A origem das espécies

20/02/2009

Li Saturno nos Trópicos, do Moacyr Scliar, há bons anos. Acho que logo que passei no vestibular, ou um pouco antes. Isso quer dizer de deve ter sido lá por 2003 ou final de 2002. Me darei ao trabalho de transcrever vários parágrafos que muito oportunamente reli no início da semana.

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O Combate do Carnaval com a Quaresma, de Pieter Bruegel (1559)

Também a festa era um antídoto para a tristeza do cotidiano. No final do medievo e no começo da modernidade multiplicaram-se as festividades populares, ligadas ou não à Igreja. É a época em que os goliardos, estudantes que se vestiam de maneira característica, com guizos nos chapéus de várias pontas, percorriam a Inglaterra, a França e a Alemanha recitando poemas debochados (que serviriam de inspiração para os Carmina burana de Carl Orff) e apresentando sátiras contra a Igreja. Os goliardos eram apenas uma das “confrarias alegres” (confréries joyeuses) que então surgiram na França e em outros países.

(…)

Essa é também a época em que o Carnaval ganha impulso. Originava-se, como já se disse, da Saturnália dos antigos romanos, ou talvez das Bacanais, festas em geral realizadas no solstício de inverno. Trata-se da noite mais longa do ano no hemisfério norte e, portanto, a mais lúgubre; neutralizá-la com uma festa deve ter parecido, à época, uma boa idéia (mais tarde, a Igreja estabeleceu quase a mesma data para o Natal). A propósito similar obedeciam outras celebrações, como a Festa dos Loucos. Não se tratava, como o nome pode sugerir, de uma celebração da loucura. Era, isso sim, uma válvula de escape – necessária, na medida em que, no Renascimento, as maneiras iam se refinando, impedindo a expressão da agressividade.

Roma e outras cidade italianas , notadamente Veneza, Florença, Milão e Nápoles, transformaram o Carnaval numa grande celebração que ocorria nos últimos dias antes da Quaresma, período destinado à penitência e à meditação. O contraste – na verdade a oposição – entre Carnaval e Quaresma, entre prazer e abstinência, não passava despercebido aos artistas. Em O Combate do Carnaval com a Quaresma (1559), Pieter Bruegel retrata a Quaresma como uma dama seca, magra, triste, usando um vestido cinzento – o retrato da melancolia. Já o Carnaval, obeso, rubicundo, está sentado sobre um enorme tonel de bebida empunhando um espeto com carne assada. A palavra Carnaval, aliás, vem de carne, e de fato, carnes de porco, de vaca, de coelho eram consumidas em grande quantidade. Em muitas cidades alemãs, os açougueiros eram figuras importantes nos desfiles. Em Koenigsberg, em 1583, noventa açougueiros desfilaram carregando uma salsicha de mais de duzentos quilos. Mas “carne” também aludia, claro, à carnalidade, ao sexo; falos gigantescos às vezes apareciam nos desfiles. O que coincidia, como na Saturnália, com uma liberdade geral de costumes, não raro agressiva; mascarados podiam insultar pessoas e criticar autoridades.

(…)

Bakhtin (Mikhail) mostra como esse e outros festejos cumpriam um papel histórico e psicológico importante, subvertendo, ainda que transitoriamente, a cruel ordem social: ao lado do mundo oficial, comportado, surgia um segundo mundo, carnavalesco. A localização da festa no calendário era apropriada, já que, no passado, ele ocorria logo após o ano-novo, marcando assim, diz Bakhtin, o fim do ano velho, dos velhos tempos; como o bifronte deus Janus, que deu origem à palavra janeiro, a festa medieval tinha uma face oficial, religiosa, a mirar o passado, e uma face debochada, olhando o futuro.

Saturno nos Trópicos – A Melancolia Européia Chega ao Brasil
Moacyr Scliar
Editora Companhia das Letras
p. 108 a 110

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4 Respostas to “A origem das espécies”

  1. vitinhocarvalho Says:

    Excelente seu post, adorei as informações (pra mim) novas
    Parabéns.

  2. Filipe Says:

    Ola Cris… prazer, Filipe. Bom, estive pesquisando sobre o carnaval lá na fortaleza de Santa Teresa que, por acaso, também estive lá. Aliás, com o mesmo intuito que você. Ledo engano nosso, sobre o poético “descanso longe da civilização, sem o usual carnaval brasileiro”… não chegou a bater o arrependimento de ter ido, mas o que vi lá foram cenas de selvageria. Animais soltos… afinal ser humano nenhum poderia conseguir entender alguém viver 24hs por dia ouvindo “Xoxó…”, “Pega…”… músicas (posso utilizar esse termo para um barulho “ritmado” sem poesia alguma?) que nem valem a pena serem descritas. Não sei quanto a você, mas adorei o forte (já havia estado lá anteriormente) como sempre, a segunda-feira de sol na beira da praia ouvindo um Jota Quest (música!!! Tá bom, nem tanto assim, mas na situação que eu estava, era o melhor que poderia ocorrer) e a civilidade do povo uruguaio (com poucas, raras eu diria, exceções). Será que nossa espécime caminha nesta direção, da futilidade e absurda ausência cultural? (ou alguém defende tais atitudes, músicas, etc, etc, etc?!?!?)

  3. Cris Says:

    Oi, Filipe. Tudo bom?
    Olha, até não me estressei tanto lá. Adorei o lugar, até porque nosso acampamento ficou um pouco longe da loucura toda e do movimento. Estávamos logo na entrada, perto dos guardas. O Forte, adorei. As praias, maravilhosas. Achei que o camping é que precisa melhorar a estrutura para recepcionar melhor as pessoas. Na real sabíamos que seria meio ROOTS, a viagem, mas estávamos curtindo a idéia.Realmente, os brasileiros mais festeiros queimaram nosso filme por lá! Dos uruguaios, só percebi uma ótima educação. Simpatia mesmo.

    Concordo que existe muita, mas muita música lixo sendo feita (e quase tudo que ouvi nos carros que passavam com som no último volume lá foi isso), mas acho que cada um tem direito de ouvir o que prefere. Lamento ir para um lugar e ouvir funk bagaceiro. Bah, totalmente. Mas… respeito à individualidade ainda tá valendo. Nós nos afastamos da bagunça e curtimos bastante.

    Tu pegou a chuva forte do domingo? Nosso acampamento sobreviveu bravamente. Hehehe. Segunda-feira linda no Forte e terça, nas praias.

    Na próxima vez, tentaremos alugar aqueles chalés.

    :)
    Bj!

  4. Cris Says:

    Vitinho, obrigada pela visita = )
    Seja sempre bem-vindo.


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