Archive for the 'Família' Category

O Homem da Foto

16/10/2008

Refiro-me ao homem de terno escuro. Sei que essa foto foi tirada na Rua da Praia, aqui em Porto Alegre. Sem data. Sem circunstância. No names. O tempo amarelou tudo. Encontrei-a junto com outras tantas fotografias anônimas em uma caixinha, em um brique perto do Parque da Redenção. Paguei cinco reais por ela na época, acho que alguns meses atrás, talvez até um ano. Realmente, não me lembro. Comprei a foto por um motivo muito claro: o homem da direita só podia ser meu avô. Juro que naquele dia eu coloquei em dúvida qualquer possibilidade de aquilo ser uma coincidência. E ainda vivo fazendo isso em outros casos, papo pra outro post, ou não. Enfim. Comprei a foto, impressionada com o que estava acontecendo e tentando imaginar toda a história. Ih, viajei. Ficava imaginando como a foto dele havia ido parar naquele brique, e por que justamente EU, neta dele, havia tido a idéia de passar lá e olhar aquela caixinha de fotos de um monte de gente que eu nunca vi na minha vida. O que estava acontecendo era fantástico! E ainda por cima, eu queria amaldiçoar a criatura que havia vendido a foto dele para um brique. No dia seguinte, escaneei a foto e mandei para o meu pai.

Não. Não era o meu avô na foto, meu pai disse, “mas é muuuuito parecido”. Até agora fico olhando e não entendo tamanha semelhança. A verdade é que a foto adquiriu um valor sentimental grande para mim. Não sei quem são/eram essas pessoas tão elegantemente retratadas, mas elas agora fazem parte de uma história legal.

Ontem fez uma semana que o meu avô morreu. Foi na quarta-feira pela manhã*. Ainda pude ver ele com vida, falar com ele e receber resposta e até um sorriso há algumas semanas. Isso foi no hospital. A previsão era de que ele receberia alta logo e iria para casa. Um dia perguntei para ele quando ele voltaria para casa e ele respondeu, enfático, “AMANHÔ. É estranho e triste concluir que quando eu visitar novamente os meus pais, o quarto do meu avô continuará vazio, como se ele estivesse ainda no hospital. Não sei muito bem o que pensar. Acho que porque eu estou longe de casa a ficha está caindo aos poucos. Agora eu tenho somente minhas avós. E que bom, ainda tenho avós. Fico pensando que quando elas passarem a existir também somente nas minhas boas lembranças, como os meus avôs, uma coisa inevitável acontecerá: eu não serei mais a criança de ninguém. No fundo, para os nossos velhinhos a gente sempre vai ser a criança que eles viram nascer. Para eles, só o nosso corpo cresce, entende? Para nós, sempre vai ter colo.

Durante esses dias que eu passei no Mato Grosso, e que antecederam a morte do meu avô, pude conviver mais com meu pai. Eu conheço muito a minha mãe e me identifico muito com ela, mas meu pai ainda é uma página que estou aprendendo a ler. Ele é um pouco mais reservado. É brincalhão, muito brincalhão, mas algumas coisas simplesmente não fazem parte das nossas pautas, e isso me incomoda. É o jeito dele, eu sei. E talvez isso era o que eu nunca havia entendido: o jeito dele. A nobreza e o carinho com que o meu pai cuidou do meu avô durante o tempo em que ele esteve doente, passando noites em claro e jamais deixando meu avô sentir a tristeza escondida nos olhos do filho, eram-me estranhos nele. E adianto, não me eram estranhos porque eu não esperava isso dele, mas realmente porque eu não conhecia muito meu pai. Acho que uma semana ainda não foi o suficiente, mas esse tempo valeu por anos reticentes. Meu pai é doce, muito doce. Isso me deixa feliz, e ele nem imagina o quanto.

* Sabe, a resposta é: não se diz nada. As pessoas, nessas horas, não precisam de palavras ou de alguém falando do lado. Elas só precisam do silêncio quente de um abraço.

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Gabriel

06/09/2008

O nome do meu filho vai ser Gabriel. Isso não é um futuro próximo. Isso é “um dia”. Não sei exatamente de onde surgiu essa convicção. São duas, as convicções, aliás. A primeira é a de que eu terei um menino, e não uma menina. Segundo, a escolha do nome foi sendo moldada aos poucos. Acho que minha mãe certa vez, quando eu era pequena, me contou que Gabriel era o nome de um anjo (e essa é a origem do nome do meu irmão mais novo). Gabriel é o arcanjo da esperança, revelador das boas novas, a quem foi confiada a maior de todas as missões: anunciar a chegada de Jesus.  É também o anjo mais representado nas telas de cinema. Criança ainda, eu fiquei impressionada com a história, e com o nome na cabeça. Outras coisas, com o passar dos anos, foram somando-se à sensação boa que o nome sempre me causa. Coisas simples, na verdade, como agradáveis coincidências. E não, NÃO acredito em recados divinos. Vide explicação no parágrafo seguinte. Hoje o que menos importa é se Gabriel era ou não um anjo. É a beleza do nome que me prende a atenção. Milhares de boas impressões que eu não sei descrever surgem na minha cabeça quando alguém diz que se chama Gabriel. Estranho é eu pensar que já escolhi o nome do filho que não vai ser só meu. Espero que o futuro pai da criança concorde com a idéia. Pra mostrar como todo Gabriel é cativante, ó, meu irmão, a váááaaaarios anos atrás. I-MUN-DO, brincando. Ele continua  gatinho assim, só que UM POUQUINHO maior:

Não sigo nenhuma religião, e talvez minha mãe fique chateada ao ler isso. Talvez por não ter uma crença profunda no Deus que teoricamente é o pai da humanidade, senti falta de algo em que acreditar quando o Bruno, meu amigo, morreu. Me senti vazia, com pensamentos vagos e senti a morte e a vida dispersas em todo canto, no ar. Há séculos não entro em uma igreja sem ser por mero interesse pelo seu valor arquitetônico e/ou pela arte contida nas imagens, nas paredes, em todos os cantos. A mesma coisa com a Bíblia. Não a vejo como um instrumento de guia para valores e condutas, e sim como uma obra histórica e documental. Não consigo crer que ali estão todas as grandes verdades. A Bíblia entrou para a minha lista de leituras obrigatórias, que por sinal, só aumenta, pela sua riqueza literária (poesia, profecia, anjos, pestes, demônios e alguma ironia), histórica e geográfica. É preciso considerar, sem a pretensão de reduzir o valor ou igualar a qualquer outra obra, que a Bíblia é UM LIVRO; o mais amplamente lido e distribuído de todos os tempos, e também o mais censurado, queimado e perseguido. Transcende diferenças culturais e temporais. Acho que me expliquei em relação a isso

O Rodrigo, já tão citado por aqui, sem saber sobre essa minha afeição por Gabriel, o nome, outro dia me mandou procurar Gabriel, a música, da Lamb, uma banda britânica (um duo, na verdade). Aliás, até esse post ir para o ar, acho que pouquíssima gente sabia que o meu filho, que sequer foi gerado ainda, enfim, assim um dia se chamará. Não é um grande segredo. Continuando, o Rodrigo sempre acerta! Adorei. O último álbum da Lamb, What Sound, foi lançado em 2005 e depois disso a dupla se desfez. Quem gosta de Lamb, provavelmente também gostará de Antony and The Johnsons e St. Vincent. Hmmm. Lembra também um pouco de Portishead e Massive Attack. De St. Vincent, sugiro que comecem a ouvir pelas músicas Marry Me ou We Put A Pearl In The Ground. Your Lips Are Red também é bonita. A St. Vincent só lançou um álbum até agora (Marry Me).

O vídeo de Gabriel:

Outra, enquanto eu escrevia aqui, o Flávio me mandou o link desta página, que foi por onde ele conheceu Lamb. Ali são disponibilizados materiais sobre cinema, música, literatura, aquitetura… Bem legal :)

* Existe uma trilogia chamada The Prophecy, de Gregory Widen (no Brasil, Os Anjos Rebeldes I, II e III). Os três filmes têm como protagonista o Christopher Walken (ele já protagonizou também Na Hora da Zona Morta, do Cronenberg), e o Viggo Mortensen, que volta e meia atua em filmes do Cronenberg também, fez o primeiro da seqüência. A história é uma fantasia, terror propriamente dito, em que a “fábula” bíblica sobre a guerra dos anjos, em que Lucifer, o anjo caído, e Gabriel, o anjo a quem foi aplicada a autoridade para vencer Lucifer, lutam entre si. O filme, porém mostra Gabriel como um ser cruel, diferente das passagens originais. Gabriel como anjo caído foi uma criação de roteiro para o filme, FICÇÃO não baseada na Bíblia. Mas sobre essa história da revolta dos anjos eu falo mais depois. Acho bem legal, por sinal. Ahh,  sim, sim,  mais uma coisa pra acabar o post sem anjos renegados. Tem também o filme do Wim Wenders, Asas do Desejo, que se passa em Berlim, no pós-guerra, com o Bruno Ganz (Pão e Tulipas, Nosferatu – O Vampiro da Noite…) e o Otto Sander, (Far Away, So Close, também do Wim Wenders e com a mesma temática de Asas do Desejo, O Einstein do Sexo, etc). O argumento do filme é do escritor e dramaturgo austríaco Peter Handke, de quem cito abaixo um trecho do poema Song of Childhood:

“When the child was a child,
It was the time for these questions:
Why am I me, and why not you?
Why am I here, and why not there?
When did time begin, and where does space end?
Is life under the sun not just a dream?
Is what I see and hear and smell
not just an illusion of a world before the world?
Given the facts of evil and people.
does evil really exist?
How can it be that I, who I am,
didn’t exist before I came to be,
and that, someday, I, who I am,
will no longer be who I am?”

Então fale sobre o tempo

01/08/2008

Créditos da imagem, para ele

A Europa me roubou mais um amigo na quarta-feira. Ah, que droga. Fui para o aeroporto toda chorona, me despedir, engolindo a falta que os cafés com ele vão me fazer. Até onde uma coisa pode ser considerada drama? Enfim. Minha memória ainda foi competente e honesta em me lembrar que eu estava com um livro do Ricardo na estante. Eu Receberia As Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios. Ainda não li, e o livro esteve ali o tempo todo. Simplesmente não tive o bom senso de me lembrar que não era meu e que o dono dele estava indo embora dentro de poucos dias. Peguei rápido o livro e bati a porta sem voltar pra conferir se havia desligado as luzes. Não dava mais tempo. Entrei no ônibus e sentei na primeira poltrona após a roleta, ao lado do cobrador. Larguei o livro no lugar vazio ao meu lado. Quanto tempo até o aeroporto? Chegaremos lá às doze e dez. Paciência. O avião saía às doze e meia. O cobrador olhou para o livro: desculpe a indiscrição, mas muito bonito o título do teu livro. É. Foi por isso que eu pedi emprestado, mas ainda não li.

Cheguei ao aeroporto a tempo de ver o Ricardo no portão de embarque. Ah, sabe, eu acho esses rituais de despedida bem importantes, seja lá qual for o motivo. Acho que é importante dizer oi, tchau, volte logo, não volte nunca mais, mas não gosto de dizer não volte nunca mais, por isso não sei se alguma vez disse isso para alguém. Para ele, amigo de ótimas conversas, Paris, Texas e astrologia, eu fui dizer até logo. Ele já estava entregando o bilhete. Deu tempo! Abracei um abraço meio solto e apressado e estendi o livro. Fica, fica, fica, ele me disse, estendendo o livro de volta, e se foi para a Alemanha.

Eu ainda tinha uma tarde toda de trabalho pela frente. I’m free to do what I want any old time. O Mick Jagger não calava a boca no carro durante o caminho de volta do aeroporto. I’m free to sing my song knowing it’s out of trend. Eu não sei, eu não sei. Essa liberdade não existe. Ou existe e eu ainda não aprendi a enxergá-la como deveria. Passei o dia pensando nas coisas que ando pensando na última semana. Repensando, por sinal. A Clara uma vez me questionou: o que te segura aqui, Cris, o quê? Minha faculdade, meu trabalho, algo mais, não sei. Já não moro com meus pais, mas minha irmã está aqui ao lado e não queria sair de perto dela. Desculpa tua, a Clara me disse. Pode ser. Minha família vai estar comigo onde quer que eu esteja e já aprendi a negociar com a distância, mas não sei se gosto da idéia de depender da sorte. Às vezes vale a pena. Já valeu muitas vezes. Descomplique(se). A faculdade, pelo menos, vou deixar que me complete.

Nessa mesma conversa com a Clara discutimos o que nos prende a algum lugar. Cheguei em casa hoje pensando sobre isso e fui para a cozinha, fazer a minha janta. Senti uma docilidade tão grande nas paredes brancas e na louça suja na pia. Uma presença humana muito estranha e comovente, talvez parecida com o remorso que sinto quando percebo que passei tempo demais sem molhar as plantas da sala. Como se eu estivesse desprezando meu lar sem motivo ao dizer que aqui nada me prende. Minha mãe já me falou sobre isso também quando me contou a história da nossa família. Eram desertores de guerra, Cristiana. Cada filho nasceu em um país. Teu avô nasceu na Argentina, e por isso viemos parar aqui no Sul. Mas antes disso eles viviam fugindo de um país para outro. Quando visitamos pela última vez a casa onde tua bisavó morou, em Bagé, o pequeno buraco que ela tinha no chão do sótão ainda existia. Na época era coberto por um tapete, e lá ela guardava as schmiers (geléias) que fazia. Mas sabíamos que aquele buraco no chão não havia sido feito para esconder doces. O vô Eda, nos anos 80 inventou de procurar outros cantos do Brasil, e foi para o Mato Grosso. Então ele e tua avó passavam seis meses morando lá, e seis meses aqui no Sul. Era sempre assim. Ainda penso que esse medo que eles sentiam continuou seguindo a família mesmo depois que ela se estabeleceu em um lugar. E eu ainda não sei se estou no meu lugar. Pois é. Eu também não, mãe.

Sinto que Porto Alegre me acolhe como se fosse um cobertor quando chega o inverno. O sol abraça de uma forma intensa demais aqui. É impressionante. Mas sabe que eu senti isso em Buenos Aires também? E talvez eu só não tenha sentido isso ainda em outros lugares do mundo porque não conheço o mundo. Precisamos usar mais os mapas, os países, a cidade e usar mais as ruas. Indo para o aeroporto vi que algumas ruas pareciam parte de outra cidade. Não é só o meu apartamento que eu quero considerar minha casa. Sinto falta de expandir o que considero ser o meu lar, doce lar. O mundo um dia não te disse seja bem-vindo?

Acho que no fundo eu morro de medo de mudanças. Normal, todo mundo sente isso, mas eu não gosto de justificar os meus receios apontando receios alheios e coletivos. Acho falta de criatividade. Eu estou falando em mudanças no geral, mudanças de emprego, de apartamento, de ponto de vista e temperamento, e de lar. E outras. Mas ninguém foi feito pra ser pedra, certo? No meu caminho tinha uma pedra e não era eu. Passei a quarta-feira toda trabalhando e olhando para o livro que eu trouxe de volta do aeroporto. Às vezes folheava algumas páginas. Conhecer Lavínia tornou invisíveis as outras mulheres. Tornou-as indesejáveis. Fiquei imune à sedução. Página 51, segundo parágrafo. Preciso terminar logo a faculdade, e agora está perto, só que a minha busca nos últimos semestres tem sido muito mais do que por encerrar esse tempo, mas aproveitá-lo. E tenho arrancado páginas de livros com os olhos nos últimos dias, os últimos de férias. Segunda-feira as aulas recomeçam, e o meu tempo para a literatura vai diminuir, então vou ficar um pouco mais sozinha. Mas ainda tem o mundo, não? E por mais que ele seja um traço um pouco borrado, eu não quero sentir que estou “presa” na minha própria casa.

Só As Mães São Felizes

27/07/2008

Há duas semanas fui visitar a minha avó, em Cruz Alta. Acho que não falei nada por aqui na época, mas ela teve um AVC (derrame). Não foi agora. Isso já faz algum tempo. O fato é que ela passou dias bem pesados. Ela e a família toda, porque minha avó é a avó do coração, a matriarca da família, aquela que quer todos em volta, que manda meinhas de lã, mantas e potes de mel para aquecer o nosso inverno, que quer mimar os filhos, os netos, o(a)s namorados(as) dos netos (ela chama de brotinhos, os namorados, hahaha, ai, ai, só minha avó), os amigos, os passarinhos.

A recuperação foi demorada, cercada de cuidados e da família, principalmente porque minha avó sempre foi uma pessoa muito ativa. Da casa, e é uma casa enorme, antigona, com um jardim recheado de plantas, ela cuidava praticamente sozinha, além de viajar, fazer caminhadas… Tudo isso foi interrompido por causa do tratamento. Outra briga foi fazer ela entender que o cabelo cresceria novamente (por causa da cirurgia, uma parte do cabelo foi raspada), e que ela não precisava esconder a beleza dela. Acho minha avó muito bonita. Então, para disfarçar, ela comprou vários lencinhos e usava um em cada dia. A dona Hilda é delicada e hoje, depois de recuperada, tem um sorriso que não cabe no rosto. Ela toca os objetos com as pontas dos dedos. Com os mesmos dedos gordinhos, vindos da Alemanha, ela dobra a parte da toalha de mesa que cai na lateral e encosta na barriga dela para cima da mesa, deixando a toalha do lado inverso, enquanto toma uma xícara de café-com-leite depois do almoço (por sinal, reparei que nessa última vez em que estive lá ela não fez esse ritual). O engraçado é que minha mãe faz exatamente a mesma coisa. Borda da toalhinha para cima, inverte, “filha, me faz um café-com-leite?”. E eu já me peguei fazendo a mesma coisa com a toalha.

Não tenho dúvidas de que eu herdei muitas, mas muitas características MESMO, da minha mãe, e é isso que faz eu e ela sentirmos a presença uma da outra num dia chuvoso. Não sei contar quantas vezes sentei na varanda de casa, quando eu era criança, para assistir à chuva com a minha mãe, assim como também não sei desviar de uma lojinha de produtos orgânicos, coloniais, e essas frescuras gostosuras. Culpa dela. O gosto pela poesia deve ter vindo do Poema Enjoadinho, do Vinicius de Moraes, o poetinha. Foi esse poema que ela escreveu na primeira página do caderno de receitas dela, e eu sempre lia ele quando pegava aquele caderno:

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio

E eu ADORAVA esta parte. Achava tri engraçada:

Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

As mãos, herdei dela também. Dedos finos, de pianista. Ou de ladra, como dizia meu avô. E no fim, contei toda a história acima só pra mostrar o que minha mãe me mandou hoje, por msn. Mostrei pra ela o template novo do blog, sem a foto minha que ilustrava o topo do antigo. Prontamente ela me respondeu:

marlene diz (23:37):
sim. ficou bom, mas as mãos são muito significativas
marlene diz (23:37):
eu reconheceria elas entre um milhão de mãos

Minha mãe não existe. Se pudéssemos escolher nossas mães, eu escolheria ela entre um milhão de mães.

Tou emo, mas bem de longe.

01/04/2008
cris5corte.jpg 
Do tempo em que fazer manha resolvia tudo.
Eu sou a emburrada menos convicta.

Ai, que saudades dos meus irmãos! E dos meus pais. Passei os últimos dois finais de semana acordando com uma impressão de casa vazia, querendo eles por perto. Na Páscoa senti um aperto no peito, uma vontade de estar com eles. Passei mais de uma hora com meu irmão no messenger! Essas datas são bem fortes pra mim. E serão para os meus filhos, espero eu, porque gosto dessas tradições. Quando eu tiver meu filho (eu quero um menino, e só depois uma menina. bem assim, como se eu pudesse escolher), ele vai pintar casquinhas de ovos, deixar meias na janela e coisa e tal.

Domingo acordei cedo e fui para a cozinha. Adoro a cozinha aqui de casa. Pequena, toda branca e com a geladeira cheia de fotos e ímãs. Tem até bilhete de biscoito chinês. Ela não tem tudo que uma GRANDE cozinha tem, mas tem o essencial. Tudo bem, eu também não sou uma GRANDE cozinheira, mas sei o essencial. Abri a casa e fiz chimarrão com chá de hortelã ao som de Explosions in the Sky. Ah, a trilha de Lost in Translation também é bem boa. Engraçado, mas ter feito chimarrão de manhã fez um domingo parecer novamente um domingo, coisa que não acontecia há séculos.

Eu moro há oito anos fora de casa. Na verdade nem sei porque ainda uso a palavra casa. E uso a palavra duas vezes, uma para falar do meu apartamento, aqui em Porto, e outra para falar da casa dos meus pais. Na verdade casa = home, sweet home. Esse é o sentido. Me sinto estranha na casa dos meus pais (a outra casa), porque não reconheço mais ela. Cada vez que vou passar uns dias com eles começo a abrir e fechar as gavetas e os armários enlouquecidamente, para tentar reconhecer tudo. E fico descobrindo os cantos dos quais já nem me lembrava mais. A familiaridade com os quartos e corredores já se foi há tempos. Os tapetes e cortinas então, nem devo citar. O cheiro também já me soa estranho. Não sinto o cheiro da minha casa, mas sinto o cheiro de tecido lavado com amaciante (Comfort, diria minha mãe) da casa dos meus pais. E eles por perto, na casa deles, recebendo visita.

P.S.: Acabei de cadastrar a categoria FAMÍLIA ali do lado. Não sei porque ainda não havia feito isso antes.

* * *

Eu não me lembro de nenhuma outra época em que eu estivesse mais envolvida com meu trabalho do que as últimas semanas. Também não me lembro de ter perdido o sono, como nos últimos dias, por causa de idéias que não paravam de chegar, todas aplicáveis ao trabalho (ainda: perdendo o sono por estar empolgada com isso). O que mais me surpreende é que eu estou gostando, mesmo estando cada vez mais distante do jornalismo e das redações. A idéia de planejar algo, pensar nos detalhes, combinar, produzir, publicar e ver o resultado está tomando conta do que antes era paixão por escrita, textos, reportagens… Não sei, não sei. Nos meus planos não está fugir do jornalismo, mas acho que o cardápio é bem maior do que eu imaginava.

Manheeeeeeee!!

13/05/2007

Acabei de ligar pra minha mãe. Somos muito parecidas em vários aspectos, e em outros, discordamos ferozmente. O papo era sobre religião (sim, com o Papa por aqui, o assunto surgiu em cadeia). E eu defendendo que hoje não existe mais religião, que o melhor nome seria crença. E ela, ora concordando, ora dizendo “eu acho que não é por aí”. E o melhor de tudo, sabe, minha mãe nunca me obrigou a ter um posicionamento igual ao dela em nada. Acredite no que tu quiser, mas saiba porque tu está acreditando nisso, e se vale a pena. Já quebrei a cara, e já fui feliz.

Talvez minha escolha por jornalismo tenha, de forma imperceptível (até genética, eu diria), um dedo dela. A teimosia também deve ser herança diretamente ligada a ela, o que não é de todo mal.

Enfim, eu sei que ela passa por aqui de vez em quando. Então esse post é só mais uma forma de dar um abraço, e dizer EU TE AMO, e OBRIGADA.

* * *

Serve também pra minha tia, que quando eu sabia que não passaria no vestibular, me disse: “E qual é a pior coisa que poderia te acontecer?” Depois disso, calei a boca e parei de chorar. Serve pra todas as minhas decisões até hoje, sempre.

: )

07/05/2007

Passei o fim de semana com a minha vó. Adoro ir pra lá. A casa dela é daquelas antigonas, com teto bem alto, corredor comprido cortando a sala, pátio espaçoso e bastante ar pra respirar. Acabou de ser reformada. As paredes de fora agora tem um amarelo bonito, contrastando com as grades pretas dos portões. As portas internas continuam com a mesma madeira e com as mesmas fechaduras de mais ou menos cinqüenta anos atrás. Sabe quando os detalhes arcaicos e modernos casam em perfeita harmonia? Tal como Manuel Bandeira, falando sobre a casa do avô dele, penso que “tudo lá parecia impregnado de eternidade”.

[voltei de lá com chuva. noite. vento. e música.
And what did you dooo? And what did you saay?
What did you doooo and what did you say??
Skillet on the stove is such a temptation,
maybe I’ll be the special one that doesnt get burned.
What the fuck was I thinking?
]

24/04/2007

Minha irmã resolveu desenterrar meus CD’s da Legião. De tempos em tempos ela faz isso. E sabe, eles estavam bem esquecidos… Ouvi tanto, mas tanto, que enjoei. Bem, os fãs que me perdoem (e olha que eu tenho todos os CDs),  mas a voz do Renato Russo é enjoativa, sim. Ainda gosto, mas bem menos do que na adolescência. Legião me lembra sempre do primeiro menino com quem fiquei. Comecei a ouvir por causa dele e acabei gostando da banda. Eu tinha 14, ele 15. Bem carinha de guri, uma baita tatuagem de águia nas costas e camisetas que eu conhecia de longe. Na verdade era o mais feinho da turma. Eu não achava. “Tu tem gosto estragado”, diziam minhas amigas. Às vezes ainda dizem. “Me prendo em detalhes”, eu respondo.

Esses dias acordei e a Sara tava ouvindo “Sexo Verbal”, na versão que o Pato Fu fez:

“Feche a porta do seu quarto
porque se toca o telefone
pode ser alguém
com quem você quer falar
por horas e horas e horas

Tem coisa mais juvenil e boba e risonha do que isso? Nem desconfiava minha mãe que não era para ouvir música que eu fechava a porta do quarto.