Archive for the 'Contos' Category

04/07/2007

Só percebeu por causa do tédio. O homem começou a coçar as costas de leve. Nada além de algo que irrita e faz a mão voltar para repetir o movimento minutos depois. E mais. E mais. E quando a inquietação piorou resolveu-se por um banho gelado, afinal, aquelas tardes quentes faziam sua epiderme ficar toda embolotada. Coisa de gente que nunca pegou sol. Tem pele fina e sensível. Qualquer inseto que encosta a pata provoca um arranhão. Passava a esponja macia pelas costas e deixava a água escorrer. trêsminutos, cincominutos, seteminutos, quinzeminutos. Olha a água, olha o futuro, olha a falta de água. A consciência gritava. Nem mais banho podia tomar sossegado. Experimentou os pingos que ainda caíam do chuveiro após fechar o registro e, já suando, puxou a toalha. trêsminutos e a irritação voltou. Trabalho em meiahora, café em doisminutos, relógio, coceira, quinzeminutos para chegar, coceira, vinteminutos de almoço. Coceira, COCEIRA. Pele arranhada, pele nas unhas. Quando por fim, não pôde mais aguentar, retorceu-se espiando por cima do próprio ombro. Tudo o que pôde enxergar em meio a pele em vergões foram símbolos estranhos. Caminhou até o banheiro e, em frente ao espelho veio a surpresa. Em garranchos finos e tortos, estava escrito em suas costas: ME DEIXA SAIR DAQUI.

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Como álcool

28/06/2007

O bêbado passou errante em frente ao portão do prédio. Gritava com raiva. Tremia, cuspia: Maria, tu me paga sua cachorra. Tttu me paga! Não merece um pingo do que eu ssssinto. Cachorra. E trocava as pernas com desconsolo, coçando a cabeça, os cabelos desgrenhados: Te odeio, eu tenho óóóóóoodio de ti. Não quero te ver nunca mais. Não chora Maria, não chora, porque eu te odeio. Eu te explico, tu quer que eu te explique eu te explico, soooome gringa desgraçada. O cambaleante olhava para o chão: Maria levanta, não precisa ajoelhar, não adianta. te manda daqui! A vizinhança olhava meio risonha para o bebum. O cara não dura mais muito desse jeito, olha a sujeira, olha o estado do homem. Maria vai-te embora de casa, arruma tuas trouxas e te manda sua vadia. Não te quero nunca mais. Nunca te quis. Some daqui. Tu não vale o que come, desgraçada. Pára, balbucia umas poucas palavras sem volume, olha para o nada. O miserável então se embriaga mais um pouco e joga a garrafa longe. Arregala os olhos vermelhos e os esfrega com os dedos nojentos. Balança o corpo ébrio por alguns instantes e segue o rumo dobrando a esquina. De longe ainda consigo ouvir os gritos desorientados. Maria, maria. Larga minha mão, não te quero mais. Ttttu não merece um pingo do que eu sinto, mas eu também não te mereço. Te manda, sua vadia. É tua chance, te manda, que se tu aparecer, não te largo nunca mais.

Dupla

06/06/2007

Disse-me que ainda existia outra igual, e eu ri. Existe?

Contou que não a conhecia, mas sabia que ela existia e que andava por aí enganando quem se confundia com a fisionomia gêmea das duas. Disse que também sentiam igual, e que um dia ela havia acordado com uma ânsia de choro, sem ter motivo para isso. Mas chorou, sabendo que talvez fosse a vontade da outra. Ao escrever, pensava que talvez tudo já estivesse escrito e sabia sempre o final das histórias. Quando se apaixonou, sentiu um inexplicável ciúme.

Mas em uma manhã, ao sair apressada de casa, desviou instintivamente de uma lajota solta que sempre acumulava água embaixo. Alguns dias antes, a outra se molhou.

Eu? (meio e fim)

02/12/2006

Ok. Vamos lá. Entrem, tirem os tênis e fiquem à vontade… Essa história precisa de um fim. Da última vez em que eu escrevi nesse espaço havia uma criaturinha minúscula deitada no meu colchão, e presa nas minhas unhas. A miniatura. Ela continua lá…

* * *

Quando encostei minha mão do colchão, pude ver que a miniatura, fraca, já, deixou o corpo amolecer. Sentiu o tecido do lençol massagear as costas levemente e deu-se uns minutos, talvez de dor, talvez de NEUTRALIDADE, não sei. Mas por alguns minutos, ela parecia morta.

* * *

Morta de olhos abertos e respiração vagarosa e um olhar fixo me encava sem expressão e nada no pensamento e um silêncio no quarto e aquela coisa de ficar sem graça porque alguém te encara e tu não sabe o que fazer se olha pro lado se olha nos olhos se dá uma risada porque não era hora de dar risada afinal ali alguém devia sentir dor e isso me deixava encabulada e ao mesmo tempo me igualava à miniatura ela devia ter HUMANIDADE e sentimento que sente na PELE e nas sobrancelhas e no riso que vem no cantinho da boca mas ela não ria ficava muda e me envergonhava por conseguir me encarar e eu não conseguir manter uma linha pontilhada por onde minha visão caminhasse até a dela

* * *

Comecei a empurrar de leve aquele corpinho que estava soterrado nas minhas unhas. E ele mal se movia, sabe? Dor, não sei se sentia, mas fechou os olhos e tentou ajudar. Aos poucos, e não sem pena, fui puxando pela cinturinha e, de tempos em tempos, dava uma parada pra não ser uma coisa tão BRUSCA e traumatizante. Fui descobrindo a delicadeza nos meus próprios gestos. “Vamos lá, de novo, só mais um pouquinho e tu vai estar livre de tudo isso. Faz um esforço e me ajuda a te ajudar.”

O último puxão foi mais severo, e acompanhado de um som abafado, de alguém que segura o grito, e que guarda a sensação de dor pra começar a aproveitar a liberdade novamente. Pronto. Agora EU era UMA, e ELA era OUTRA novamente. E nossas mãos não se tocavam mais.

A miniatura ficou ali, deitadinha por um tempo ainda na minha cama. Uma pontinha de sangue manchou o lençol e vi que alguém precisava de um curativo. Recortei em mil pedacinhos um esparadrapo, e o ALGODÃO nem sentiu a falta dos fios que foram removidos do rolo. Eis um curativo, que, embora envolvesse uma margem muito maior do que o local machucado, ajudou (gosto de pensar que). Novamente minha displicência, involuntária, quem sabe, em cuidar de algo tão pequeno.

* * *

Na verdade era a primeira vez que eu realmente via essa minha falta de tato como um defeito. Nunca fui de ter muitos cuidados com as pessoas. Sempre vivi só, e de mim nunca ninguém precisou cuidar muito. Era simples, sabe, viver. Era o que eu achava. Que isso de tocar, e sentir, passava despercebido. Eu era uma pessoa crua mesmo, que SENTIA quando sentia calor, que SENTIA quando sentia cócega, que SENTIA quando sentia o gelo derreter na mão, ou quando a gaveta caía sobre o dedão do pé. Era isso que eu sentia. Mas nunca senti um beijo de leve na testa ou um dedo que passeia sem rumo pelo braço, quase sem ser notado. Chego à conclusão de que talvez eu nunca tenha parado pra pensar nessas coisas. Comodismo, talvez. Mas todo esse processo de salvar uma criatura tão pequena revirou na minha cabeça tantos conceitos. Inclusive o de ter cuidado com alguém além de mim.

* * *

A miniatura, depois de um dia tão agitado, pegou no sono. Deixei que dormisse, mas não me afastei do quarto. E se fugisse? E se caísse? E se MORRESSE? Fiquei observando por um tempo aquela vidinha esparramada na minha cama. Quando acordou, algumas GOTAS de leite foram o suficiente, e eu nem precisei comprar mais pão. E ela até umas palavrinhas soltou. Descobri que falava, e como adulta. E como adulta me agradeceu por ter sido gentil e ter tido cuidado. Ora, vejam só. Fiquei feliz.

Naquele dia não perguntei nada sobre a origem da miniatura, nem como ela havia parado ali. Se nasceu de mim, não sei. Por onde anda a família… Parece brincadeira, contando. Mas e se tivesse família? Não perguntei. Fui EGOÍSTA e resolvi desfrutar daquela companhia tão frágil e que me fazia sentir um pouco de poder, por ter alguém dependente de mim.

E assim foram os dias seguintes também. Com o tempo, fui me acostumando a acordar de manhã e olhar para o lado da minha cama. Ali eu havia montado uma casa, dessas de BONECAS, para a miniatura. Era ali que ela passava os seus dias de tédio, e geralmente no canto do corredor, entre a sala e o quarto da casinha, eu a encontrava sentada, a ler qualquer coisa, quando eu voltava do trabalho. Foi-se construindo uma relação de amizade, mas dessas de se olhar de longe, sem toques nem muitos abraços. Eu nunca me curaria dessa minha falta de sentidos, sei. Mas gostava da companhia daquele ser. Que talvez fosse eu.

Estranho eu nunca ter procurado uma explicação pra isso. Mas da mesma forma cômoda como aquele ser nunca me perguntou muito sobre a minha vida, eu também mantive uma curiosa distância. Éramos EU, e EU. EU grande, e EU pequena. EU dominante, e EU dominada.

Mas ela não me atrapalhava, e eu podia sentir que a casa não estava mais sozinha. Eu não era mais sozinha. Um dia cheguei em casa com um vaso de plantas e coloquei na janela. A casa precisava de verde, de COR, entende? A casa precisava respirar um pouco mais. E também não demorou muito pra que eu percebesse o bem que tudo aquilo estava me fazendo. O surpreendente havia feito meus dias menos INERTES.

Numa manhã acordei, olhei para a casa ali no chão, e as janelinhas estavam fechadas ainda, como de costume. Eu sempre acordava primeiro. Um PÉ depois do outro, levantei da minha cama. O trabalho me esperava. E no fim do dia, quando cheguei, percebi que as janelinhas continuavam fechadas, mas que na porta, tão pequena, havia um bilhete…

A AUSÊNCIA também é um sentido?

Eu? (início…)

13/11/2006

Foi com uma coceirinha na planta do meu pé que tudo começou. Assim, sem sentido mesmo, como todo o desenrolar da história.Era uma cocegazinha corriqueira e banal. Deveria ser, pelo menos. Cocei. E nesse exato momento senti algo pequeno, talvez fino, mas frágil, ficar enroscado nas minhas unhas. Não só em uma, em duas. Um pedacinho da coisa estava preso debaixo da unha do dedo médio, e o restante dela, na unha do dedo vizinho. Trouxe a mão pra frente dos meus olhos, e tudo virou do avesso. Um arrepio subiu pela espinha e terminou nos pêlos do meu corpo. Era um serzinho. Não UM. Era EU, o serzinho. Uma criaturinha minúscula, e tinha cabelos! E pele, e orelhas, e dedinhos também. E o pior de tudo. Era exatamente igual a mim. Mas menor do que os meus dedos.Era sonho… Certo que era sonho.
Não podia ser de verdade.

 

 

Não, não era sonho…
E eu nem tinha fumado nada, nem tinha tomado nada,
Eu nem tinha dormido!

 

 

A criaturinha, EU, sei lá quem, ficou ali, com os dedinhos presos debaixo das minhas unhas. Mania a minha de deixar as unhas compridas. Ela ficava ali, me olhando em súplicas. Era dor. Devia ser. Como eu ia saber?? Nunca tinha visto aquilo! Ela podia falar algo, mas não falava. Só ficava ali, se debatendo. Parecia uma formiga. Eu, pelo menos, falava. Se era minha cópia, deveria falar algo. Não sei de onde saiu, mas parecia ter nascido adulta já.

* * *

Eu era adulta, e a criaturinha também era… Isso me levava diretamente a outro pensamento. Se eu tenho mãe, a criaturinha deveria ter mãe também, e se eu tenho pai, a criaturinha também deveria ter, e eles certamente eram coisinhas pequenas assim, que nem ela. Quanto problema. Já imaginei um mundo cheio de criaturinhas, um micromundo, uma sociedade paralela de miniaturas móveis. Ia ser uma catástrofe, porque sendo menores, provavelmente as criaturinhas seriam dominadas por nós, seres humanos, originalmente humanos.Tá. Chega. Por enquanto só vi um desses bichinhos. Então vamos pensar no singular e não no plural. Bem mais sensato pra chegar a alguma conclusão. Se é que ela existe…

* * *

A primeira coisa a fazer: livrar a coisinha das minhas unhas. Ela soltava gemidinhos agudos. Talvez estivesse chorando. Senti pena. Eu não gostava que sentissem pena de mim. Resolvi soltá-la logo. Mas era tão frágil. Eu nunca tive tato pra lidar com essas coisas que se quebram facilmente, ou que rasgam só com uma puxadinha. Encostei a mão em que a miniatura – vou chamá-la assim, daqui pra frente, depois arrumo um nome pra ela. O meu é que não vai ser. Encostei a mão em que a miniatura estava presa no meu colchão, e deixei que ela se encostasse nele também, pra ficar mais calma. Agora vinha a parte mais complicada…

(Eu volto logo, logo, para contar o resto)

Deitou e ficou ali, quietinho, enrolado no coberto…

05/11/2006

Deitou e ficou ali, quietinho, enrolado no cobertor xadrez. Tentou fechar os olhos, mas achou melhor deixá-los abertos, para ver o momento em que ELES chegassem. Mexia as sobrancelhas, impaciente, tentando de alguma forma acomodá-las. Sempre pensou que sobrancelhas eram coisas sem utilidade nenhuma. Não tinham FUNÇÃO, nem protegiam contra nada. Estavam apenas ali, acima dos olhos, esses sim, essenciais. Mas SOBRANCELHAS? Para ele não fazia diferença tê-las ou não. Era apenas mais um peso que os olhos carregavam. Tinha o rosto inerte mesmo, sem expressão, sem grandes surpresas.Os dedinhos tateavam a borda do cobertor, como se tentassem identificar alguma IMPERFEIÇÃO, algum fio solto, algo em que pudesse prender a atenção. Mas nada. A ansiedade tomava conta dos ouvidos e das idéias. Começou a roçar os pés um no outro, fazendo um SUTIL barulho de pele ÁSPERA e granulosa. Logo parou. Preferia o silêncio do quarto, com todos os seus microbarulhos. A madeira estalando. O vento criando vozes tristes e batendo na janela. O cupim gulosamente corroendo os móveis. E o silêncio.

Resolveu mudar de posição. Deitou-se de lado, com o olhar diretamente para a porta. Não agüentava mais esperar que ELES dessem algum sinal de vida. Não gostava de dormir sozinho. Encolheu as pernas, juntando os joelhos e abraçou o travesseiro. Fechou os olhos por um segundo, voltando a abrí-los logo em seguida. Definitivamente, queria vê-los quando chegassem. Sentir a forma, descobrir se tinham CHEIRO, se viriam vestidos ou despidos de pudores e CORES. Se ainda lembravam do passado. Desejava que não. Talvez lhe trouxessem chocolate. Não sentia o GOSTO doce disso há tanto tempo. Queria saber se tinham idade e tempo de vida delimitado também, porque sempre ouvia as pessoas dizerem que eles não duravam muito.

De repente, viu a porta abrir levemente. Não tinha certeza. Devia ser a ansiedade. Achou que estivesse vendo coisas. Talvez tenha deixado alguma janela aberta, e o vento esteja empurrando a porta. Não sabia se continuava olhando, se fechava os olhos. Na DÚVIDA, não os fechou. Queria ver! As PUPILAS dilatavam-se na escuridão do quarto, tentando identificar algo.

Ficou calmo e respirou fundo. Agora tinha CERTEZA. Eles estavam por perto. A porta abriu-se levemente, sem fazer ruído, formando uma pequena fenda por onde um rato poderia passar com sobra de ESPAÇO. Não precisavam de mais do que isso. Não via nada, embora olhasse fixamente para a porta. Forçava a visão, mas de nada adiantava. Só que podia sentir a presença deles. Sabia que estavam ali. Sentiu o corpo AMOLECER, aos poucos. E os músculos tornarem-se menos RÍGIDOS e sem força. Enfim, entregou-se. Fechou os olhos, e deixou que tomassem conta do resto. Efêmeros, assim como as pessoas diziam, e sem fazer grandes escândalos, os sonhos finalmente chegaram.

Resgate

15/09/2006

Su Ribeiro

Tenho carinho por este texto. Resolvi resgatá-lo do blog antigo antes que eu mesmo tenha vontade de alterar todo ele. Definitivamente, faz tempo que não escrevo nada assim tão delicadinho. Por isso o carinho.

Flores para Isabela

Já não era como antes. Ela não tinha este olhar escorregadio, nem estes gestos vazios de sentimento. Era sutil. De poucas, mas bonitas palavras. Indiferente, nunca foi.

– Isabela?
– Ãhm?
– Onde você perdeu a vida?

* * *

Quando Ana e Carlos deixaram o hospital com Isabela nos braços, chovia e fazia muito frio. Era o dia que pede conforto, nas palavras de Ana.

Ela adorava dias assim. E realmente sabia sentir a chuva. Era como se cada pingo d’água que tocasse o chão fosse um fragmento seu. Todos eles juntos faziam Ana. Ana sorridente, tranqüila. Ana ruiva, de olhos azuis. Belo constraste.

Carlos gostava de capuccino. Era artista plástico e bem alto. Cabelos encaracolados e sobrancelhas expressivas. Sabia usar as cores como ninguém.

– Ela é perfeitinha! Pena que não tem meus olhos!

Ana ri.

– Tomara é que não tenha a tua teimosia!

Isabela foi a convergência de sonhos e risadas. De duas vidas que se cuidavam. De noites apaixonadas e planos milimétricos. Teve uma infância perfeita. Fotos, passeios ao zoológico, tombos de bicicleta, dentinhos que caem e crescem novamente, amigos e bonecas.

– Isabela, molha somente as flores vermelhas!

Treze anos. Bonecas, só para enfeite. Passeios ao shopping. Cabelos encaracolados e muito compridos. Isabela adorava ficar observando as pessoas. Todas tinham algo que fugia a seus olhares, muito interior, muito íntimo. Algo que se esconde ao menor sinal de fragilidade.

– Todos são assim… Quanto de mim é estranho aos outros?

Quinze anos e dois meses. Isabela alta, saia xadrez, vento frio. Primeiro beijo. Filosofia e poesia. Perguntas sem resposta.

– Isabela?
– Aham
– São pra ti.
– São de quem?
– Tem um envelope.

Dezesseis anos. Uma jovem decidida. Poesia, Belle and Sebastian e Kundera. Porta do quarto fechada. Telefonemas na madrugada. Barulho do vento na janela. Palavras doces. Eu sei que vou te amar.

– O pai não vem jantar em casa outra vez?
– Não. Tá trabalhando em uma encomenda. Disse que vai chegar tarde.

Ana sem sono. A televisão sempre faz o tempo passar mais rápido. Sofá confortável. Carlos ausente. Ontem cinco minutos; hoje dez e mais um jantar. Isabela em sono sereno. Respiração silenciosa. Ana abatida.

– Chegou tarde ontem
– …
– Estava no atelier?
– Trabalho lá, não?
– Só perguntei…

Isabela quieta. Algo estranho no ar, sublimado entre olhares que não se cruzam.

– Mais café, minha filha?
– Não… Já acabei

Flores murchas no vaso sobre a mesa. Ana distante. Isabela observadora. Carlos irritado. Manhã chuvosa. Ana de aniversário. Carlos esquecido. Isabela troca as flores do vaso, e compra um presente para Ana. Carlos não aparece.

– Pai, você não vem?

Noite carregada. Isabela vai encontrar Carlos no atelier. Portas trancadas. Luz acesa. Vozes agitadas. Um olhar através da vidraça desvenda os desencontros.

– Carlos, tu tem que falar com a tua mulher…
– Tenho que ter um tempo, tu sabe disso!
– Mas tem que ser logo, eu não gosto dessa situação.
– Eu vou falar na hora certa, e ainda não é agora. Olha o que eu trouxe para ti!
– Que lindas…

Isabela volta para casa. Ana desfragmentada. Isabela vai até o jardim. Flores cortadas. Ana chora ao telefone. Isabela vai para seu quarto. Refúgio. Silêncio.

– Isabela, tu costumava molhar o jardim. Ele está secando
– Eu sei, mãe…