Archive for the 'Usina Poética' Category

Sem especulações

13/11/2007

“(…) Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas. (…)”

Foi assim. O Alberto Caeiro, seguro e manso, contradisse o Fernando Pessoa. Perdido na sua multiplicidade, oblíquo, porque não eram a mesma pessoa, o nascido Pessoa mistificava também o discurso. O Fernando dizia que nada era transparente. “Não procures, nem creias: tudo é oculto”. O Alberto chegava quebrando tudo e afirmava a objetividade. Não tem nada de oculto nisso. É só viver e pronto.

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Sobre a morte e a vida

11/09/2007

Quando acontecer, penso que vou me desfazer em metáforas. Desmontar complexidades, equilibrar o oxigênio, evaporar lentamente. Vou virar pequeninas partículas. Invisíveis, mas de beleza incomum. Bolinhas transparentes. Vou me juntar a outras pares, fazer brotar um sorriso de canto, balançar os bigodes dos gatos e os cabelos compridos das meninas. Entrarei pelo nariz das pessoas, deixando que me respirem, respirando-as… chegando lá no fundo, lá dentro no canto do peito e fazendo a vida funcionar novamente.

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03/09/2007

“O quereres e o estares sempre a fim
do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal,
bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo
querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer
que há e do que não há em mim”
O Quereres, Caetano Veloso

21/08/2007

Cada linha
cedida perdida
achada
(des)manchada
falava no escuro
insinuava idéias
rascunhos
injúrias
pormenores
maiores que fossem
se expandia
crescia por dentro
tomava conta
raptava dias noites
passos precisos
cortava a ordem
destruía espaços
forçava o relógio
virava os ponteiros
na vigésima quinta hora
acordava.

04/08/2007

Se não faz diferença não me serve
Então vou procurando algo que me conteste
Que faça sorrir, chorar e desejar
Porque eu já me cansei de dias mesmos
Quero algo que pare no tempo

A essência

01/08/2007

nostalgia
agressividade
ao vento, ao vento
cortou tudo em letras
tremidas na pele pálida
escreveu com a própria cor
líquida, viva e gritante
escorreu, deixou pingar
ao fim, nada sobrou.
ao vento, ao vento
nada sobrou.

nada violento, pode acreditar. nada mesmo
é sentimento no estado mais intenso e tolerante
é como se eu aspirasse um perfume e lá no fundo,
bem no fundo, eu sentisse o fio do aroma que restou
o que ficou na peneira depois de ser filtrado, limítrofe
ao vento, ao vento, alguma coisa se deixou levar

Do que um dia já foi

01/08/2007

E quando o circo for embora, o que vai ser da gente?

Sobre elas

29/07/2007

Não é que as pessoas sejam contraditórias
nem tristes, nem solúveis em segundos
É que cada uma carrega tantos pedacinhos
e cada pedacinho se fragmenta em tantos outros pedacinhos
que é impossível colar as superfícies uma na outra
e pintar tudo de uma cor só