre essa história da revolta dos anjos eu falo mais depois. Acho bem legal, por sinal. Ahh,  sim, sim,  mais uma coisa pra acabar o post sem anjos renegados. Tem também o filme do Wim Wenders, Asas do Desejo, que se passa em Berlim, no pós-guerra, com o Bruno Ganz (Pão e Tulipas, Nosferatu – O Vampiro da Noite…) e o Otto Sander, (Far Away, So Close, também do Wim Wenders e com a mesma temática de Asas do Desejo, O Einstein do Sexo, etc). O argumento do filme é do escritor e dramaturgo austríaco Peter Handke, de quem cito abaixo um trecho do poema Song of Childhood:

“When the child was a child,
It was the time for these questions:
Why am I me, and why not you?
Why am I here, and why not there?
When did time begin, and where does space end?
Is life under the sun not just a dream?
Is what I see and hear and smell
not just an illusion of a world before the world?
Given the facts of evil and people.
does evil really exist?
How can it be that I, who I am,
didn’t exist before I came to be,
and that, someday, I, who I am,
will no longer be who I am?”

Goethe manda lembranças

18/08/2008

O Romanoff avisa que abasteceu o Flickr com novas fotos de Frankfurt (crédito das  imagens acima devidamente reconhecido), mas ainda não me disse como são as cucas alemãs.

* * *

Sempre achei tão bonito o nome do movimento do qual Goethe, nascido em Frankfurt, fez parte, lá no início do romantismo literário alemão: Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto, em português). Diz-se que o romantismo nasceu na alemanha, com Os Sofrimentos do Jovem Werther, mas a história é controversa. Dizem também que nasceu na Inglaterra, com William Blake. Não me importo muito em argumentar a favor de um ou contra outro, na verdade. Eu bebo na fonte do ultra-romantismo byroniano, que influenciou toda a segunda geração romântica brasileira. Spleen,  ambientes sombrios, platonismo no amor, o mal do século, o dualismo (atração e medo, desejo e remorso)… O mito (é um mito ou é fato?) de que Álvares de Azevedo morreu virgem faz parte dessa idealização da mulher e das relações, tão presente na obra do escritor. “Foi poeta, sonhou e amou na vida”, quem não conhece? Tão lúdico e sublime, e tão IRREAL, tendo partido da poesia de alguém que não conheceu o amor inteiramente. Isso só é possível na literatura, amor assim como o dele, só de espera, sem ânsia, sem pele. Lord Byron, o britânico que o inspirou, foi descrito como “louco, mau e perigoso para se conhecer” por Lady Caroline Lamb, APÓS o término do tempestuoso caso que a aristocrata tivera com o poeta.

Lord Byron era “Don Juan”, libertino, apesar de ser coxo, e ao contrário de Álvares de Azevedo, desfrutou de todos os melhores pecados da carne, teve inúmeras amantes, foi admirado e fazia parte do imaginário das mulheres por sua literatura excêntrica. Sua imagem pública era declaradamente copiada dos vilões góticos; o arquétipo do “homem fatal” (soa-me brega e vulgar, essa expressão, mas é a que melhor define o que pretendo explicar). Talvez o escritor encontrasse sua felicidade (volúpia, digo) exatamente no crime, no que não lhe era permitido pelas leis sociais. Não vejo motivo para não salientar também que geralmente os heróis românticos e de energia desafiadora, tal como Byron, são irresistíveis para suas “vítimas”. Algo vampiresco no ar? Literariamente é permitido; em sonhos, também (um testemunho! uma confissão! déjà vu). Entre as extravagâncias do escritor, alega-se ainda que tenha tido um caso com a própria irmã, Augusta, do qual a moça saiu grávida.

Eu pararia de descrevê-lo por aqui, mas acho importante também dizer que o QI estimado  de Lord Byron era de 180; o normal oscila entre 90 e 105, por aí. Ainda, ele foi um dos primeiros escritores a descrever os efeitos da maconha. Sobre esta, não é novidade que era/é muito usada por escritores de contos fantásticos, e não somente. Na época de Poe a moda era ópio. Éter também, acho. O Horacio Quiroga tem um conto chamado O Inferno Artificial, em contraposição a Baudelaire e seus paraísos, em que descreve os efeitos do éter. Quiroga usou muito essa droga na tentativa (?) de amenizar (há sempre um pretexto, um “onde tudo começou”) as agonias de sua biografia, que será tema de outro post, portanto não falarei sobre isso agora. Apenas para bom entendimento, digo que a vida do escritor teve uma seqüência de tragédias em família.

Voltando ao título deste texto, um trecho de Goethe – e não o trecho final, que eu acho triste demais para encerrar um post. Prefiro este, com uma idéia mais VIVA do amor:

(…) Guilherme, o que é o mundo para o nosso coração sem amor? O mesmo que uma lanterna mágica sem luz! Mal colocas dentro dela a lamparina e já se projetam imagens das mais coloridas na parede branca! E mesmo que todas não sejam mais do que efêmeros fantasmas, elas nos fazem feliz enquanto permanecemos ali, acordados, e como criança nos extasiamos com suas aparições maravilhosas. Hoje não pude ir ver Carlota, uma visita inesperada me segurou em casa. Que havia a fazer? Mandei o meu criado ao encontro dela, só para ter junto de mim alguém que tivesse estado em sua presença. Com que impaciência o esperei, com que alegria tornei a vê-lo! Não tivesse vergonha e teria me atirado ao seu pescoço e coberto seu rosto de beijos.

Falam que a pedra de Bolonha, quando exposta ao sol, absorve seus raios e reluz por algum tempo durante a noite. Dava-se o mesmo comigo e aquele rapaz. A lembrança de que os olhos de Carlota haviam pousado em seu rosto, em suas faces, nos botões de sua casaca e na gola de seu sobretudo, tornava-o tão querido, tão sagrado para mim! Naquele momento não daria aquele rapaz nem por mil táleres! Me sentia tão bem em sua presença. Deus te livre de rir disso, Guilherme! Serão sempre fantasmas os responsáveis por nos sentirmos bem?

(Os Sofrimentos do Jovem Werther)